Houve um tempo — não muito distante — em que pedir um cocktail sem álcool num bar de respeito equivalia a uma declaração pública de tédio. O barman encolhia os ombros, despachava um sumo de laranja com gás e chamava ao conjunto um “mocktail” com o mesmo entusiasmo com que assina uma autorização de faltas.
Durante os anos 2000, o cocktail era sinónimo de excesso declarado. O Cosmopolitan do Sex and the City, o Long Island Iced Tea como prova de resistência, o Mojito e a Caipirinha industrializado em cada esplanada de verão. Beber bem era beber muito — e beber muito era, aparentemente, viver melhor.
A mudança começa na década seguinte, quando bartenders com ambições gastronómicas passaram a tratar o copo com a mesma seriedade de um chef diante de um prato. O álcool deixou de ser o protagonista obrigatório. Entrou a kombucha, o shrub, o kefir de água, os destilados low-ABV, ou de baixo teor alcoólico. E com eles, uma nova pergunta: será o álcool mesmo necessário, ou era apenas um hábito disfarçado de ritual?
Hoje, os melhores bares do mundo – e alguns em Portugal – têm secções dedicadas a cocktails sem ou com baixo teor alcoólico que não pedem desculpa por existirem. São construídos com a mesma atenção ao equilíbrio, à acidez, à textura. É gastronomia líquida que dispensou a muleta. Falámos com o Diogo Lopes e a Catarina Correia do Catfish, em Lisboa, vencedores do Prémio Especial Viriathus Drinks de Melhor Bar do Ano, dos Prémios Mesa Marcada 2025 que nos disseram:
“Nos últimos anos, a forma como as pessoas encaram o consumo de álcool mudou de forma clara. Os cocktails No & Low ABV não são uma tendência passageira — refletem uma procura por experiências mais equilibradas, onde prazer, sabor e momento social existem independentemente do álcool. No Catfish, sentimos essa mudança desde o primeiro dia. A nossa oferta sem álcool foi sempre desenvolvida com a mesma atenção ao detalhe, complexidade aromática e cuidado estético de qualquer outro cocktail — não como alternativa, mas como experiência completa por direito próprio. O consumidor atual é mais curioso, informado e exigente. Quer fazer escolhas conscientes sem abdicar da qualidade. Hoje, esta categoria representa cerca de 30% do nosso volume de vendas. Tal como aconteceu na gastronomia, a coquetelaria está a tornar-se mais inclusiva, e nós estamos aqui para isso.”

Já Kevin Belhaj, vencedor do Prémio Especial Zwiesel Glas Melhor Bar de Restaurante do Ano, dos mesmos prémios com o seu Spikes em Vale do Lobo diz: “No SPIKES, um dos três cocktails mais vendidos é o GIMME — e não tem uma gota de álcool. O dado vale mais do que qualquer manifesto: existe procura real, e o nicho não é o cliente que não bebe, é a falta de boas opções para ele. A casa apostou cedo nesta categoria. Em 2023, investiu em tecnologia de extracção a vácuo, ultrassons e enzimas para desenvolver cocktails No ABV com a mesma estrutura, textura e complexidade dos restantes. Porque retirar o álcool, dizem, é a parte fácil — o desafio é preencher o espaço que ele deixa. Por detrás dos números está uma mudança cultural mais funda: as pessoas não vão a um bar beber. Vão partilhar um momento. O álcool pode fazer parte dessa experiência, mas já não precisa de ser a condição para a tornar possível”.

Spikes (Lisboa): Cocktail GIMME, preparado com licor de flor de sabugueiro sem álcool, cordial de manjericão e pepino e soda de limonada de azeitona.
Moda? Certamente, em parte. Tendência? Sem dúvida. Mas há algo mais: uma geração que cresceu a documentar tudo o que bebe no Instagram percebeu, eventualmente, que prefere lembrar-se da noite toda.
O futuro dos cocktails não será seco nem molhado. Será, provavelmente, consciente — o que, convenhamos, já é um progresso considerável.
*Sobre o autor, João Roseiro: fundador do projeto digital @lisboa.bebe, uma plataforma dedicada à cultura de bar, cocktails e hospitalidade em Portugal, o seu trabalho cruza recomendação, curadoria e storytelling, destacando espaços, bartenders e conceitos que definem a identidade contemporânea da hospitalidade portuguesa.
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