Quando o Vinho ao Vivo nasceu, há mais de uma década e meia, era um corpo estranho no panorama vínico português. Não porque fosse o primeiro evento dedicado aos chamados vinhos naturais – expressão que os próprios organizadores, Os Goliardos, de Sílvia Bastos e Nadir Bensmail, nunca adoptaram com grande entusiasmo -, mas porque propunha uma forma diferente de olhar para o vinho. Mais do que uma mostra de produtores, era um lugar de encontro entre pessoas que partilhavam uma determinada relação com a terra, com a vinha e com o acto de fazer vinho.
Na altura, o evento decorria na esplanada do À Margem, em Belém. O espaço era menor, mas o espírito já estava lá. Não era apenas um sítio para provar vinhos. Era um daqueles raros encontros onde produtores, cozinheiros, profissionais da restauração e enófilos acabavam por passar mais tempo a conversar (e alguns a cantar e a dançar) do que a cumprir um qualquer programa. O vinho era quase um pretexto. O resto acontecia naturalmente.
Quinze edições depois, o mundo mudou. Lisboa encheu-se de bares dedicados a vinhos naturais ou, vá, de intervenção mínima, multiplicaram-se as distribuidoras especializadas, surgiram novos produtores portugueses, e restaurantes como o Prado ajudaram a levar estes vinhos a um público muito mais vasto. Por último, um conjunto de turistas e residentes estrangeiros acelerou uma transformação que, durante anos, parecia acontecer apenas num pequeno círculo de curiosos. Hoje, o que antes era um nicho faz parte da paisagem gastronómica da cidade – e não apenas dos seus circuitos mais alternativos.
O curioso é que o Vinho ao Vivo mudou menos do que seria de esperar. Ou talvez não.
Não foi uma questão de falta de evolução. Ela existiu. A selecção de produtores foi-se renovando, as reflexões aprofundaram-se e a própria forma como muitos dos seus protagonistas olham hoje para o vinho ganhou novas nuances. Houve também, em 2023, a mudança para o Palácio Sinel de Cordes, no Campo de Santa Clara, junto à Feira da Ladra, permitindo receber mais visitantes e oferecer melhores condições de circulação. Porém, nunca houve uma vontade de seguir tendências ou de reinventar o festival a cada edição. Pelo contrário. O que é notório é a consistência de um projecto que continua a privilegiar a convivência, a troca de experiências e uma dimensão assumidamente humana, muito antes de palavras como “comunidade” ou “networking” se tornarem moeda corrente.
Talvez seja essa coerência que melhor explica a relevância do Vinho ao Vivo e, para ser correcto, de outros encontros pontuais, de menor escala, que os Goliardos vão organizando ao longo do ano. Enquanto quase tudo à sua volta mudou, o festival foi evoluindo sem nunca perder de vista aquilo que o definiu desde o início.
Também o panorama da produção nacional era muito diferente. Os próprios produtores eram ainda poucos e pertenciam, de certa forma, a dois mundos distintos. Havia quem trabalhasse a vinha em modo biológico, mas sem uma visão muito estruturada do que esse caminho poderia representar. E havia quem fizesse vinhos tecnicamente bem feitos, mas olhasse com desconfiança para uma viticultura menos interventiva.
“A nossa ideia era que esses produtores, quando chegassem ao Vinho ao Vivo, tivessem vontade de provar os vinhos uns dos outros e isso os fizesse reflectir”, recorda Sílvia Bastos em conversa com o Mesa Marcada. O objectivo nunca foi criar uma escola nem converter alguém a uma determinada forma de fazer vinho – ou, visto bem as coisas, se calhar foi um pouco. Acima de tudo a ideia era mostrar que existiam outros caminhos possíveis e que esses caminhos também podiam conduzir a grandes vinhos.
O efeito fez-se sentir lentamente. Surgiu uma nova geração de produtores portugueses, outros foram afinando práticas e, sobretudo, deixou de fazer sentido pensar o vinho em blocos estanques. A defesa de práticas agrícolas mais conscientes em relação ao ambiente, a preocupação com a saúde dos solos, a redução da intervenção na adega ou a procura de uma maior expressão do terroir passaram, com diferentes intensidades, a fazer parte da reflexão de muitos produtores, independentemente da corrente em que se reviam.
Os Goliardos não foram os únicos protagonistas desta transformação, mas dificilmente se pode contar esta história sem lhes reservar um papel central.
O próprio movimento também amadureceu. Sem abandonar as posições de princípio que estiveram na sua origem, a discussão passou também a preocupar-se mais com o resultado final. “Hoje em dia estamos numa tendência de voltar a vinhos mais clássicos”, observa Sílvia Bastos. Não porque se tenha abandonado a vontade de trabalhar de forma mais natural, mas porque a experiência mostrou que rigor e precisão não são incompatíveis com uma intervenção mínima. “A maioria dos produtores está, de facto, a fazer um passo atrás nessa tendência, mas tendo aprendido que também não precisa de pôr muito sulfuroso para ter um vinho protegido.”
Essa evolução ajuda também a desfazer um equívoco frequente. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a questão nunca foi, para Os Goliardos, a expressão “vinho natural”. O que sempre recusaram foi reduzir uma realidade muito mais complexa a um rótulo. Ao longo dos anos, a designação foi sendo apropriada por discursos muito diferentes entre si, uns excessivamente dogmáticos, outros demasiado superficiais. O centro da conversa, para Sílvia e Nadir, nunca deixou de ser outro: a vinha, a forma como é cultivada, a relação com a paisagem, a identidade de cada produtor e o vinho como consequência de tudo isso.
Essa forma de olhar para o vinho reflecte-se também na maneira como se constrói a própria rede de produtores d’Os Goliardos e, por extensão, o Vinho ao Vivo. Ao longo de quase duas décadas visitaram praticamente todos os produtores com quem trabalham nas suas vinhas e adegas. Não se trata apenas de seleccionar bons vinhos. Trata-se de conhecer as pessoas, perceber como vivem, como trabalham e que valores partilham.
É curioso ouvir Nadir falar dos produtores convidados para esta edição. Raramente começa pelo vinho. Fala primeiro da vinha, da paisagem, do solo, da forma como cada um trabalha ou do tempo que passa no campo. Só depois chega às garrafas. Talvez porque, para Os Goliardos, o vinho nunca tenha sido verdadeiramente o ponto de partida.
É também isso que ajuda a explicar porque o ambiente do Vinho ao Vivo continua a ser tão difícil de reproduzir.
Durante dois dias, o Palácio Sinel de Cordes transforma-se num lugar onde é difícil distinguir quem veio expor de quem veio provar. Os produtores conversam entre si, trocam garrafas, apresentam colegas aos visitantes e acabam frequentemente à mesa (ou sentados numa toalha) com cozinheiros, escanções ou simples enófilos. Há um ambiente de festa e um certo aroma de subversão situacionista no ar.

Na realidade, o Vinho ao Vivo começa antes da abertura oficial ao público. Produtores, profissionais da restauração, organização e alguns convidados encontram-se antecipadamente para um programa informal que funciona como um verdadeiro ritual de integração. Quando as portas abrem, muitos dos produtores que chegaram de diferentes países já partilharam refeições, provaram vinhos uns dos outros e, como diz Sílvia Bastos, “já inventaram uma língua para falar em comum”.
Também por isso Os Goliardos nunca quiseram transformar o Vinho ao Vivo num grande festival. “Nós fazemos claramente para o evento se manter numa dimensão que consideramos humana. Nós sabíamos muito bem como pôr a máquina a crescer, mas não queremos isso.” O objectivo continua a ser privilegiar “um momento de união, de alegria e de troca”, algo que, acreditam, só é possível mantendo esta escala.
A edição de 2026
É neste contexto que chega a 16.ª edição do Vinho ao Vivo. Não como uma celebração nostálgica do percurso feito, mas como mais um capítulo de um projecto que continua a preferir evoluções discretas a rupturas ou exercícios de reinvenção.
Nos dias 5 e 6 de Julho, o Palácio Sinel de Cordes volta a receber cerca de 40 produtores de vários países europeus, mantendo uma dimensão que Os Goliardos fazem questão de preservar. “Estamos sempre à volta dos 40. Não cresce”, resume Sílvia Bastos, sintetizando uma opção que nunca foi apenas logística, mas também filosófica.
O Loire será uma das regiões em maior evidência nesta edição, mas o alinhamento estende-se da Alsácia ao Piemonte, passando pelo Burgenland, Mosela, Catalunha e várias regiões portuguesas. Entre os regressos contam-se nomes como Kreydenweiss, Maisons Rouges, Clos des Vignes du Maynes, entre outros. nas estreias, Nadir destaca produtores como La Distesa, Domaine de l’Iserand ou Schiefer, escolhidos menos por representarem uma tendência do momento do que pela forma como trabalham as suas vinhas e interpretam os respectivos territórios.
À volta das provas regressam também, num ambiente bastante informal, os petiscos ao almoço, no jardim do palácio, preparados por cozinheiros convidados, os momentos musicais, as leituras de poesia e, na noite de domingo, o tradicional jantar-festa na esplanada do À Margem, em Belém, onde o evento nasceu e que continua a fazer parte da memória afectiva do projecto.
Quem visitar o Vinho ao Vivo encontrará, como sempre, dezenas de produtores, mais de uma centena de vinhos para provar e um programa que cruza gastronomia, música e outras expressões culturais. Mas encontrará também algo que dificilmente cabe num programa ou numa lista de participantes: um encontro onde as relações humanas continuam a valer tanto como as garrafas que se abrem.
Talvez seja essa a razão por que, ao fim de dezasseis edições, o Vinho ao Vivo continua a fazer as perguntas certas. Não apenas sobre vinho, mas sobre a forma como escolhemos produzi-lo, partilhá-lo e vivê-lo.
Cinco razões para passar pelo Vinho ao Vivo
Provar cerca de 40 produtores europeus, entre nomes consagrados e novas descobertas, muitos deles difíceis de encontrar em Portugal.
Conversar directamente com quem faz o vinho, num ambiente informal onde produtores, cozinheiros, escanções e visitantes se cruzam naturalmente.
Descobrir um programa que cruza vinho, gastronomia e cultura, com cozinheiros e restaurantes como Prado, Sem, Senhor Uva, Trinca, Essencial, Tua Madre, Tasco Galapito ou Natalie Castro, além de concertos, poesia e outras intervenções culturais.
Perceber como evoluiu um dos movimentos mais influentes do vinho europeu, através de produtores que continuam a privilegiar a vinha, o território e uma intervenção mínima.
Conhecer um dos encontros mais singulares do calendário vínico português, que há dezasseis anos preserva uma dimensão humana rara nos grandes eventos dedicados ao vinho.
Informações úteis
Local
Palácio Sinel de Cordes, Campo de Santa Clara (junto à Feira da Ladra), Lisboa.
Datas
5 e 6 de Julho de 2026.
Horários
Domingo: 11h00–20h00 (pausa entre as 13h30 e as 16h00).
Segunda-feira: 11h00–19h00 (pausa entre as 13h30 e as 15h00).
Almoço-concerto
Durante a pausa das provas, o jardim do palácio recebe cozinheiros convidados, música e outras iniciativas culturais. A comida não está incluída no bilhete.
Jantar-festa
Domingo, às 21h00, na esplanada do À Margem, em Belém. Bilhete próprio ou combinado com a entrada no Vinho ao Vivo.
Bilhetes
Disponíveis na plataforma 3cket.com e junto d’Os Goliardos.

Produtores presentes (39)
Portugal
Viúva Gomes (Lisboa, Colares), Vale da Capucha (Lisboa, Torres Vedras), Las Vedras (Lisboa, Torres Vedras), Quinta do Olival da Murta (Lisboa, Cadaval), COZs (Lisboa, Montejunto), Safado (Lisboa, Óbidos), Humus – Encosta da Quinta (Lisboa, Caldas da Rainha), Quinta da Serradinha (Lisboa, Leiria), Casa Pratas (Tejo, Lapa), Tomaralmá (Tejo, Serra d’Aire), Dominó (Alentejo, Portalegre), António Madeira (Dão), João Tavares de Pina (Dão), Beiorte (Dão), Salta Muros (Beira Interior), Quinta da Palmirinha (Vinho Verde, Amarante), Tiago Teles (Vinho Verde), Aphros (Vinho Verde), Quinta do Romeu (Douro, Mirandela), Ameztoy & Almeida (Douro), Nicolau de Almeida (Douro/Porto), La Speciosa (Planalto Transmontano) e Menina d’Uva (Planalto Transmontano).
Espanha
Pablo Soldavini (Galiza, Ribeira Sacra), Bernabeleva (Madrid, Sierra de Gredos), Cinco Leguas (Madrid, Arganda) e Celler Frisach / Gemma Miró (Catalunha, Terra Alta / Priorat).
França
Benoît Courault (Loire, Anjou), Maisons Rouges (Loire, Jasnières), Bernard Baudry (Loire, Chinon), Vincent Carême (Loire, Vouvray), Clos des Vignes du Maynes (Bourgogne, Mâcon), Domaine Kreydenweiss (Alsácia), Cave de l’Iserand (Rhône, Saint-Joseph).
Itália
Azienda Bera (Piemonte) e La Distesa (Marche).
Áustria
Schiefer (Burgenland).
Alemanha
Melsheimer (Mosel).
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