Mesa com vários pratos para partilhar na Casa Capitão, restaurante de Lisboa incluído na segunda parte do guia Lisboa Lado B.
Guia

Lisboa Lado B: Mais de 30 Restaurantes fora do roteiro habitual – 2.ª parte

Na segunda parte deste guia, Inês Matos Andrade continua a explorar o lado menos previsível da restauração lisboeta, com 16 restaurantes independentes espalhados por vários bairros da cidade.

Numa cidade como Lisboa, onde a cada metro e a cada minuto abre (e fecha) um novo restaurante, e onde o marketing, as agências de comunicação e as redes sociais são ferramentas essenciais para se manter relevância num meio saturado, pode ser difícil responder à pergunta: afinal, onde é que eu vou comer?

Há vários canais, rankings, guias e prémios que oferecem listagens de grande qualidade – caso dos Prémios Mesa Marcada –, mas, à margem disso, existe um mapa de projetos independentes, casas discretas e espaços mais alternativos — por vezes até militantes — que merecem atenção.

Esta é uma curadoria pessoal, sem pretensão de ser definitiva, feita com base em critérios simples e falíveis: comida boa, ambiente afável e alguma distância dos circuitos previsíveis da gastronomia. Na sua maioria, são projetos relativamente recentes, com exceção de veteranos que se mantêm sólidos e são, amiúde, esquecidos.

Na segunda parte de “Lisboa Lado B da restauração” estão 16 estabelecimentos, a maioria restaurantes de bairro, que seguem as passadas de grandes exemplos independentes como o Tati, Os Papagaios ou A Vida de Tasca, entre outros. Alguns acabaram de chegar, outros asseguram uma clientela fiel e um ou outro já se tornou um destino de culto. 

Para quem procura restaurantes em Lisboa para lá dos nomes mais mediáticos, esta seleção reúne alguns dos projectos mais interessantes e menos previsíveis da cidade.

Se ainda não leu a primeira parte do nosso guia, pode encontrá-la aqui.


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo


PARTE 2:

A Viagem das Horas

E “a viagem das horas veio, soltando risadas pelo chão”, canta José Mauro no álbum que inspirou o nome do bar de vinhos e vinil de Ricardo Maneira. Figura incontornável da noite lisboeta, DJ Rykardo tornou-se um ícone de Arroios e um sommelier informal. Ao lado de Paulo Sampaio, continua a orientar copos e garrafas que, cinco anos depois, se mantêm a preços cordatos. Entre petiscos batizados com títulos de faixas musicais, confecionados com produtos de vizinhos e pequenos produtores, o bar funciona também como incubadora de residências gastronómicas, com cozinheiros e cozinheiras convidados para eventos especiais.

Preço:€-€€
Rua José Ricardo, nº1. Tel: 937 012 163. Seg-Sex 17h00-23h00.

Alfredo, Arroios

Abriu portas em março de 2025, entre a Rua Morais Soares e o Mercado de Arroios, o Alfredo, um projeto de Marín Colomes e Marc Le Rohellec, dois franceses que se conheceram na cozinha do Boavista Social Club. O talento de ambos tem sido revelado em projetos indie e pop‑ups, mas finalmente abriram este espaço à sua imagem, com um nome bem português, mas inspirado num álbum de hip hop. Na ardósia, vinhos a copo de baixa intervenção a começar nos 4 €; no menu, croquetes de cozido, arroz de bochecha de porco preto para dois, três ou quatro comensais; na sobremesa, a já mítica tarte de limão merengada.

Preço: €€-€€€

Rua Carvalho Araújo, nº 24. Seg-Dom 18h00-00h00.

A’Paranza, Anjos

Uma tasca italiana autêntica, aberta por dois amigos nascidos no sul de Itália, um em Nápoles e outro numa aldeia mediterrânica chamada Sapri, em Cilento. Paolo recebe as pessoas com uma candura que causa adição, e Gianluca criou uma ementa que combina peixe e marisco portugueses com receitas populares das zonas costeiras italianas. Isto traduz‑se em pratos como polpetti affogati (polvinho afogado em tomate), um enxuto cuoppo de calamari fritti, spaghettoni alle vongole e bottarga ou mezzi paccheri com cherne. Rústico, fresco e a preços acessíveis.

Preço: €€
Rua Heliodoro Salgado, 8. Telefone: 212 466 202. Seg-Sáb 19h00-23h00.

Arandu, Entrecampos



Mesas altas, um balcão curto de mosaicos amarelo‑torrado e uma cozinha pequena que não deixa adivinhar o potencial do menu escrito em ardósia. Alana Mostacchio, Gudo Martins e Thiago Gunther abriram este neoboteco com adaptações de snacks e petiscos populares brasileiros. Alana formou‑se no Basque Culinary Center e deu‑se a conhecer no VDBistronomie; Gudo Martins foi metade do projeto Sal e Cura e desenvolveu a charcutaria para o Talho das Manas. Há torresmos caipira, cogumelos passarinho marinados em shio‑koji e salsichas e linguiças caseiras de porco Malhado de Alcobaça.

Preço: €-€€
Rua de Entrecampos, nº 27B. Tel: 965 372 732. Ter-Qui 12h30-20h00; Sex 12h30-22h00; Sáb 16h00-22h00. Reservas: telefone ou email.

Casa Capitão, Marvila

Facilmente reconhecível pela sua programação cultural, a Casa do Capitão, que reabriu em setembro de 2025, é também um excelente sítio para comer, chefiado por Bernardo Agrela – criador do projeto de galinhas autóctones, Frangos do Além. O Mesa funciona em dois registos: um menu de sandes (em carcaça), pensado para acompanhar concertos e eventos, e um restaurante no primeiro andar, com pratos sazonais escritos num quadro de ardósia. “A ideia é homenagear a primeira neotasca de Lisboa”, diz Bernardo, referindo‑se à Taberna da Rua das Flores. Entre as propostas, podem aparecer orzotto com lulas recheadas, rabanada à poveira ou sandes de cachaço de porco panado com marmelada e funcho, em combinações a que Bernardo já nos habituou.

Preço: €-€€

Rua do Grilo, nº119. Ter-Sex 19h00-00h00. Sáb-Dom 12h00 à 00h00. (O menu de sandes e conforto está disponível todos os dias). Reservas: site.


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Cerqueira, Martim Moniz

Três amigos e fregueses da antiga tasca Cerqueira caíram nas boas graças do Sr. Avelino e da D. Ana Maria e ficaram com este espaço da Calçada de Sant’Ana depois de o casal se reformar. O lugar manteve-se praticamente igual, com os mesmos pratos brancos, redondos, de risca azul. Na cozinha, Ângelo Lellis e a equipa brincam com o receituário tasqueiro e referências populares: para picar há pastéis de moelas ou de queijo da Ilha com cebola; torresmo mineiro, crepe chinês de amêijoas à Bulhão Pato e a imperdível visão de Ângelo do doce da casa.

Preço: €-€€
Calçada de Sant’Ana, nº 49. Tel: 218 871 369. Ter-Sáb 19h00-23h00. Reservas: telefone.

Copo Largo, Rato

Antes de O Velho Eurico se tornar o padroeiro das neotascas, outros restaurantes e cozinheiros já tinham aberto sulcos e fertilizado o terreno para esta geração efervescente. Entre eles está Filipe Ramalho, que trabalhou com Joaquim Saragga Leal nos primórdios da Taberna Sal Grosso. Filipe abriu o Copo Largo em 2024, um espaço de cozinha aberta, azáfama e boa comida: tártaro imperdível, choco com cogolhos e, para rematar, licores caseiros. Bónus: é também um dos sócios da nova Tasca Abaladiça, com Vítor Charneca; e serve almoços no Vieira Café.

Preço: €€

Rua de São Bento, nº333. Tel: 910 739 121. Ter-Sáb, turnos às 19h00 e às 21h00. Reservas: site. 


Flamma, Campo de Ourique

Estamos bem servidos de neotascas, é certo, e agora também de neobotecos. O Flamma é o pequeno (minúsculo) projeto de Alessandra Borsato, que usa um item popular brasileiro, o espeto, como suporte para a sua criatividade. Com uma robata improvisada e uma boa gestão de carvão de coco, Alessandra prepara quiabo frito com coral de sapateira e lima; shiitake com tarê de trufa preta; ou caranguejo de casca mole com escabeche e tamarindo. Fora do espeto, peça os buñuelos de parmesão, caju e ají e o sambal de goiaba.

Preço: €€-€€€
Rua Coelho da Rocha, nº 110. Tel: 962 578 449. Seg/Qui-Sáb 18h30-23h30. Dom 13h00-22h30. Reservas: telefone.

Grenache The Bistro, Anjos

Mesmo aberto ao público em 2019 e com uma estrela Michelin há dois anos, o Grenache, restaurante de fine dining de Philippe Gelfi no Palácio Belmonte, continua com visibilidade discreta. Porém, é o seu irmão mais novo, mais mundano, e aberto há poucas semanas nos Anjos, que entra neste guia. O Grenache The Bistro anuncia no nome o que se passa no menu de Matshaya Pinto, esposa de Philippe: terrine de campagne com picles, tutano, alho e chalotas; bavette com molho poivre e batatas. Na carta de vinhos, o champanhe ocupa as três primeiras páginas.

Preço: €€€
Rua Angelina Vidal, nº 88B. Tel: 218 147 729. Qui-Seg 18h00-00h00. Reservas: telefone. 



Mãe Cozinha com Amor, Estefânia



Mais um exemplo de um chef jovem a manter vivo o património afetivo da cozinha portuguesa. Neste caso, João Diogo Saloio faz uma homenagem clara às grandes guardiãs do receituário e das memórias, as matriarcas, cujas fotografias estão emolduradas e espalhadas pelo restaurante. Assumidamente um estabelecimento de bairro, aberto desde 2018, a riqueza do menu torna difícil a escolha. Uma ajuda: o pica‑pau do mar, com polvo, peixes do dia, berbigão e camarão; os croquetes de pato cremosos; as bochechas de comer à colher, com pêras e nozes; ou o arroz de pato no forno.

Preço: €€-€€€

Rua Dona Estefânia, nº 92B. Tel: 215 851 792. Seg-Sáb 12h00-15h00/19h00-00h00. Dom 12h00-16h00. Reservas: telefone. 


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Pinot Bar, Estrela

Os canadianos Marc Davidson e Stéphanie Audet foram pioneiros, em 2018, ao reunir vinhos de baixa intervenção e cozinha botânica no hoje extinto Senhor Uva. Apesar do fecho do projeto, o casal tem continuado o trabalho no vizinho Pinot Bar. O que começou timidamente, com sandes mensais para petiscar no jardim e uns quantos snacks – olá, gildas e ostras – evoluiu para um menu robusto, horários alargados e, pasme-se, opções omnívoras. Ao almoço, ou na renovada sala de jantar da cave, podem provar-se, por exemplo, mil-folhas de batata, shiitake e labneh ou uma calamarata com ragù de vitela, pão ralado e manjericão.

Preço: €€-€€€
Rua João Anastácio Rosa, nº 4B. Tel: 213 952 242. Qui-Dom 13h00-16h00. Dom-Qui 16h00-23h00. Sex-Sáb 16h00-24h00. 

Sushisaito, Avenidas Novas

Só os clientes mais determinados conseguem ultrapassar o atendimento austero de Cristina, co‑proprietária do Sushisaito, para chegar à simplicidade e à frescura do sushi que aqui se serve. Além de uma carta clássica e competente, o restaurante propõe menus de almoço a preços moderados e um menu de degustação a 32 €. Tudo é preparado e gerido pelo casal, das gyozas caseiras às sobremesas, e diariamente afixam ao balcão os cartões coloridos que enumeram o peixe e o marisco do dia — sarda, cherne, salongo, lula, salmonete, camarão‑vermelho, etc.

Preço: €€-€€€ 
Av. João Crisóstomo, nº 23B. Tel: 213 520 104. Ter-Sáb 12h30-15h00/19h00-22h30.

Trinca, Anjos

Considera-se português e mexicano, mas há dias que se estende a todo o mundo. No Trinca, restaurante de bairro nos Anjos, não há regras: servem-se tacos, katsu sando, pêra bêbeda e até cozido à portuguesa (pelo menos duas vezes por ano). À partida, a mixórdia pode parecer duvidosa, mas Sonia Meixueiro é de Oaxaca, e Francisco Tomaz, português, foi subchefe num restaurante na Cidade do México. A grande autora de algumas receitas é, contudo, a Avó Eva, caso dos pastéis de bacalhau: “primeira coisa que faz ao chegar ao Trinca é ver no ticket quantos bolinhos se venderam” confessa Francisco. 

Rua dos Anjos, nº59C. Tel: 967 208 989. Seg-Qua 18h00-22h30; Qui-Sáb 12h30-22h30; Dom 12h30-17h00. 

Turvo, Alameda

Depois de alguns anos entre hotéis e grandes grupos — e com a sua Trifana a surgir esporadicamente em eventos — já se ansiava a altura de Vasco Lello assumir um projeto a solo. Inaugurado em 2025, no Bairro dos Actores, o Turvo nasceu sem sócios nem investidores. Não cede a rótulos fáceis: é um restaurante calmo e luminoso, à imagem do chef, onde se pratica uma cozinha de autor despretensiosa, com inclinação para sazonalidades fugazes, pescado e marisco. Um achado em Lisboa, ainda sem fila à porta.

Preço: €€€
Rua José Acúrcio das Neves, nº18A. Tel: 926 992 406. Ter-Sáb 17h00-23h00. 


Touta, Estrela



O Touta joga com vários trunfos: a localização, perto do Jardim da Estrela; a combinação de tradição libanesa com técnica francesa e produto português; e a ousadia de duas empresárias, Rita Abou Ghazale e Cynthia Bitar. Touta é a alcunha de infância de Cynthia, chef e autora da carta, que condensa quase três décadas de experiência e uma formação rigorosa no Institut Paul Bocuse, em Lyon. O menu cruza sabores e especiarias levantinas — za’atar, sumac, tabbouleh, romã — com pinhões de Alcácer do Sal, ostras do Algarve e lula dos Açores.

Preço: €€€
Rua Domingos Sequeira, nº 38. Tel: 960 494 949. Ter-Sáb 19h30-00h00. 

Uma Mosca na Sopa, Praça de Espanha


À primeira vista, o Uma Mosca na Sopa incomoda, como o inseto da canção de Raúl Seixas. Não é um negócio convencional, o espaço nem parece aberto ao público. É livraria? Casa? Enoteca? Ou um manifesto? Depois de anos em rotinas mais previsíveis, Gonçalo Pimenta arrendou este lugar no bairro onde vive e encheu-o das duas coisas que mais gosta e coleciona: livros e vinhos. Há uma única mesa convivial de madeira maciça, pensada para se encher de copos e, claro, de alguns petiscos preparados pelo anfitrião — escabeche, gaspacho, mousse de fígados de aves, tártaros de peixe, chocolate com algas.

Preço: €–€€

Rua Dom Luís de Noronha, nº 32A. Ter-Sáb 16h00-23h59. Sem reservas. 


Legenda preço médio: € – menos de 20€ | €€ – 20 a 40€ | €€€ – 40 a 60€ | €€€€ – 60 a 100€ | €€€€€ – +100€ 


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*Sobre a autora, Inês Matos Andrade: estudou jornalismo, estagiou no Público e passou cinco anos na Time Out — primeiro no Porto, depois em Lisboa — onde acabou por se especializar em gastronomia. Antes de sair do Porto, trabalhou em dois restaurantes para perceber o métier por dentro.

Desde então nunca parou de escrever sobre o tema, com publicações em meios como Inter Magazine, Fare, Suitcase e Parts Unknown, e uma presença activa no Instagram (@inesmatosandrade), onde mapeia e divulga os espaços que mais lhe interessam. Chama-lhe gula crónica. Ou FOMIF — Fear Of Missing Incredible Food.


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo


Fotos: Nuno Ferreira Santos, Lara Clemente, Fliponraw, Arlindo Camacho, Inês Matos Fernandes e outras imagens fornecidas pelos restaurantes


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