Ilustração com o Bibendum, mascote da Michelin, junto ao símbolo da Estrela Verde e a uma placa com a inscrição "Estrela Verde 2020–2025", numa alusão ao fim desta distinção de sustentabilidade.
Opinião

A Michelin trocou a Estrela Verde pelo Mindful Voices. Fez a escolha certa?

O Mindful Voices marca o início do fim da Estrela Verde Michelin. Mas esta mudança representa uma evolução natural do guia francês ou a admissão de que a sustentabilidade nunca encontrou verdadeiramente o seu lugar dentro do modelo Michelin?

Há decisões institucionais que dizem muito mais pelo espaço que ocupam na comunicação do que propriamente pelo ruído que geram. Em meados de maio deste ano, o Guia Michelin emitiu um comunicado global com contornos de manifesto: o lançamento do Mindful Voices. Apresentado como uma plataforma editorial destinada a amplificar as vozes de chefes, hoteleiros e produtores de vinho com práticas sustentáveis, o projecto trazia consigo uma consequência de peso: o fim progressivo e definitivo da Estrela Verde, o galardão ligado à sustentabilidade criado pelo guia francês em 2020.

A escolha do palco para a estreia oficial desta transição foi cirúrgica: a cerimónia dos Países Nórdicos, que decorreu a 1 de junho em Copenhaga. Contudo, quem acompanhou o rescaldo da gala escandinava percebeu rapidamente que a nova e orgulhosa aposta da Michelin em torno da sustentabilidade acabou por ter uma visibilidade pífia. O impacto mediático em torno da consagração das três estrelas do Kadeau Copenhagen dominou as atenções, relegando a discussão da plataforma para segundo plano. No xadrez comunicacional da Michelin, a força da gastronomia pura acabou por ditar o ritmo.

O corpo estranho da Estrela Verde

Para compreender a transição para o Mindful Voices, é preciso recuar ao nascimento da Estrela Verde. Desde o primeiro momento, a distinção foi recebida com ceticismo por uma parte considerável do sector. A acusação latente de greenwashing nunca largou o galardão. Se a Michelin sempre baseou a sua reputação numa certa clareza técnica dos seus critérios de avaliação gastronómica, a Estrela Verde operava num limbo de difícil verificação.

Embora os inspetores fizessem uma primeira triagem, a atribuição do trevo verde dependia, na verdade, de um extenso questionário enviado posteriormente aos restaurantes. O problema de fundo sempre foi esse: analisar auditorias ambientais, triagem de resíduos ou pegadas de carbono nunca foi o métier natural dos inspetores do guia.

A reação mais veemente a este modelo veio precisamente da Escandinávia. Em 2021, o chefe Christian Puglisi (então à frente do pioneiro Relæ, em Copenhaga) criticou publicamente o prémio. O argumento era claro: a sustentabilidade na restauração é uma prática diária, complexa e estrutural, incompatível com selos de marketing atribuídos por entidades externas sem competência técnica de auditoria e cujos critérios de avaliação permaneciam opacos.

Apesar das críticas, a Michelin insistiu. Porém, a validação deste selo gerou outro problema colateral: a interpretação abusiva por parte de alguns restaurantes e das suas agências de comunicação. Tornou-se frequente ler comunicados onde um estabelecimento detentor de uma estrela gastronómica e de uma estrela verde se autoproclamava vencedor de “duas estrelas Michelin”, confundindo a cabeça dos clientes e subvertendo a própria hierarquia do guia. Nos últimos tempos, o esforço de divulgação do galardão começou a esmorecer, evidenciando que a distinção nunca encontrou verdadeiramente o seu lugar dentro da estrutura da publicação.

A cosmética do Mindful Voices

Mindful Voices surge, assim, como uma saída de emergência corporativa. Gwendal Poullennec, Director Internacional dos Guias Michelin, defendeu o projecto como uma evolução natural que acompanha a expansão da marca para os hotéis (com as chaves) e para o universo dos vinhos.

Na prática, a mudança de formato é uma admissão implícita. Ao contrário da Estrela Verde, o Mindful Voices abdica do estatuto de prémio físico. Transforma-se numa chancela editorial, num conjunto de perfis e artigos alojados no site e na aplicação do Guia. A Michelin percebeu que não deve tentar ser uma auditora técnica em áreas fora do seu controlo. Ao migrar para o formato de entrevistas e perfis individuais de chefes pioneiros, o Guia livra-se do peso da avaliação numa área onde a sua credibilidade sempre foi mais discutida e assume uma função puramente narrativa.

Neste capítulo, importa notar que a Michelin não está a ser propriamente original. O formato mimetiza, em larga escala, o que a organização do The World’s 50 Best Restaurants já faz com o seu prémio “Champions of Change”: focar a atenção na história e no impacto social ou comunitário do indivíduo, em vez de avaliar a infraestrutura do restaurante. A diferença é que o 50 Best assume o seu ADN de marca de media e entretenimento; a Michelin tenta agora equilibrar-se entre o peso da história e as exigências do storytelling digital. 

O caso português acrescenta uma camada adicional de ironia a esta transição. Durante largos anos, quando Portugal ainda integrava o guia ibérico, a Estrela Verde teve uma presença quase residual. As distinções atribuídas a restaurantes portugueses eram poucas e raramente mereciam destaque. Só mais recentemente, já no contexto do Guia Michelin Portugal, o galardão começou a ganhar alguma visibilidade junto dos profissionais e dos meios especializados.

Ainda assim, a sua influência parece ter permanecido sobretudo ao nível da imagem e do posicionamento dos restaurantes, mais do que da capacidade efectiva de atrair clientes. E é precisamente quando o selo começava finalmente a consolidar algum reconhecimento público que a Michelin decide substituí-lo por um novo conceito editorial. Resta agora perceber qual será o espaço reservado ao Mindful Voices em Portugal: se terá um papel relevante na comunicação do guia nacional ou se acabará remetido para um lugar semelhante ao que a Estrela Verde ocupou durante grande parte da sua existência.

O silêncio de Copenhaga

Havia uma enorme curiosidade no sector para perceber como é que este projecto seria materializado na gala dos Países Nórdicos — ironicamente, a região onde o escrutínio sobre o impacto ambiental é mais evidente.

A resposta traduziu-se numa presença muito mais discreta do que a ambição do anúncio deixaria antever. Na noite de 1 de junho, os holofotes estiveram focados nas novas estrelas tradicionais. Na comunicação oficial do evento, a transição para o Mindful Voices ocupou um espaço relativamente secundário face ao destaque dado às novas estrelas gastronómicas e os primeiros perfis publicados no site (dedicados a figuras como Heidi Bjerkan) surgiram sem o impacto que uma mudança estrutural faria prever. A Michelin parece ter optado por uma transição suave e gradual para evitar a fricção imediata com os chefes que ainda usavam o selo verde como trunfo comercial.

E se calhar era nisso, na essência da cozinha, que se deviam focar. É aí que continuam a ser únicos e inimitáveis. É a avaliação gastronómica que lhes deu credibilidade e que mantém o Guia Michelin com a relevância que preserva passados mais de cem anos desde a primeira edição. Percebe-se a importância da adaptação aos novos tempos e às exigências do mercado, mas quando a mudança é forçada, acaba sempre por parecer um corpo estranho.


Discover more from Mesa Marcada

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

0 comments on “A Michelin trocou a Estrela Verde pelo Mindful Voices. Fez a escolha certa?

Leave a Reply

Discover more from Mesa Marcada

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading