Incêndio na Serra de Gredos, em Espanha, com uma coluna de fumo a erguer-se junto às vinhas do produtor Comando G.
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“Se o vento tivesse soprado noutra direcção, teríamos perdido tudo.”

O testemunho do Comando G sobre os incêndios que ameaçam as suas vinhas na Serra de Gredos é um dos relatos mais duros dos últimos dias. Publicamo-lo na íntegra e recordamos o que Portugal viveu no Dão em 2024.

A frase que dá origem ao título foi publicada há poucas horas no Instagram do Comando G. Não é uma figura de estilo nem um exercício literário. É o relato, escrito na primeira pessoa e aqui traduzido do espanhol, de um dos produtores mais influentes de Espanha, enquanto os incêndios que lavram na Serra de Gredos continuam a cercar algumas das suas vinhas, obrigam famílias de trabalhadores a abandonar as suas casas e ameaçam aproximar-se da adega.

A situação é de tal forma grave que o Governo espanhol declarou a emergência de interesse nacional na Comunidade de Madrid e na província de Ávila. Nas últimas horas, dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas, o fogo uniu várias frentes activas e os bombeiros continuam a combater incêndios alimentados pelo vento, pelas temperaturas elevadas e pela vegetação extremamente seca. 

O Comando G não é um produtor qualquer. Fundado por Fernando García e Daniel Gómez Jiménez-Landi, tornou-se, na última década e meia, uma das referências da viticultura espanhola ao recuperar pequenas parcelas de vinha velha de Garnacha espalhadas pela Serra de Gredos. Os seus vinhos ajudaram a mudar a percepção internacional desta casta e da própria região, mostrando uma expressão assente na altitude, nos solos graníticos e na identidade de cada parcela. Hoje, são presença habitual nas cartas de alguns dos melhores restaurantes do mundo.

Foi neste contexto que o produtor decidiu publicar um texto que mistura testemunho, desabafo e denúncia.

No testemunho, o produtor descreve o incêndio ainda sem controlo, agradece as mensagens de solidariedade recebidas e termina com uma reflexão muito pessoal sobre aquilo que considera serem as causas desta tragédia.

Publicamos abaixo a tradução integral desse testemunho.

“Uma loucura. Um horror.
Uma verdadeira tragédia ambiental e um golpe muito duro para Gredos.
Obrigado por todas as mensagens de carinho e solidariedade que temos recebido.

Em algumas vinhas estamos cercados pelo fogo, com as famílias dos nossos trabalhadores desalojadas das suas casas e as chamas já não estão muito longe da adega…
E, no meio deste horror, somos uns privilegiados, porque poderíamos estar muito pior. Se o vento tivesse soprado noutra direcção, teríamos perdido tudo.

Isto ainda não acabou…
O fogo continua a avançar sem controlo.
Todo o nosso apoio aos bombeiros e a todos aqueles que, nestes dias, arriscam a vida. Aos nossos colegas e vizinhos.

Que enorme fatalidade. E que revolta.
Enquanto houver quem ganhe dinheiro a combater incêndios; enquanto não houver interesse em prevenir, apesar de isso ser mais barato do que correr atrás do fogo; enquanto os agricultores e os criadores de gado não forem justamente remunerados pelos seus produtos; 
enquanto o mundo rural continuar a ser abandonado; enquanto não existir uma verdadeira gestão do território, os incêndios continuarão a ser a realidade de todos os Verões.

Cada vez mais violentos, também por causa das alterações climáticas provocadas pela acção humana, que consome os recursos naturais muito para além do que seria sustentável.

O falso progresso infinito do capitalismo mais feroz. Esgotamos e desertificamos a terra, fazemos dinheiro com a fome, contaminamos os alimentos com produtos químicos, brincamos com a nossa saúde. Tudo vale na corrida do egoísmo.

Julgamo-nos donos de algo que não nos pertence. Esquecemo-nos do dever de cuidar e preservar para as gerações futuras. Esquecemo-nos do bem comum e da visão de longo prazo.

O fogo é consequência da ganância de uma sociedade que apenas procura poder, votos e dinheiro.”

Um cenário que Portugal conhece

O relato do Comando G lembra o que Portugal viveu em Setembro de 2024.

Os incêndios atingiram então várias explorações vitivinícolas da região Centro, particularmente no Dão, apanhando muitos produtores ainda em plena vindima.

Um dos casos mais dramáticos foi o de João Tavares de Pina, da Quinta da Boavista, em Penalva do Castelo. O produtor perdeu cerca de 12 dos 15 hectares de vinha, viu a casa ser destruída pelas chamas e perdeu também grande parte do trabalho de recuperação de castas antigas que desenvolvia há vários anos. A adega escapou ao incêndio, tal como cerca de 70% da vindima já realizada, mas o impacto sobre a exploração foi devastador.

João Tavares de Pina confessava, na altura, entre a revolta e a resignação, que de pouco vale manter uma propriedade limpa e cuidada quando basta um terreno vizinho sem gestão para deitar tudo a perder.

Tal como agora acontece na Serra de Gredos, os prejuízos não se medem apenas em toneladas de uvas ou em litros de vinho. Em muitos casos, perdem-se vinhas velhas, parcelas recuperadas ao abandono e anos — por vezes décadas — de trabalho que não podem ser simplesmente substituídos por uma nova plantação.

Em Gredos, porém, o balanço continua em aberto. Como escreveram Fernando García e Daniel Gómez Jiménez-Landi, “se o vento tivesse soprado noutra direcção, teríamos perdido tudo”. O vento não soprou nessa direcção. Mas o incêndio continua longe de estar dominado.


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