Vista da Rua da Silva, em Lisboa, com esplanadas, restaurantes independentes e ambiente de bairro numa das zonas emergentes da restauração da cidade.
Guias Restaurantes

Lisboa Lado B: Mais de 30 Restaurantes fora do roteiro habitual – 1.ª parte

Mais de 30 restaurantes fora do circuito habitual compõem o Lisboa Lado B, um guia dedicado aos projectos independentes e menos previsíveis da cidade. Nesta primeira parte, percorremos a zona histórica e ribeirinha de Lisboa.

Numa cidade como Lisboa, onde a cada metro e a cada minuto abre (e fecha) um novo restaurante, e onde o marketing, as agências de comunicação e as redes sociais são ferramentas essenciais para se manter relevância num meio saturado, pode ser difícil responder à pergunta: afinal, onde é que eu vou comer?

Há vários canais, rankings, guias e prémios que oferecem listagens de grande qualidade – caso dos Prémios Mesa Marcada –, mas, à margem disso, existe um mapa de projetos independentes, casas discretas e espaços mais alternativos — por vezes até militantes — que merecem atenção.

Esta é uma curadoria pessoal, sem pretensão de ser definitiva, feita com base em critérios simples e falíveis: comida boa, ambiente afável e alguma distância dos circuitos previsíveis da gastronomia. Na sua maioria, são projetos relativamente recentes, com exceção de veteranos que se mantêm sólidos e são, amiúde, esquecidos.

Portanto, para quem procura restaurantes em Lisboa, Nna primeira parte deste “lado B da restauração” estão 16 estabelecimentos da zona histórica/ribeirinha, alguns muito bem situados em rotas turísticas ou em zonas residenciais de estrangeiros, mas que, ainda assim, passam ao lado das sugestões mais óbvias e mainstream.

Nota: entretanto, já está publicado a 2ª parte deste guia, aqui.


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo


PARTE 1: Centro Histórico e Zona Ribeirinha 


A Obra, Santos

Catarina Brandão abriu A Obra em 2019 por um motivo quase pueril: cozinhava para amigos que a desafiaram a profissionalizar o talento.
Com o tempo, percebeu que a cozinha precisava de um know-how técnico mais robusto e, em 2022, cruzou‑se com Micael Duarte (Chiltern Firehouse, Prado), que passou a assinar e orientar o menu, além de mentorizar o chef residente, Praveen Malla.
O menu vai mudando para acomodar os produtos da temporada e, pelo menos, um terço é vegetariano. Desde o início, o cremoso arroz de polvo mantém‑se como assinatura da casa, sustentado pela relação direta de Catarina com uma família de pescadores da zona de Sintra.

Preço: €€
Rua da Silva, nº 21. Tel: 910 636 790. Seg-Sáb 12h00-00h00.

Adega Etelvina, Bairro Alto

Taberneiro, como a avó Etelvina, e sempre pronto a servir um copo amigável, Tiago Alves (ex‑sócio da Taberna da Rua das Flores) abriu, em dezembro de 2025, o seu primeiro projeto em nome próprio. “Quero que seja um bar para portugueses”, afirma.
Com um balcão de 12 lugares e uma única mesa à janela, este bar de vinhos trabalha com rótulos e preços democráticos, com vinho a copo a partir de 4 €. Apesar da inclinação dionisíaca, Tiago serve ostras, charcutaria e dois ou três petiscos semanais, como vitela estufada, raia de alhada, lulas recheadas ou carne de alguidar. Um domingo por mês, abre ao almoço, com convidados e receitas de travessa. 

Preço: €–€€
Travessa dos Fiéis de Deus, nº 74. Tel: ​​211 650 390. Ter-Qui 18h00-02h00, Sex-Sab 18h00-03h00. Sem reservas.


Alzur, Bairro Alto

Central, Lasai e Vila Joya: três cozinhas de peso por onde passaram Vânia Galindo e Nuno Noronha, hoje proprietários e cozinheiros do Alzur.

O nome faz justiça ao carácter austral do projeto, que cruza referências além-Tejo com produtos ibéricos, técnicas sul‑americanas e malaguetas peruanas vindas da horta biológica que tratam em casa desde a pandemia.

Instalado no Bairro Alto desde 2023, o casal assina uma carta bem vivaça, com pratos como cacholeira alentejana e txistorra na brasa; ceviche de Sagres com peixe do dia, buzinas, choco, batata‑doce e algas; ou ensaladilla de gamba rosa, batata, ají amarillo e ovas de truta.

Preço: €€€

Travessa das Mercês, nº 16. Tel: 218 212 307 Ter-Sáb 19h00-22h30. Reservas: alzurrest@gmail.con

Caruma, Graça


O declive da rua e a porta estreita podem afastar os clientes menos determinados, que seguem colina acima sem conhecer este bar de vinhos e petiscos. O Caruma – referência à mata do Jamor – começou em Linda‑a‑Velha, com dois amigos, Zé e Bernardo, a quem mais tarde se juntou António Bernardo.

Em 2025, instalaram‑se em Lisboa, neste espaço em meia-luz que guarda, nas traseiras, uma esplanada catita.Hoje, é um projeto a solo de António Bernardo, que trabalha uma seleção curta, de pouco mais de 10 referências vínicas, e uma cozinha de petiscos e sandes, como a canja de bochecha de porco, barriga frita com kimchi ou a sandes de panado. 

Preço: €-€€
Rua do Sol à Graça, nº 61A. Tel: 218 060 345. Ter-Sáb19h00-23h00.

Clara Café, Bairro Alto

Uma biblioteca, uma galeria, um espaço de trabalho,  e, sobretudo, uma revista: a mais antiga ainda em publicação em Portugal, impressa pelos Jesuítas desde 1902. A Brotéria é tudo isso e ainda um café, desde março entregue a Diogo Noronha e Fernão Gonçalves.

Diogo estagiou com Thomas Keller e com os irmãos Roca, antes de regressar a Lisboa, e ficar à frente de projetos como a Casa de Pasto, o Rio Maravilha e o Pesca. Nestes três trabalhou sempre com o mixologista Fernão Gonçalves. No Clara Café, decidem abrandar o ritmo. O horário acompanha a luz do dia e o menu é leve e límpido: ovo escalfado com marmelada de cebola roxa; biscoito de za’atar e queijo Tomme Casa Pratas; ou bolo de limão confit com azeite, açafrão e nata azeda.

Preço: €-€€

Rua de São Pedro de Alcântara, nº 3. Seg-Sáb 10h00-18h00. Reservas: Instagram.


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo


Corrupio, Cais Do Sodré

Aberto desde 2023, pela mão de João Cepeda, ex-jornalista responsável pelo lançamento da revista Time Out em Portugal e, mais tarde, pela implementação do Time Out Market, o Corrupio ocupa um lugar estratégico no Cais do Sodré. Merece entrada nesta lista, porém, pela contratação mais recente: a tripeira Ana Leão (El Bulli, Kabuki, Martín Berasategui). A comida da “leoa” é direta e com o carácter das personalidades nortenhas, feita para dar ao dente e encher as bochechas do que para provocar reflexão gastronómica. A carta muda frequentemente, mas sobre o balcão de azulejos, desenhado pelo estúdio Pedrita, podem aterrar nuggets de bacalhau, pastel de rojão ou frango de estalo.

Preço: €€€

Rua da Moeda, nº 1. Tel: 213 961 585. Seg-Dom 12h00-00h00 (cozinha fecha das 16h30 às 18h00). Reservas: telefone ou email. 

Estrela Da Bica, Bica



É o mais antigo restaurante desta lista, mas continua fora das notas mentais e carrosséis de Instagram. Aberto desde 2006, passou para as mãos de Marta Figueiredo e Rita Borges, há 13 anos.
Marta é uma veterana da cozinha lisboeta: formada pelo Basque Culinary Center, trabalhou com Martín Berasategui em San Sebastián e surfou as cozinhas das primeiras neotabernas, como a Taberna Ideal. A Estrela da Bica mantém-se firme, com um menu de mercado e de viagens, que Marta muda todas as semanas, num espaço descomplicado e inclusivo. Além da Estrela da Bica, Marta também gere a Padaria Terrapão, aberta no Mercado de Arroios desde 2018.

Preço: €€-€€€

Travessa do Cabral, nº 33. Tel: 213 473 310. Seg-Dom 19h00-00h00. Reservas: telefone e email. 

Familjen, Madragoa


Entre certas tribos urbanas, o Familjen já é restaurante de culto; noutros círculos, continua a passar ao lado.
Aos 12 anos, o sueco Petter Nyström decidiu que queria ser cozinheiro. Duas décadas depois, chefiava o Holzweiler Platz, em Oslo, antes de escolher Portugal como casa permanente e mudar‑se para Oeiras com a mulher, Elisabeth, e os filhos. O Familjen abriu em março de 2025, num minúsculo espaço na Madragoa, de paredes expostas e arranjos florais. 
O menu apresenta pratos coloridos, na palamenta e nos ingredientes, cheios de especiarias e sem nenhum traço de minimalismo escandinavo. Um caso sério é, por exemplo, o tártaro preparado com carne do Talho das Manas, compota de tomate assado, creme de rábano e roti caseiro. 

Preço:€€€
Rua do Machadinho, º 56. Tel: 213 900 496. Qua-Sáb 18h00-00h00. Reservas: telefone e email. 


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo


Gancho, Alfama


Admito que alguns leitores questionem esta entrada na lista, tendo Louise Bourrat vencido o Top Chef França 2022 e subido ao palco, este ano, como Chefe Destaque do Ano nos prémios organizados por este site. Porém, essas conquistas aconteceram enquanto chefiava o Boubou’s.
O Gancho entra nesta lista porque, nas vísceras de Alfama, Louise e o companheiro, Marco Cossu, deixam o fine dining para trás e assumem um registo mais livre e nostálgico, ancorado nas suas origens franco‑luso‑italianas. Além disso, devolvem vida a um espaço icónico de um bairro alfacinha, onde durante uma década esteve o Boi‑Cavalo, de Hugo Brito. Em junho, abrem ainda o projeto sardo Mammarua, na Penha de França.

Preço: €€€


Rua do Vigário, nº70. Tel: 910 740 181. Ter-Sab 19h00-02h00. Reservas: email. 

Intenso, Cais Do Sodré

Um purista da evolução gastronómica de Lisboa terá, certamente, tido oportunidade de conhecer Vítor Claro como chef e, com sorte, de se cruzar com Mateus Freire na cozinha do Claro, em Paço de Arcos. Mais tarde, Mateus apresentou ao mundo o bacalhau à Assis da Covilhã no Faz Frio e, posteriormente, no saudoso Ossobento, onde deu a conhecer o extenso receituário português que domina.
No Intenso, refugiado da selvajaria que tomou o eixo São Paulo/Boavista, Mateus mantém‑se fiel a si mesmo e à portugalidade, com fornadas diárias de pão, cabrito aos sábados e tigelada beirã servida à colher.

Preço: €€
Rua da Boavista, nº 69A. Tel: 938 381 922. Dom-Qui 08h00-00h00, Sex-Sáb 08h00-01h00. Reservas: telefone.

O Palmeiral, Príncipe Real

Só um coração glacial ficaria indiferente ao charme d’O Palmeiral, a versão de Daniel Bernardi, ítalo‑irlandês, que ocupa há três anos este gaveto no Príncipe Real. A funcionar sem parar desde 1870, aqui já se venderam mercearias, carvão e tabaco. Armários de madeira do chão ao teto, mosaicos hidráulicos e cortinas bordadas esvoaçantes servem de cenário a uma proposta luso‑italiana que podia ser disparatada, não fosse a mão certeira de Andreia Marques. A meu ver, ganham as receitas italianas: tortellini in brodo, vitello tonnato, frango cacciatore ou tiramisù. 


Preço: €-€€


Travessa de São José, nº 1. Tel: 963 437 784. Ter 19h00-00h00, Qua-Sáb 12h00-00h00, Dom 12h00-18h00. Reservas: telefone.

Piazza Sicilia – Osteria Michele Bono, Restauradores

Apesar dos seus cinco anos bem vividos numa das ruas afluentes da Avenida da Liberdade, contam-se pelos dedos de uma mão os que conhecem o talento do siciliano Michele Bono. Ao almoço, a sala enche-se de executivos de alfaiataria impecável e de turistas ocasionais, e quem marca o passo da refeição são Mônica, no serviço de sala, e Michele, que ciranda de semblante malandro entre a cozinha e a despensa. É imperativo pedir o spaghetti al nero di seppia e o zabaglione caldo al Marsala, feito ao momento, com lingue di gatto caseiras.

Preço: €€€


Rua da Gloria, nº 39A. Tel: 212 489 438. Ter-Sáb 12h30-14h30/19h30-22h30. Reservas: telefone e website. 

Prado Wine Bar, Sé


Viver à sombra de um monstro da gastronomia como o Prado pode ser desafiante, e é precisamente isso que torna o Prado Wine Bar um candidato ideal a esta lista: a maioria dos gastrófilos ainda ignora o seu potencial. Após oito anos com o sufixo “mercearia”, atravessando diferentes reencarnações, tornou‑se wine bar em 2024, com a entrada de Pedro Oliveira (108, Mirazur e Benu). Além de uma belíssima garrafeira, o menu do número 35 costuma incluir tosta de camarão vermelho e emulsão; mexilhões com paprica e carnes curadas e, se ainda for temporada, tempura de espargos com molho holandês e gelado de brioche com cereja.

Preço: €€€


Rua das Pedras Negras, 35. Ter-Dom 18h00-00h00. Reservas:pradowinebar.com

Taberna Albricoque, Santa Apolónia

Na minha estante, e na de muitos foodies, continua intemporal Algarve Mediterrânico, o livro da investigadora Maria Manuel Valagão em que Bertílio Gomes participa e que sugiro como leitura acessória para um almoço na Taberna Albricoque.
Aberta desde 2019, continua a ser uma das propostas mais interessantes da cidade, sem rival à altura nem reconhecimento que lhe faça jus. Bertílio Gomes é um artesão da culinária algarvia, cuja riqueza continua largamente ignorada. Provas de ser seu fiel depositário chegam à mesa em pratos singelos, mas brilhantes, como a galinha cerejada, o rissol de berbigão ou a canja de lingueirão.

Preço: €€


Rua dos Caminhos de Ferro, nº98. Tel: 927 559 359. Qua-Sáb 12h00-15h00/19h00-23h00, Ter 19h00-23h00. Reservas: telefone.

The Plate Bistro, Baixa


Mesmo de portas abertas na Rua do Crucifixo, com um constante vaivém de turistas à frente, e disfarçado de brunch bistro, o The Plate continua a ser um segredo relativamente bem guardado. Os mais atentos reconhecerão o antigo nome, The Capsule, mas agora Lilith Kyrchevska juntou‑se ao fundador, Oleksandr Horbenko, para afinar o projeto. Tudo no The Plate é feito de raiz, com espaço para muita experimentação, fermentações e aproveitamento máximo. Exibem um pantone de molhos caseiros – olá, ketchup de ameixa e koji hot sauce –, mas é o pão de leite da casa que ganha a corrida e, em breve, uma marca própria.

Preço: €€€
Rua do Crucifixo, nº 71. Qua-Dom 08h30-17h00. Reservas: theplate-bistro.com



Uaipi, Madragoa


O Uaipi cumpre dois critérios fortes deste elenco: é um projeto independente e pessoal, com Laila Soares, mineira, na cozinha, e Gregory Busson como anfitrião e pedagogo; e é, sobretudo, um espaço com uma missão, onde a comida é cultura.“Uaipi” é um termo indígena para a manihot esculenta, isto é, a mandioca, raiz cravada na história do povo brasileiro. No coração da Madragoa, o casal procura valorizar a comida popular brasileira com inovação e simplicidade. Servem café da manhã, almoços e organizam ainda jantares periódicos. Há brasilidade nos dadinhos, no pirão, na carne de panela, que se estende também às bebidas, com cachaças aromatizadas com jambu, limonadas de coco ou mate gelado.

Preço: €€


Travessa das Isabeis, nº 18. Tel: 964 481 359. Qui-Dom 09h00-16h00. Reservas: telefone ou email. 

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Legenda preço médio: € – menos de 20€ |€€ – 20 a 40€ | €€€ – 40 a 60€ | €€€€ – 60 a 100€ | €€€€€ – +100€ 

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*Sobre a autora, Inês Matos Andrade: estudou jornalismo, estagiou no Público e passou cinco anos na Time Out — primeiro no Porto, depois em Lisboa — onde acabou por se especializar em gastronomia. Antes de sair do Porto, trabalhou em dois restaurantes para perceber o métier por dentro.

Desde então nunca parou de escrever sobre o tema, com publicações em meios como Inter Magazine, Fare, Suitcase e Parts Unknown, e uma presença activa no Instagram (@inesmatosandrade), onde mapeia e divulga os espaços que mais lhe interessam. Chama-lhe gula crónica. Ou FOMIF — Fear Of Missing Incredible Food.

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Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo


Fotos: Joana Freitas, Vasco Célio/Stills, Joana Freitas, Inês Matos Andrade, Zi Fernandes e outras imagens fornecidas pelos restaurantes


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