“Foi batido um recorde mundial duas vezes na Sotheby’s Nova Iorque.”
Foi assim que me apareceu o post no Instagram da Sotheby’s — empurrado pelo algoritmo, com direito a vídeo e a uma actuação particularmente afinada do leiloeiro, daqueles que fazem subir os lances quase por inércia, entre cadência e teatro. No centro da acção, duas magnums de Château Lafite 1870, provenientes de Glamis Castle, a serem disputadas até aos 106 mil e 200 mil dólares.
Confesso que, não fosse um detalhe, talvez tivesse passado à frente. Mas o pormenor estava lá — e tinha nome: The Billionaire’s Vinegar (O Vinagre do Bilionário), livro de Benjamin Wallace — creio que não está editado em Portugal — que li há uns anos e que me ficou na memória precisamente por desmontar o universo dos grandes leilões de vinho. Some-se a isso uma série de comentários no post — alguns divertidos, outros cépticos — e a curiosidade ficou instalada. Já lá vamos.
Para já, o essencial: a Sotheby’s fala em “recorde mundial”, mas no contexto certo — isto é, para este vinho específico, neste formato e com esta proveniência. Não há aqui propriamente truque de linguagem; há, isso sim, a habitual tendência deste mercado para trabalhar em camadas de recordes, categorias e subcategorias que permitem que a palavra “recorde” apareça com alguma frequência.
Ainda assim, vale a pena enquadrar. Porque não, não estamos perante o recorde absoluto do vinho em leilão. Esse continua a estar associado a uma garrafa de Romanée-Conti 1945, que em 2018 atingiu 558 mil dólares na Sotheby’s — um valor que redefiniu o mercado e que, desde então, tem servido de referência sempre que se fala em preços máximos. Há notícias mais recentes de valores ainda superiores, nomeadamente em leilões conduzidos pela Acker, uma das maiores casas de leilões de vinho do mundo, embora sem o mesmo grau de consenso e sedimentação.
E vale a pena abrir aqui um parêntesis. A Acker não é uma casa qualquer, tem peso real no mercado, mas esteve no centro do caso Rudy Kurniawan, o maior escândalo de fraude no vinho conhecido. Durante anos, vinhos falsificados circularam em leilões de topo, incluindo através da própria casa, num episódio que acabaria por dar origem ao documentário Sour Grapes (2016), que passou pela Netflix. O caso não invalida a relevância da Acker hoje, mas ajuda a perceber por que razão, neste mercado, a questão da validação e da proveniência continua a ser tratada com particular atenção — sobretudo quando entram em jogo valores mais elevados.
Isto não retira relevância — para quem se interessa por estas coisas — ao que aconteceu em Nova Iorque. Pelo contrário. Ajuda, isso sim, a colocá-lo no sítio certo. Porque se há algo que este leilão mostra é que Bordéus continua a ter uma capacidade única para gerar narrativa — mesmo que, nos últimos anos, seja a Borgonha (e em particular a Romanée-Conti) a dominar o topo absoluto dos preços.
No caso destas garrafas de Lafite 1870, o valor não está apenas no vinho. Está no conjunto: pré-filoxera, formato magnum, proveniência aristocrática, registos de cave que remontam ao século XIX, e a própria história da cave de Glamis Castle, já lendária desde a venda na Christie’s em 1971. É esse tipo de combinação que transforma uma garrafa em peça de colecção, numa relíquia ou, se quisermos ser menos solenes, num excelente argumento para justificar um lance de seis dígitos.
E é aqui que o livro de Wallace volta a fazer sentido. The Billionaire’s Vinegar — O Vinagre do Bilionário — parte de outra garrafa de Lafite, um 1787 alegadamente ligado a Thomas Jefferson, que bateu recordes nos anos 80 (cerca de 156 mil dólares à época) e que mais tarde se tornou um caso paradigmático de suspeita de falsificação. Mas mais do que resolver (ou não) esse mistério, o livro expõe o funcionamento deste mercado: a importância da proveniência, o peso das casas de leilão, a autoridade dos especialistas, e sobretudo a facilidade com que o valor se constrói a partir de uma história convincente.
Não é difícil fazer a ponte. No caso de Glamis Castle, tudo aponta para uma proveniência sólida e bem documentada. Mas o mecanismo — aquilo que faz disparar o valor — é essencialmente o mesmo. Não se compra apenas vinho. Compra-se uma narrativa.
Talvez por isso os comentários ao post da Sotheby’s sejam quase tão interessantes como o próprio leilão. “Acabaram de comprar um vinagre épico?”, perguntava um utilizador. Outro respondia que “estas garrafas quase de certeza nunca serão abertas”. E havia ainda quem resumisse tudo a uma ideia simples: “demasiadas pessoas compram vinho por ego”.
Há alguma ironia nisso, claro. Mas também há uma certa lucidez — se é que “lucidez” seja uma palavra que se possa usar neste contexto.
Porque no topo deste mercado o vinho deixa, em larga medida, de ser um produto para consumo. Passa a ser um objecto de colecção, um marcador de estatuto, um fragmento de história — ou, se quisermos manter a provocação, uma espécie de “vinagre de bilionário” que ninguém tenciona provar, não vá o diabo tecê-las.
Para enquadrar: em 1985, um Lafite 1787 alegadamente ligado a Thomas Jefferson bateu recordes com cerca de 156 mil dólares; em 2018, uma Romanée-Conti 1945 chegou aos 558 mil; mais recentemente, o mesmo vinho terá ultrapassado os 800 mil em leilão. O Lafite de Glamis fica nos 200 mil — recorde para este vinho, neste formato, com esta história. O que é, convenhamos, suficiente.
Mas o que torna este leilão mais interessante do que um simples número não é o valor em si — é o que ele revela sobre o mercado, sobre quem compra, e sobre a forma como a história pode valer tanto ou mais do que a substância.
Ou, dito de forma mais directa: há vinhos que se compram para beber, e há vinhos que se compram para existir. Estes pertencem claramente à segunda categoria — mesmo que continuemos todos, com alguma convicção e um certo auto-engano, a chamar-lhes vinho.
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