chefes do Evai e Tuju no palco a receberem 3 estrelas Michelin
Restaurantes

Guia Michelin Brasil 2026: afinal, ter três estrelas é possível — e foram logo dois!

O Guia Michelin Brasil 2026 atribui pela primeira vez três estrelas a dois restaurantes — ambos em São Paulo. Um momento histórico, com impacto que vai além do país.

A pergunta é um pouco retórica e remete para a ansiedade que se tem visto em Portugal nos últimos anos: pode um país sem três estrelas Michelin chegar lá? Bom, o Brasil responde agora de forma directa: pode. E não com um, mas com dois restaurantes de uma vez.

O Guia Michelin revelou no Rio de Janeiro a edição 2026 dedicada a Rio de Janeiro e São Paulo, com Tuju e Evvai a conquistarem três estrelas — as primeiras não só do país, mas de toda a América Latina. É um momento simbólico, que encerra um ciclo que vinha desde 2015, quando o guia entrou no Brasil, sempre com a sensação de que faltava esse último patamar (e onde é que já ouvimos isto?).

A presença do director dos guias, Gwendal Poullennec, na cerimónia — algo pouco habitual nas edições mais recentes, onde tem surgido sobretudo em vídeo — acaba por reforçar essa ideia de ocasião especial. Fica a dúvida, com alguma ironia: será que agora só vem quando há três estrelas para anunciar?

Um salto no topo, pouca mexida na base

Abaixo das novas três estrelas, o cenário muda pouco. Lasai, Oro e D.O.M. mantêm as duas estrelas, e na categoria de uma estrela surge apenas uma novidade, Madame Olympe. O desenho geral é claro: o guia cresce em altura, mas pouco em largura (ao contrário do que aconteceu por cá).

Em números, a edição 2026 apresenta 2 restaurantes com três estrelas (ambos novidades), 3 com duas estrelas, 19 com uma estrela (uma novidade), 44 Bib Gourmand (seis novidades), 81 restaurantes recomendados (sete novidades) e 3 com Estrela Verde.

São Paulo volta a concentrar o topo da pirâmide, reforçando o seu papel como centro do fine dining no país, enquanto o Rio mantém relevância mas sem acompanhar esta subida. Sobre os resultados desta edição, Cris Beltrão, colaboradora do Mesa Marcada e da Veja Rio, sublinha que “especialmente o Tuju já vinha cavando essa estrela desde a inauguração. Adoro a ideia da comida e o conceito da casa. Hoje fujo um pouco de locais mais ritualescos, mas admiro a intenção, a curadoria dos ingredientes e a pesquisa histórica”. Sobre o Rio, acrescenta que “o novo Lasai, no novo Sofitel, diante para o mar, terá tudo para conseguir a terceira estrela que a comida já merece há muitos anos, mas não sei se o Rio quer ser ritualesco. O Rafa não é pessoa da toalha na mesa e isso também faz parte da identidade”.

A concentração geográfica do guia mantém-se outro dos temas centrais. A edição 2026 continua limitada a Rio de Janeiro e São Paulo, o que deixa de fora outras regiões com crescente relevância gastronómica. Para Cris Beltrão, a explicação é menos misteriosa do que parece: “muitos estados brasileiros ainda não enxergam o turismo gastronómico — especialmente o estrangeiro — como um motor da economia local. Rankings mundiais ajudam a colocar-nos no mapa e a inspirar viagens”. E acrescenta: “estamos, no mínimo, a 10 horas de voo dos principais emissores de turismo e a comida é um terço da motivação para viajar, representando cerca de 40% da economia mundial”.

Um mapa ainda incompleto

Há ainda um dado que ajuda a enquadrar melhor esta discussão. O Brasil é, neste momento, o único país da América Latina com restaurantes de três estrelas, mas também um dos poucos com presença do guia. Para além de Rio de Janeiro e São Paulo, o Guia MICHELIN está na Argentina (mas apenas em Buenos Aires e Mendoza) e no México, aí sim com uma cobertura mais alargada, que inclui várias regiões para além da Cidade do México. Países com forte projecção gastronómica, como o Peru, que se tem destacado no panorama gastronómico mundial, bem como na lista do The World 50 Best Restaurants, continuam fora do radar.

Isto não retira relevância ao feito brasileiro, mas ajuda a colocá-lo em perspectiva: mais do que uma liderança absoluta, trata-se também de um efeito da própria geografia do guia.

Há ainda um contexto que ajuda a perceber esta edição. O Guia Michelin regressa ao Brasil depois de uma ausência de quatro anos, na sequência da pandemia, e esse regresso tem também uma dimensão estratégica. “O Michelin estar no Brasil depois de quatro anos ausente é um grande feito. Se outros estados ainda não têm condições ou não reconhecem a importância de trabalhar essa frente, o país — especialmente a Embratur — tem feito esforços nesse sentido”, nota.

Para quem, em Portugal, tem acompanhado a discussão em torno das três estrelas, fica pelo menos uma conclusão simples: afinal, é possível. E quando acontece, pode acontecer de uma só vez.

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