Vista panorâmica do Rio de Janeiro a partir do Corcovado, com a Lagoa Rodrigo de Freitas, o bairro de Ipanema e o Morro Dois Irmãos em destaque.
Guias

O Rio de Janeiro visto do estômago

Cristiana Beltrão traça um roteiro gastronómico pelo Rio de Janeiro, dos restaurantes de autor às padarias e gelatarias. Dez lugares onde ingredientes locais, história e território se encontram à mesa.


Coisa difícil é me imaginar turista no Rio de Janeiro.
O morador da cidade é sempre vítima das contas a pagar; do atraso para os compromissos cotidianos da vida; das visitas corridas à casa da mãe; do horário da escola dos filhos…
Benditos sejam os flâneurs de passagem, para quem os fardos são como mil-folhas que não pesam em viagens!

Meu Rio talvez não seja o vosso.

Fui ao Cristo Redentor aos 40 anos de idade, vou à praia às 7 da manhã da segunda-feira para não encontrar ninguém, e apesar de amar um samba, detesto que acompanhe minha refeição.

Não vejo só praia, sol, Carnaval e futebol. Vejo uma cidade que é floresta, com especiarias como pacovás e frutas da Mata Atlântica, peixes nativos da nossa costa; mel de abelhas nativas com gosto de goiaba ou fruta de conde; queijos artesanais de Valença; ou embutidos feitos de porco nativo, vindos das montanhas de Friburgo.

Muito prazer. Este é meu Rio de Janeiro.

Trégua no Telhado, Laranjeiras

Victor Lima e Ana Paula Souza, chefs e sócios do Trégua

A história do bairro das Laranjeiras é indissociável do Rio Carioca, a principal fonte de abastecimento de água doce da cidade até o fim do Império e o responsável pelo batismo dos habitantes do Rio de Janeiro.

Por ser um canto tranquilo e afastado do Centro, Laranjeiras era como um lugar de veraneio. E foi naquele bairro, de 1800 a 1940, num Rio que era o centro do poder político e cultural do país, que se instalou a aristocracia, os fidalgos, as embaixadas e os estrangeiros de corpos diplomáticos, além de magistrados, ministros, altos funcionários públicos e ricos comerciantes.

Daí fazer todo sentido, hoje, ter uma experiência gastronômica na cobertura triplex de um prédio dos anos 1930, num espaço cultural rodeado por obras de arte contemporânea, entre esculturas e telas do acervo pessoal dos proprietários do imóvel, numa linda mesa coletiva de madeira nobre, dos anos 40, de frente para uma cozinha aberta e minimalista.

Não é fácil reservar. Os jantares são anunciados no Instagram do Trégua em dias imprevisíveis. O número de convidados é restrito e o jantar acontece em dois turnos: o primeiro acomoda dez pessoas, enquanto o segundo recebe oito, além de quatro lugares na bancada da cozinha. O endereço só é revelado após a confirmação da reserva.

O menu é feito de produtos locais. Peixes frescos, legumes da época, queijos excepcionais (uma paixão de Ana Paula), méis, cogumelos, em preparações criativas. Em geral, são quatro pratos de vegetais, um peixe, uma carne e uma sobremesa. A carta de vinhos é da querida Maíra Freire, que trabalha no Lasai, e em 2024 tornou-se a primeira brasileira a receber o prêmio do guia Michelin, como sommelière. Não raramente, a bebê Mia aparece pendurada num sling enquanto os pais gerenciam as panelas..

Preço: €€€€€

Espaço “O Telhado” (cobertura). O endereço exato é informado após a confirmação da reserva. Laranjeiras, Rio de Janeiro. Jantar, de terça a sábado (consulte os horários de funcionamento).

Lilia, Centro

Lucio Vieira, sócio do Lilia

Espremida entre dois morros que foram postos abaixo – o do Senado e o de Santo Antônio – a Rua do Senado sofreu, por muitos anos, as consequências dos arrasamentos. Graças à poeira e ao caos que se seguiram, sua presença nos jornais de época era frequente, mas quase sempre na seção de queixas da população.

Até o fim do século XIX, funcionava mais como local de conveniência para quem vivia ali, do que com algum protagonismo. Era uma rua de retaguarda, com depósitos de cereais; algumas padarias que também supriam outros restaurantes; gente que fazia “empadas, sequilhos e marmeladas, branca ou vermelha” sob encomenda; fábricas de cerveja: hotéis sem vocação turística: umas poucas casas de pasto e botequins.

A chegada da Família Real trouxe vida cultural e uma profusão de teatros e casas de shows que se estabeleceram na Rua do Lavradio e em torno da Praça Tiradentes. E a vida da Rua do Senado e arredores ficou tão interconectada aos espetáculos, que vários pratos, restaurantes e bares foram batizados com o nome de peças ou atores.

Hoje, é rua boêmia e movimentada, considerada pela Revista Time Out como a mais cool do mundo e, também, o retrato de um Rio de Janeiro antigo, com sobrados descritos nos romances de Machado de Assis.

Frequentado tanto por quem trabalha no bairro, como por quem cruza a cidade atrás de uma cozinha contemporânea brasileira de qualidade, o Lilia é estratégico também para quem busca as inúmeras atrações do centro histórico do Rio.

Comandado por Lucio Vieira e seu sócio Mateus Siqueira, a casa fica num lindo sobrado do século XIX, na rua do Senado. Vale estar em dia com o ginásio para conseguir chegar ao terceiro andar, o mais interessante, para mim. O cardápio, em constante transformação, respeita a oferta dos produtores locais, sejam carnes, aves de granja, peixes, PANCs ou legumes.

No pequeno menu a preço fixo executado pelo chef Yan Ramos, se pode escolher entre 3 entradas, 3 pratos principais e 3 sobremesas, sempre mirando no aproveitamento integral dos ingredientes: enquanto um filé de peixe da costa fluminense brilha nos principais, o caldo da cabeça e carcaça podem virar pirão ou rillete, no outro.

Além disso, as icônicas ostras – populares no Rio de Janeiro colonial e imperial, dos botequins às embaixadas – vêm sempre em trio, a cada semana com um tempero diferente e podem ser regadas com algum dos vinhos orgânicos ou biodinâmicos da carta.

Aos fins de semana, a casa muda de cor, quando recebe a turma em busca das antiguidades da Feira do Lavradio ou da roda de samba, em frente ao Armazém do Senado.

O clima é bastante informal – sugerimos uma visita no almoço – e é importante reservar.

Preço: €€

Rua do Senado, 45 – Centro, Rio de Janeiro. Almoço, de segunda a sábado, das 12h às 15h. Jantar, de segunda a sábado, das 19h às 23h.

Sud O Pássaro Verde, Jardim Botânico

Peixe do dia com lascas de melão da temporada, no Sud

A história gastronômica do Jardim Botânico é curta. Ponto final do bonde no século XIX, tinha duas atividades principais: de um lado o jardim de aclimatação de árvores e plantas do mundo inteiro, visitado pela comunidade científica mundial; e de outro uma região fabril, com uma oferta pequena de restaurantes que pretendia atender aos operários do bairro. Muitas e muitas padarias atendiam os moradores, que criavam animais no quintal.

As comitivas internacionais que visitavam o Jardim Botânico naquele tempo, costumavam fazer piqueniques à sombra das árvores para até 300 pessoas, com direito a mesas montadas, toalhas de linho e cardápios que refletiam uma cidade recém aberta para o mundo: embutidos, conservas, manteiga e sardinhas, omelete com trufas, lagostins, camarões recheados, filet com champignons, ostras, arroz ao curry, maionese de lagosta, peru à brasileira, presunto de York, aspargos, molho holandês, creme de laranja e gelatina de frutas, vinhos Madeira, Sauternes, Margaux, Borgonha, Medoc, Macon Pommery, Champagne, Moscatel, Porto, Cognac, licores, chá ou café.

Hoje, meu banquete preferido acontece no Sud, restaurante simples da chef Roberta Sudbrack, que já chefiou banquetes para o Presidente da República, mas entende que o futuro da gastronomia está numa cozinha afetiva, em torno de um forno de barro, com os melhores ingredientes possíveis, com destaque para o frango de granja, prato que em geral não peço mundo afora, exceto ali, lembrança de um Rio de 200 anos atrás.

Porcos, patos e cordeiros chegam às mesas em panelas com o perfume da brasa. Ingredientes frescos, garimpados de produtores locais, num trabalho silencioso de luta pelos pequenos artesãos de excelência, que ditam o cardápio do dia, sempre seguindo o ritmo das safras.

É lugar para reuniões de família ou negócios bem cariocas. Intelectuais e personalidades do mundo artístico, são sempre avistadas ali, sem alarde. A carta tem predominância de vinhos naturais e boas opções de drinks. Não há placa ou letreiro na entrada.

Preço: €€€ – €€€€

Rua Visconde de Carandaí, 35 – Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Almoço, de sexta a domingo. Jantar, de terça a domingo.

Umai, Copacabana

Seleção de frutos do mar da costa fluminense, no Umai

As “trends” gastronômicas do Rio de Janeiro sempre se deram em torno do mar. Dos peixes em escabeche do século XIX, passando pelas peixadas, ceviches, tartares ou sashimis, o Rio sempre homenageou as suas 200 espécies de peixes nativos.

Em 1746, aparece o primeiro registro da igrejinha de N.Sra.de Copacabana, que avistava o mar e atendia à comunidade de pescadores que moravam em casinhas de sapê na, então, praia de Sacopenapã.  Não à tôa, o assunto preferido do bairro é peixe, apesar de que, sempre que avisto o Atlântico, me surge uma vontade imensa de beber suco de pitanga, lembrança das pitangueiras que cobriam Copacabana de leste a oeste, hoje extintas.

O bairro começou como uma interminável restinga regada por ondas bravias que se desfaziam na areia clara. Era para lá que os habitantes da cidade, com muita dificuldade de acesso, iam aos domingos e feriados tomar banhos de mar.  

Hoje, o cenário é bem diferente. No meio do bairro movimentadíssimo, instalou-se um pequeno oásis: o Umai, que oferece o omakase (menu-degustação em estilo japonês) com foco em ingredientes locais, pescadores e produtores artesanais, num balcão de 10 lugares escondido no segundo andar de um prédio comercial, onde os melhores ingredientes brasileiros encontram técnicas japonesas.

O nome quer dizer “habilidoso” em japonês, criação do sócio Menandro Rodrigues, e também um spin off do seu premiado Haru Sushi.

Suas 16 etapas giram em torno de nomes de peixes bastante curiosos, como perna-de-moça, carapau ou piraúna, sempre respeitando as estações do ano e com baixo impacto ambiental. Tanto o shoyu quanto todos os dashi (caldos) são feitos na casa e os demais ingredientes são predominantemente locais e de pequenos produtores, como méis de abelhas nativas ou frutos brasileiros de época.

O restaurante tem uma das mais amplas cartas de sakês da cidade, incluindo o primeiro artesanal brasileiro: o Tomoe. Vale espiar também o “111 Music Bar” recém inaugurado, com som de alta qualidade, conforto, excelentes drinks do mixologista Leonardo Santos e cardápio de sushis e sashimis do vizinho Haru, do mesmo proprietário.

Preço: €€€€€

Rua Raimundo Corrêa, 10 – Copacabana, Rio de Janeiro. De terça a sábado. Somente com reserva.

Ocyá, Barra da Tijuca

peixe maturado do dia, no Ocyá

Chamada de “Sertão Carioca” até o início do século passado, a região da Barra da Tijuca e arredores foi, por séculos, uma área isolada da cidade. O que era um grande território indígena, com a chegada dos portugueses passou a ser usado para plantações, fossem cana de açúcar, bananeiras ou cafezais.

Apesar das produções, escoadas com dificuldade até os anos 1930, os habitantes da Barra caçavam, pescavam e tinham pequenas roças de subsistência, uma herança dos povos nativos. Até por isso, foi um dos primeiros bairros a falar em defeso de pesca, já em 1856.

Ali, havia a figura do “pombeiro” de peixes, vendedor ambulante que comprava dos pescadores e seguia a cavalo até a casa dos clientes, com tainhas, robalos, bagres, corvinas, traíras e acarás, limpos e embrulhados em folhas de bananeira, ou secos (em moquém), como faziam os indígenas.

Não poderia ser em outro lugar, portanto, que o Ocyá, de Gerônimo Athuel surgiria.

A experiência começa já a caminho do restaurante, onde o acesso só é possível pelo vai e vem dos barqueiros que atendem os moradores do arquipélago da Gigóia, na Barra da Tijuca. Em pequena viagem de dez minutos pelas águas da Lagoa de Marapendi, se chega numa casa pintada de azul, com teto de bambu e cercada de verde.

O chef e pescador Gerônimo Athuel cresceu na companhia de pescadores e, com eles, aprendeu a valorizar a matéria-prima. Nascia ali o cozinheiro que viria a investir em peixes locais como ubarana, salema, sargo de dente ou sargo de beiço, nomes pouco conhecidos até pelos cariocas.

O cardápio do dia depende dos caprichos do mar, daí os termos genéricos como “peixe do dia desossado na brasa” ou “colar de peixe maturado com caramelo picante”. O colar, aliás, é um dos carros-chefe da da casa, que procura aproveitar integralmente o pescado: o couro do peixe pode virar um torresmo; da cabeça, se faz um belo caldo; da barbatana, um petisco; da bochecha, um manjar. Com sorte, pode ser dia da cabeça de garoupa generosa, pescada pelo próprio chef, servida com farofa fria, preparação típica dos pescadores que, em dia de pesca, é temperada com a água do oceano.

No Ocyá, os peixes, camarão e polvo são servidos com o mínimo de intervenção possível para valorizar seu sabor natural e a vitrine da câmara de maturação fria é atração à parte, tanto na unidade da Barra quanto na do Leblon, onde o pescado é preservado até que chegue no seu melhor momento.

Outra assinatura da casa é a charcutaria do mar: a linguiça artesanal defumada com geleia de pimenta da casa vale o pedido. A carta de bebidas traz caipirinhas que incluem ingredientes e frutos nativos como cajá, rapadura ou jaboticaba.

O ambiente é descontraído e charmoso, com a Pedra da Gávea como testemunha. Tudo bem sossegado, com uma trilha sonora discreta ao fundo, atravessada aqui e ali pelo som dos pássaros, micos e dos barcos que circulam pelo canal.

Preço: €€€ – €€€€

Rua Aristides Espínola, 88 – Leblon, Rio de Janeiro. Segunda-feira, das 12h à 0h. Domingo, das 12h às 20h.

Polvo Marisqueria, Botafogo

vieiras da costa com lardo de porco nativo, no Polvo Marisqueria

A General Polidoro, a primeira via pública do bairro, era chamada de Caminho do Berquó, o rio que desaguava na enseada de Botafogo, passagem de canoas e pequenas embarcações que transportavam a produção dos engenhos, no século XVI. Aos poucos, passou de trilha rural a um dos eixos de urbanização mais importantes da cidade.

Botafogo, hoje, talvez seja o bairro mais “foodie” do Rio de Janeiro. Algumas ruas à noite ficam tomadas de jovens bebendo e conversando pelas calçadas. Foi ali que Monique Gabiatti decidiu instalar seu Polvo Marisqueria.

Ao contrário de Portugal, no Brasil as marisqueiras não são tão habituais, mas a inspiração passa seguramente pela “terrinha”.

A decoração é espartana, mas a pista é clara: uma geladeira de maturação de peixes num canto, um polvo desenhado na fachada e lâmpadas penduradas por amarras de barco pelo salão. Ali se soletra MAR.

Da convivência com avós que gostavam de cozinhar, nasceu a intimidade da com as panelas, mas o amor da chef Monique Gabiatti por frutos do mar se deu com todos os ‘pousos’ que o pai, piloto, fez ao longo de sua vida. Cresceu beirando a costa e herdou da avó portuguesa o apreço pela cozinha ibérica e sobretudo pelos arrozes, que ocupam uma bela porção do menu.

Seu Polvo Marisqueria, com pouco mais de um ano de idade, é um sucesso. Os 50 lugares espalhados por dois pisos de um sobrado antigo, em Botafogo, recebem os clientes para um cardápio que se divide em crudos, entradas frias, quentes e pratos principais. Apesar da estrutura fixa, a chef afirma que só sabe o que vai servir quando abre a porta de serviço, mudando as sugestões de acordo com a estação, com as marés, e com o que seus 4 pescadores de confiança lhe trazem.

Seu platô de frutos do mar, que tem um pouco de tudo, é um sucesso. “Muita gente não sabe a complexidade que o mar do Rio oferece. O mar de Arraial do Cabo não é o mar de Angra dos Reis e, em termos de sabor, isso é riquíssimo”. 

Trabalha com o artesanal, seja o produto da pesca, como o grande parceiro Lagos em Ação que lhe fornece vieiras, ostras e mexilhões, ou da charcutaria, como a Porco Alado, com quem tem uma íntima relação de confiança. Junto a eles, desenvolve embutidos autorais ou cria receitas a partir de insumos originais e pouco demandados pelo mercado, como as gônadas de vieiras que entram em caldos e mousses. Na ponta final, é também uma artesã, que se dedica à maturação de peixes ou, por exemplo, à fabricação de sua própria bottarga.

O lema de Monique é um só: “Não me interessa tamanho ou espécie. Meu foco é a qualidade do peixe. Se é bom, se é fresco”. E é esse espírito que adoro naquele lugar.

Preço: €€ – €€€

Rua Dezenove de Fevereiro, 194 – Botafogo, Rio de Janeiro. De terça a domingo, das 12h às 23h (fechado das 16h às 18h).

Lasai, Ipanema

Rafa Costa e Silva, do Lasai

O Lasai costuma dispensar apresentações. Com duas estrelas Michelin, também está entre os 100 melhores restaurantes do Mundo pelo Guia 50Best e entre os 50 melhores da América Latina. Rafa Costa e Silva é genial, e muito antes da primeira estrela eu já estava lá, do outro lado do balcão.

Para a minha alegria, decidiu se instalar, a partir de setembro de 2026, no Sofitel, em Ipanema, de frente para o mar. Não que sua casa em Botafogo não seja adorável, mas o mar, ah o mar!… tempero que torna tudo mais gostoso.

Ipanema nasceu de um empreendimento imobiliário, no final do século XIX, com a extensão do ponto final do bonde, que passava a ir do Jardim Botânico até onde, hoje, é o Arpoador, que poderá ser avistado da janela do futuro restaurante. Escrevo agora, em plena época de migração de baleias, e fico imaginando comer aquela comida acompanhado de um espetáculo de beleza ímpar e bem diferente daquele do século XVI, em que eram “arpoadas” ali, para a iluminação da cidade.

No início do século XX, a região de Ipanema era chamada de Praia de Fora de Copacabana, um grande areal com diversas pitangueiras, araçazeiros e cajueiros, onde moravam preás, tatus e alguns pescadores. Depois, virou berço artístico e intelectual da cidade, com imaginário moldado ao longo das décadas de 1960 e 1980, especialmente pelo Pasquim, tablóide fundado em Ipanema que espalhou um estilo de vida, as gírias, o jeito de ser do morador da Zona Sul, além de ser o berço da Bossa Nova, da moda praia e do sanduíche natural, feito de pão integral e legumes crocantes, passas, pastas de ricota ou atum, uma das comidas de areia mais populares da cidade, ainda hoje.

O bairro que foi o berço do chope gelado, dos drinks cuba-libre e hi-fi dos anos 70, agora vira uma embaixada com o que há de melhor em termos de ingredientes do Estado do Rio.

Comandado por Rafa Costa e Silva, o Lasai é hoje a maior referência contemporânea da alta gastronomia no Rio de Janeiro, numa cozinha com foco em ingredientes nativos, orgânicos, locais e sazonais. São peixes da costa fluminense, de pesca artesanal; legumes e verduras e frutas colhidos em horta própria;  ingredientes de pequenos artesãos de excelência; além de cortes de porcos de raças brasileiras, presentes num cardápio extremamente sazonal e em constante transformação.

Rafa faz questão de afirmar: não trabalha com receitas. Recebe os produtos frescos e, com a ajuda de Vini Maciel, responsável pelo laboratório criativo, que estuda todas as formas que pode tomar um chuchu, por exemplo, e de Marcelo Malta, responsável pela brigada de cozinha, cria os passos do menu a partir do que está disponível na horta do restaurante, no Vale das Videiras, em Petrópolis. É ali que investe em biodiversidade e resgata sabores pouco explorados, como o de legumes nativos e ingredientes raros. O que se serve no Lasai são pratos elaborados com ingredientes 100% do Rio de Janeiro, colhidos no auge do sabor, em combinações criativas e marcantes.

Com menu degustação de 15 etapas, a experiência pode ser harmonizada com vinhos selecionados por Maíra Freire, eleita Sommelière do ano (2024) pelo Guia Michelin.

Preço: €€€€€

Rua Conde de Irajá, 191 – Botafogo, Rio de Janeiro. Jantar, de terça a sábado. Somente com reserva.

Uma Padaria e Cafeteria: A Slow Bakery, Botafogo

pequeno almoço na Slow Bakery

Numa rua improvável de Botafogo, que mistura um comércio confuso, oficinas, prédios residenciais e um estacionamento, se avista uma ampla vitrine de vidro.

O antigo cortiço que, agora, ganha ares industriais, é a maior referência de padaria artesanal na cidade: a Slow Bakery, Fábrica e Café, do ex-publicitário Rafa Brito Pereira.

Da entrada, o imenso pé direito abriga fornos que produzem 12 toneladas de pão de fermentação natural, por mês. A produção é disparada para todos os cantos da cidade, ou provada ali mesmo, num dos 67 lugares da casa, distribuídos entre mesinhas, uma mesa comunitária e um balcão,

Seus famosos croques, tartines, croissants, sanduíches, iogurtes, geleias e ovos, são feitos com queijos ou charcutaria de pequenos artesãos locais e ingredientes prioritariamente orgânicos. Todos regados a cafés especiais, das principais regiões produtoras do país.

Ali não há ultraprocessados, as embalagens são recicláveis e a casa mira no desperdício zero.

Aberta o dia inteiro, de terça a sábado e, aos domingos em horário reduzido, a Slow se tornou um destino obrigatório dos foodies, homens de negócio ou turistas que vêm a reboque dos inúmeros elogios em guias internacionais.

Não saia sem comer o choux recheado com baunilha da Mata Atlântica com o café coado com blend da casa, ou sem espiar o anexo de Rafa: o Lazy, casa de vinhos naturais, massas e mozzarela bar. Mas esse será outro post…

Preço: €

Rua General Polidoro, 25 – Botafogo, Rio de Janeiro. De terça a sábado, das 8h às 20h. Domingo, das 9h às 17h.

Uma Sorveteria: A Vero, Ipanema

sorvetes de frutas e sementes nativas, na Vero

“Tudo o que é comestível pode virar sorvete.”

É assim que o italiano Andrea Panzacchi conduz a VERO, pequena fábrica descontraída em Ipanema, onde o balcão funciona o dia inteiro como uma janela para a estação: frutas frescas, folhas aromáticas, sementes e especiarias virando sabor gelado.

Hoje, os 31 sabores entram e saem conforme o clima e a oferta dos agricultores, até porque sorvete bom também tem época.

As grandes estrelas são as frutas nativas da Mata Atlântica – grumixama, donizete, cabeludinha, quaresmeira, uvaia, framboesa preta – e ingredientes que fogem do lugar-comum: PANCs, ervas e especiarias como ora-pro-nóbis, manjericão cítrico, priprioca, cumaru, amburana, puxuri. Sabores da mata, em forma de sorvete.

A VERO faz sorvete como quem transforma território em sabor: artesanal, com ingredientes naturais, apoio à agricultura familiar, menos açúcar, menos desperdício e embalagens de baixo impacto. Esses princípios seguem juntos quando o sorvete sai da pequena fábrica de Ipanema e chega a restaurantes, hotéis e até hospitais — sempre limpo, leve, carioca. Sorvete que respeita o tempo da fruta, a mão do agricultor e a beleza de descobrir que a biodiversidade também pode ser gelada.

Preço: €

Rua Visconde de Pirajá, 229 – Ipanema, Rio de Janeiro. Todos os dias, das 11h à meia-noite.

Angá, Nogueira – Petrópolis

Bruno Sobreira e Lydia Gonzalez, para uma cozinha que vale a viagem, no Angá

Sei que meu breve roteiro guloso acontece na capital, mas considero essa pequena escapada obrigatória.  Era em Petrópolis que a Côrte Portuguesa do Rio de Janeiro fugia para “veranear”. A cerca de 70km da cidade, é o retrato de um “outro Rio”, com tradição cervejeira e clima ameno de montanha.

Farinha de mandioca e fubá de milho faziam parte da dieta dos povos indígenas do Rio muito antes da chegada dos primeiros europeus. Ali na Serra Fluminense, o cultivo do milho foi registrado a partir de 1802. A partir de então, a região passou a concentrar um número considerável de moinhos de fubá, a ponto de ser uma das suas principais atividades econômicas, junto com o cultivo de orgânicos e a criação de animais de quintal.

Após temporadas na Espanha e em diversas regiões do Brasil, a chef Lydia Gonzalez voltou para casa em 2017, para criar os filhos e, também, esse restaurante campestre que preserva as tradições serranas, mas em preparações absolutamente vanguardistas.

Ao lado de Bruno Sobreira, assina menus com insumos orgânicos, da estação e de perto, com ingredientes como mandioca, mangarito, jiló e PANCs (produtos alimentícios não convencionais), de preferência colhidos no jardim agroflorestal que construiu no entorno da casa.

Peixe e carne podem entrar nas seis etapas do menu que muda segundo as estações e a oferta dos produtores amigos. Aqui, aliás, os itens têm nome e sobrenome: do queijo do Capril do Lago, em Valença, ao cacau de Bom Jesus do Itabapoana, passando pela rapadura do Celso (feita num quilombo com 500 anos de história) e pela cenoura da Sandra. Na mesa, chegam também pães de fermentação natural – de canela, focaccia ou polvilho de linhaça. A carta de bebidas inclui cachaças, cervejas artesanais e vinhos de baixa intervenção fabricados por parceiros da casa.

Com sorte, se pode provar uma entrada de repolho na brasa com iogurte queimado e brôa de milho crioulo, ou ainda belíssimo porco assado, acompanhado de mangarito (tubérculo ancestral brasileiro), em seu caldo denso, com mamão verde do quintal.

Entre janelas de vidro e portas abertas para a Mata Atlântica, o espaço é decorado com achados afetivos, como pilões e instrumentos antigos de cozinha. A atmosfera é aconchegante e romântica.

O desafio é voltar à realidade depois.

Preço: €€€€

Rua Argentina, 393 – Nogueira, Petrópolis – RJ. Sexta, jantar das 20h à 0h. Sábado, almoço e jantar, das 13h30 à 0h. Domingo, almoço, das 13h30 às 18h.


Termino assim, essa pequena viagem das entranhas de uma carioca que rodou o mundo, mas escolheu engordar no Rio. Vale dizer, todos os restaurantes aqui citados são chancelados pelo meu querido Instituto Bazzar.

Sobre a autora
Cristiana Beltrão é pesquisadora e palestrante de gastronomia, turismo e inovação, fundadora do Instituto Bazzar de Turismo Gastronômico Sustentável e colunista de gastronomia da Revista Veja Rio. Vive entre o Rio de Janeiro e Lisboa.

Sobre o Instituto (a história completa, num artigo à parte, brevemente)
Promove turismo gastronômico com foco em sustentabilidade no Estado do Rio de Janeiro. Mapeia produtores de excelência e faz a ponte com restaurantes inspiradores, de forma a manter vivo o nosso patrimônio gastronômico artesanal e a identidade dos territórios, criando roteiros de turismo responsáveis.


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