Quando, em Março, René Redzepi anunciou que iria afastar-se da liderança do Noma, a notícia pareceu assinalar o fim de um ciclo. Depois de meses marcados por denúncias de abusos laborais, uma investigação do New York Times e um intenso debate sobre a cultura de trabalho de um dos restaurantes mais influentes do mundo, muitos interpretaram aquele anúncio como o inevitável epílogo de uma era.
Cinco meses depois, percebe-se que talvez não tenha sido bem assim.
Numa entrevista publicada esta semana pelo Wall Street Journal, assinada pelo jornalista Rafael Tonon, Redzepi dá agora forma mais concreta à “próxima fase” que então anunciara: continuará ligado ao projecto como director criativo e desenvolve a visão daquilo a que chama “Noma 3.0”.
Para quem acompanhou os acontecimentos dos últimos meses, a principal revelação da entrevista não é tanto aquilo que Redzepi diz sobre o futuro, mas aquilo que ela permite perceber sobre o presente: afinal, o fundador nunca esteve verdadeiramente de saída.
Formalmente, parece que muita coisa mudou. O Noma reabre esta semana com Pablo Soto, chefe de cozinha da casa desde 2023, agora apresentado como executive head chef e como um dos responsáveis pela condução operacional desta nova fase, Annika de Las Heras como CEO e Mette Brink Søberg à frente da área de Investigação & Desenvolvimento. Redzepi insiste que deixará a operação diária da cozinha para se dedicar exclusivamente ao desenvolvimento de novos projectos, ingredientes, técnicas de fermentação e investigação sobre biodiversidade, algas ou insectos como alimentos do futuro.
Na prática, porém, a entrevista deixa outra impressão.
Como observa Tonon, há momentos da entrevista em que Redzepi parece falar menos como um cozinheiro e mais como o fundador de uma empresa tecnológica. Descreve uma organização pensada para durar até 2070, compara a estrutura do Noma à da Apple e apresenta o restaurante como um laboratório capaz de influenciar a alimentação mundial muito para além das mesas de Copenhaga.
O chefe que revolucionou a cozinha nórdica procura agora afirmar-se sobretudo como um visionário, alguém cujo papel deixa de ser cozinhar para passar a imaginar o futuro.
O passado continua sentado à mesa
A entrevista, no entanto, está longe de ser um exercício de reabilitação sem contraditório.
Rafael Tonon recorda as denúncias recentes, recupera o ensaio em que o próprio Redzepi admitia ter sido um líder intimidatório e dá voz a antigos colaboradores que continuam convencidos de que a cultura do restaurante não muda apenas porque muda o responsável da cozinha. Um deles, Mehmet Çekirge, afirma mesmo estar “cem por cento certo” de que continuam a existir pessoas com comportamentos de bullying dentro do Noma e considera que esse ambiente acaba por se transmitir de geração em geração.
O próprio Redzepi responde dizendo que fez uma década de terapia e de acompanhamento profissional, reconhecendo que algumas experiências relatadas pelos antigos funcionários podem ser verdadeiras, mesmo que não se recorde delas.
São respostas que não encerram o debate. Porém, mostram um Redzepi que, depois de algumas semanas de silêncio no auge da polémica, procura agora responder de forma mais articulada às acusações e enquadrar publicamente o seu papel no futuro do Noma.
Também a arquitectura organizacional parece ter mudado. O Noma sempre teve uma estrutura alargada e várias figuras com responsabilidades próprias, sobretudo na cozinha e na investigação. Mas, do ponto de vista mediático, a dimensão de Redzepi tendia a eclipsar quase tudo à sua volta. Desta vez, porém, a comunicação da nova fase faz questão de destacar também outras figuras da liderança: Soto na cozinha e duas mulheres em posições de grande destaque.
É difícil não ver neste novo desenho de responsabilidades uma componente da estratégia de reconstrução da confiança numa empresa profundamente abalada pelas denúncias dos últimos meses. É bem provável que haja aqui algo de estratégia de gestão reputacional, porém, ainda para mais estando num país nórdico, seria estranho que uma empresa desta dimensão não procurasse responder também no plano organizacional a uma crise que pôs em causa a sua cultura interna.
Essa resposta passa igualmente pela comunicação. Nos últimos dias multiplicaram-se nas redes sociais as fotografias da reabertura, as visitas de cozinheiros vindos de vários países e as manifestações públicas de apoio ao restaurante. O próprio Wall Street Journal cita o chef mexicano Roberto Solís, que viajou para Copenhaga precisamente para marcar presença na reabertura e afirma conhecer muitos outros cozinheiros que fizeram o mesmo.
Nem todas as dúvidas desapareceram, mas há claramente uma tentativa de mudar o discurso.
Vale ainda a pena espreitar os comentários dos leitores do Wall Street Journal, onde essa fractura fica mais nítida. Um deles resume bem a indiferença de parte do público: não quer saber da polémica, só de conseguir uma reserva, e chega a torcer para que o Noma nunca recupere as três estrelas Michelin, porque isso tornaria a mesa mais fácil de arranjar. Já outro admite estar satisfeito com o regresso, mas acha os quase 700 dólares do menu difíceis de justificar. E há sempre espaço para a ironia, seja a notar que o fotógrafo não conseguiu arrancar um sorriso a Redzepi, seja a perguntar se isto não é apenas a antevisão da próxima temporada de The Bear.
É uma amostra reduzida, naturalmente, mas revela uma recepção fragmentada: entre quem considera o assunto ultrapassado, quem continua a olhar para o Noma com desconfiança e quem, polémica à parte, só quer saber se conseguirá finalmente uma reserva.
O tempo dirá
Há poucos meses parecia evidente que René Redzepi estava a sair de cena. Hoje, essa leitura parece demasiado simples.
Resta saber se o tempo confirmará que o Noma entrou realmente numa nova fase ou se, apesar dos novos cargos e do novo discurso, continua a ser a mesma história sob uma arquitectura diferente. E falta ainda conhecer a reacção das figuras que desencadearam esta nova vaga de denúncias, a começar por Jason Ignacio White, antigo responsável de fermentações do Noma, que recusou comentar ao Wall Street Journal o regresso de Redzepi.
Por agora, a entrevista de Rafael Tonon confirma pelo menos uma ideia que já se desenhava desde Março: René Redzepi deixou a cozinha, mas nunca deixou verdadeiramente o centro do projecto. A notícia do seu afastamento revelou-se, afinal, bastante menos definitiva do que muitos imaginaram.
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