Restaurantes

Quando um chefe continental é seduzido pelos Açores

Numa visita recente à ilha de São Miguel, ainda antes do Verão começar, foi surpreendente ouvir dos locais que a grande preocupação com o extraordinário crescimento do número de visitantes no pós-pandemia não era arranjar lugar para eles ficarem, mas sim restaurantes onde pudessem encontrar mesa vaga. De facto, este convite do hotel Senhora da Rosa, nos arredores de Ponta Delgada, incluía a visita a alguns dos locais mais turísticos da ilha e, apesar de ter ocorrido a meio da semana, estavam todos repletos de gente de diversas proveniências, sobretudo de países europeus e americanos do Sul e do Norte, pelo que percebi.

Não ia a São Miguel há seis anos e são evidentes os benefícios que o turismo trouxe, tal como acontece noutros pontos do país, nomeadamente no alargamento do mercado que viabiliza restaurantes, lojas e também hotéis como o Senhora da Rosa, que há uns anos foi à falência quando ainda era gerido pelos pais da actual responsável, e que não só está hoje complemente lotado (o mesmo se passa com várias outras unidades hoteleiras micaelenses) como apresenta dois restaurantes chefiados desde 2019 por João Alves, um continental rendido aos encantos e aos produtos dos Açores, que são óptimas opções a óptimos preços para quem visita a ilha e enfrenta as tais dificuldades em encontrar boas mesas.

Nascido em Lisboa há 44 anos, numa família oriunda de Tomar, João Alves fez a Escola de Hotelaria em Salvaterra de Magos e teve uma primeira passagem pelo hotel da Penha Longa, em Sintra, então sob a direcção de António Bóia (hoje no JNcQUOI) que durou quase cinco anos.  Foi depois para o Eleven, do chefe Joachim Koerper, durante seis anos, para voltar à Penha Longa como responsável pelo catering e banquetes. Foi nesta segunda passagem, que durou outros seis anos, que conheceu Joana Damião Melo (especializada em gestão hoteleira, tendo também no currículo vários anos no Palace de Madrid), a actual responsável pela Senhora da Rosa, de que é proprietária juntamente com o irmão, o actor Miguel Damião, que vive no continente. Quando ela decidiu readquirir e reabilitar o hotel familiar, situado numa quinta do século XVIII, convidou João Alves para chefiar os dois restaurantes, o Mirante, situado no último piso, com uma cozinha de influência asiática, e o Magma – onde também se serve um magnífico pequeno-almoço buffet – mais voltado para a contemporaneidade aplicada aos produtos locais.

João Alves

Situado no último piso, com terraço e bar, o Mirante é mais para a descontracção e a partilha, com uma cozinha que tira partido da excelência dos peixes locais através de várias propostas sushi-sashimi, com uma proposta curiosa e bem sucedida de “nigiris regionais”, fusão nipo-açoriana, que inclui “bife à regional com ovo de codorniz estrelado”, outro de “chícharro frito com molho vilão” e um terceiro, de atum. Uma proposta divertida, mas que não deixa os sabores em segundo lugar. Também muito bom o caril vermelho tailandês de frango, com a particularidade de recorrer às malaguetas locais. Com preços muito acessíveis e um ambiente alegre, julgo que se trata de uma opção bem simpática para quem está pela ilha. (Ver menu aqui).

Já no Magma, que também abre para almoço, há uma cozinha mais personalizada, onde se nota o interesse de João Alves em interpretar os produtos locais, de que se tornou um bom conhecedor. Lembro-me de ter gostado do tártaro de atum com que comecei o jantar, que quer fazer lembrar o original, de carne de vaca, incluindo a parte de “cozinha de sala”, com os diversos ingredientes a serem misturados à frente dos clientes. Veio depois um prato esplêndido – “Homenagem ao minhoto e à linguiça” – em que uns pequenos inhames (ali chamados de “minhotos”) foram assados no forno e outros cozidos. O caldo obtido neste segundo preparo é depois conjugado com o do primeiro, resultando numa sopa vencedora que despertou o entusiasmo unânime da mesa de jornalistas em que me encontrava. O prato de peixe era de cântaro, o qual, pelo que percebi, será próximo do cantaril continental, acompanhado por beterraba e curgete, e o de carne uma vaca com batata doce regional. Tudo bem feito, sem grande rasgo, mas a cumprir o que espera de um restaurante deste nível. Por fim, à sobremesa, de novo destaque para os produtos locais através de um belíssimo pudim de queijo com salva ananás e massa sovada.  (Ver menu aqui)

A viagem compreendia também a visita a alguns dos produtores que fornecem habitualmente a Senhora da Rosa, começando pelo projecto Bio Kairós, uma cooperativa de âmbito social e de inclusão, cuja proximidade do hotel e o contacto permanente de João Alves faz com que seja quase uma horta própria, de onde diariamente chegam os legumes e as ervas aromáticas para os seus restaurantes. Extraordinários são os ananases biológicos da Quinta da Feteira, os melhores que já me lembro de ter provado. São produzidos em estufa por João Oliveira, cuja família está neste negócio há mais de um século, num processo que chega a demorar dois anos. São comercializados em exclusivo nos supermercados Continente da ilha, mas como João Oliveira é tio dos proprietários da Senhora da Rosa também ali se encontram, nomeadamente ao pequeno-almoço, e também há de vez em quando na pequena loja do hotel. A propósito, aqui fica uma indicação para aproveitar as inúteis cascas dos ananases: quando se chega ao hotel, a habitual água de boas vindas é aromatizada com elas e o resultado é absolutamente brilhante.

Na ronda pelos fornecedores, houve ainda tempo de visitar, na zona das Furnas, a produtora de bolos lêvedos Glória Moniz, igualmente do melhor que já provei, mas faltou a ida à Capri, cujos queijos frescos João Alves garante serem extraordinários. Mesmo não sendo fornecedores habituais da Senhora da Rosa, as queijadas do Morgado, em Vila Franca do Campo, foram igualmente incluídas, como direito a visita guiada com o próprio responsável actual Adelino Morgado a explicar o processo de fabrico diante das vidraças da cozinha aberta, onde se veem as funcionárias a trabalhar. É um êxito tremendo, procurado por milhares de turistas, e quem, como eu, prova uma queijada destas acabada de fazer percebe a razão. Claro que, quando soube que podem ser congeladas (tirar uma hora antes de consumir), levei logo uma dúzia. Apesar de Adelino Morgado ter a inteligência de não se querer expandir, não pondo assim em perigo a extraordinária qualidade que ostentam as suas queijadas, elas podem ser encontradas em certos locais do continente como no El Corte Inglès. Para terminar, fica ainda a sugestão de ir ao hotel Terra Nostra para almoçar o tradicional cozido das Furnas, um milagre de sabor e leveza, sem sombra de enxofre, com um serviço de sala impecável, de acordo com as tradições desta histórica casa. Não sendo eu um grande apreciador de cozido à portuguesa, este das Furnas encheu-me as medidas sem me tirar o apetite para o jantar. Cada vez gosto mais dos Açores.

Hotel Senhora da Rosa

Rua Senhora da Rosa, 3, Ponta Delgada

Tel.: 296 100 900

e-mail: info@senhoradarosa.com

www.senhoradarosa.com

Restaurante Magma

Horário: aberto todos os dias para almoço e jantar

Restaurante Mirante

Horário: aberto de terça-feira a domingo, das 17h às 23h

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

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