Opinião

Guia Michelin 2026. Análise: vencedores, casinhos e previsões furadas 

Chefs alinhados no final da cerimonia do guia Michelin Portugal 2026

Pode ter sido apenas uma impressão minha, mas há muito que não via um ambiente tão descontraído entre os chefes antes de uma gala do Guia Michelin. A questão da terceira estrela continua a ser um assunto recorrente, mas não senti a tensão dos últimos anos em relação ao tema.

Na véspera da gala na Madeira, Benoit Sinton proporcionou um jantar no seu Il Gallo d’Oro a algumas dezenas de convidados, onde marcaram presença praticamente todos os chefes que, tal como ele, ostentam duas estrelas na jaleca — com excepção de Vítor Matos, presumo que por impossibilidade.

O ambiente foi de amena cavaqueira e camaradagem. Talvez o único caso em que senti alguma apreensão tenha sido o de Henrique Sá Pessoa, uma vez que persistia a dúvida sobre se as duas estrelas transitariam definitivamente para o novo restaurante que leva o seu nome, tal como indiciava o site do guia, que já tinha feito essa transição quando o restaurante abriu em Fevereiro.

De resto, pareciam todos mais ou menos tranquilos com a ideia — que viria a confirmar-se no dia seguinte — de que não haveria nenhuma promoção ao escalão mais alto do guia: as três estrelas.

Havia também a curiosidade de perceber se uma gala na Madeira — ou seja, fora do continente — poderia constituir um obstáculo à presença dos principais protagonistas do sector. A verdade é que, com algumas excepções, isso não se verificou. Pelo contrário: se no dia da gala e na véspera se tropeçava num chef a cada esquina, sobretudo nas imediações do Savoy Palace, onde tudo decorria, houve vários intervenientes que chegaram com antecedência e aproveitaram o momento para fazer visitas, quer a restaurantes quer a produtores, alguns dos quais abriram portas precisamente para os receber.

A gala começou à hora prevista e decorreu a bom ritmo ao longo de um período de tempo bem calibrado: nem demasiado curto nem demasiado longo. Os compromissos com patrocinadores e entidades oficiais foram cumpridos sem causar fastio e até o discurso, em vídeo, do sempre hiper-optimista director internacional do guia, Gwendal Poullennec — que tal como no ano passado não esteve fisicamente presente — foi recebido com bonomia.

Parecia que estávamos num mundo Disney. Se era desta que haveria razões para o seu optimismo, ainda não sabíamos.

Este ano a apresentação coube à actriz Daniela Ruah que, com uma ou outra falha própria de quem não conhece o meio, esteve bem e cumpriu o seu papel de ir distribuindo o jogo — o que, neste caso, implica algum fôlego para o inevitável name dropping.

Ao nível das distinções colectivas, a noite nem começou particularmente bem, com a dieta de novos Bib Gourmand reduzida a apenas dois restaurantes — menos três do que no ano passado. Seguiu-se a subida ao palco dos “recomendados”, uma originalidade própria das galas Michelin quando as novas estrelas não abundam, mas que até revela um certo esforço de democratização da cerimónia, já que vários destes restaurantes apresentam conceitos mais acessíveis. Este ano foram 34 — menos um do que em 2025.

A verdade é que, até esse momento, o somatório de subidas a palco estava em défice face ao ano anterior.

Todavia, seria por pouco tempo. O anúncio dos 10 novos restaurantes com uma estrela — mais dois do que em 2025 — e a subida do Fifty Seconds a duas estrelas empolgaram a sala, deixando para a história a edição de 2026 do guia como a melhor colheita de sempre.

Isso acabou por relegar para segundo plano qualquer desalento relacionado com a ausência de um três estrelas, com o menor alargamento do clube das duas (onde havia esperança de ver entrar casas como o Vista ou o Pedro Lemos) ou com as três perdas de estrelas — das quais apenas a do Eleven teve real peso simbólico, uma vez que as outras duas resultaram de encerramento ou mudança de conceito.

Como habitualmente, não me furto a nomear quem foram os vencedores da noite — bem como alguns casos e casinhos que merecem nota. Porém, tal como no ano passado, não vejo necessidade de pintar o assunto com cores demasiado carregadas e falar em “perdedores”. Parece-me mais interessante agrupá-los simplesmente na categoria de casos e casinhos.

Vencedores do Guia Michelin Portugal 2026

1. Fifty Seconds, Rui Silvestre e Grupo Sana

Não sei quantos anos mais os responsáveis do grupo hoteleiro Sana estariam dispostos a esperar para ver o seu restaurante da Torre Vasco da Gama subir ao desejado patamar das duas estrelas, depois do flop nas aspirações iniciais que levaram inclusive à saída de Martín Berasategui e, por arrasto, de Filipe Carvalho do projecto.

Valeu a perseverança, o esforço financeiro e a aposta num chef com grande personalidade.

Do lado de Rui Silvestre, é também de enaltecer o risco de largar a sua estrela no Algarve e apostar numa cozinha cheia de identidade, onde surgem referências familiares indo-moçambicanas, sempre aliadas a grande excelência técnica, sem receio de comparações nem de ficar na sombra dos nomes que o antecederam.

2. Pooooorto!

Se Lisboa levou o único duas estrelas da noite, o Porto vê acrescentar ao seu portfólio quatro novos restaurantes com uma estrelaDOP, Éon, Gastro by Elemento e InDiferente.

Um chef estrelado da cidade perguntava, entre dentes, se haveria clientes para tantas estrelas.

Mas não vamos estragar a festa agora.

3. Vítor Matos e Grupo Torel

Há uns meses saiu a notícia de que Vítor Matos se preparava para abrir quatro novos restaurantes em 2026. A reacção imediata foi: “Pronto, mais quatro novas estrelas.”

A verdade é que parece aplicar-se ao chef nortenho a expressão cada tiro, cada melro”. Sempre que abre um novo espaço, a probabilidade de ganhar uma estrela é elevada.

Desta vez foi com o Schistó, em Peso da Régua (com Vítor Gomes como chef executivo), o que lhe permitiu reforçar o título de chef português com mais estrelas Michelinseis no total — Antiqvum com duas; 2Monkeys, Blind, Oculto e agora Schistó com uma.

Curiosamente (ou não), três destas estrelas estão em hotéis do Grupo Torel Boutiques, que passa assim a ser o único grupo hoteleiro a reunir três restaurantes estrelados no país — igualando o número que em tempos foi alcançado pelo Grupo Penha Longa, actualmente com dois.

4. Mais uma mulher (a primeira brasileira) e mais um casal

Depois de Marlene Vieira e João Sá se terem tornado o primeiro casal em Portugal a conquistar uma estrela Michelin cada um no seu restaurante, chegou agora a vez de Angélica Salvador e Tiago Bonito alcançarem o mesmo feito com os seus espaços InDiferente e Éon — com a particularidade de ambos o conseguirem no mesmo ano.

Ambos estavam naturalmente muito felizes e emocionados. Tiago, num discurso bonito (juro que não é piada com o nome), deixou transparecer na voz um verdadeiro turbilhão de emoções. Já Angélica, com uma voz mais firme, acabou por soltar uma espécie de grito do Ipiranga:
Vamos, galera! Vamos, malta!

5. Crédito a jovens, ou melhor, jovens com crédito

Afonso Dantas e Francisco Quintas ainda não têm idade para concorrer a Presidente da República, mas talento, personalidade e confiança é coisa que não lhes falta.

Foi isso que lhes permitiu alcançar uma estrela n’A Cozinha do Paço (Évora) e Largo do Paço (Amarante), respectivamente.

No caso de Francisco Quintas, além de conquistar também o prémio Michelin Jovem Chef, esta é já a segunda estrela da carreira, depois da que alcançou em 2024 no 2Monkeys, juntamente com Vítor Matos.

6. Crédito a independentes

Não foi o ano em que os independentes mais se destacaram, mas é sempre justo mencionar quem consegue superar-se para alcançar a tão desejada estrela fazendo malabarismos com os recursos disponíveis.

Ter talento não chega: é preciso encontrar formas de ultrapassar pequenas debilidades estruturais e convencer os inspectores de que o projecto é sólido.

Rui Sequeira, do Alameda (Faro), e Ricardo Dias Ferreira, do Gastro by Elemento (Porto), como outros colegas seus no passado, já andam há algum tempo a “virar frangos”. Pelos vistos, foi agora que o guia entendeu que os seus projectos tinham a consistência necessária para merecer a estrela que alcançaram.

7. Alentejo

Alentejo sempre foi conhecido pela sua cozinha regional — e assim continua. Porém, nos últimos anos, novos restaurantes e novos chefs introduziram outras abordagens que valorizam tanto a oferta contemporânea como o património gastronómico da região.

Nesse sentido, em termos de alta cozinha merece destaque a conquista da estrela por parte do Mapa, no L’And Vineyards, liderado pelo chef David Jesus, em Montemor, e de A Cozinha do Paço, em Évora, com Afonso Dantas.

Também ao nível dos recomendados houve dois novos lugares a juntar aos já existentes: Forno da Telha (Évora) e Quinta do Quetzal (Vidigueira).

Só é pena que a Herdade do Esporão, embora tenha mantido a estrela nesta edição, já tenha reforçado em comunicado que irá manter a decisão de alterar o conceito do restaurante anunciada no início de Fevereiro — o que os levará, conscientemente, a perder a distinção no futuro.

8. Kappo & Tiago Penão | Filipe Carvalho & JNcQUOI

Kappo nasceu como um pequeno projecto dedicado à cozinha japonesa, em Cascais, liderado por Tiago Penão, que desde o início demonstrou um padrão de exigência elevado.

Entretanto, os seus responsáveis perceberam que havia fragilidades a corrigir e decidiram investir numa renovação do espaço. Pelos vistos, resultou: o objectivo assumido de alcançar uma estrela foi concretizado — a segunda no concelho de Cascais (depois da Fortaleza do Guincho).

Já quanto a Filipe Carvalho, ter anos de estrelas na bagagem e trabalhar num grupo financeiramente sólido como o JNcQUOI é meio caminho andado para alcançar distinções a curto prazo.

Tal só não aconteceu ainda porque o Fish não cumpre completamente o perfil e o novo Table mal completou dois meses de existência.

Ainda assim, o restaurante liderado por Filipe Carvalho recebeu o Prémio Michelin para a Abertura do Ano, galardão atribuído pela primeira vez pelo guia na Península Ibérica, e ambos os restaurantes entraram de imediato no guia como recomendados.

Com todo este entusiasmo, será que no próximo ano veremos o Table tornar-se o primeiro restaurante em Portugal a alcançar directamente duas estrelas?

Casos e casinhos

Em ano de relativa fartura, as críticas são naturalmente menores do que o habitual. Quer dizer, continuam a existir as queixas do costume — sobretudo de quem gosta de mandar bitaites sem conhecer devidamente o historial do guia. Ainda assim, é legítimo dizer que faltam restaurantes de cozinha regional entre os recomendados (não necessariamente entre as estrelas).

E depois há os pequenos episódios, interpretações curiosas e situações que ficaram a pairar na conversa da noite. Nada de escândalos ou grandes polémicas — apenas casos e casinhos que ajudam a compor o retrato desta edição.

Restaurante Henrique Sá Pessoa

Era um dos assuntos mais falados antes da gala e acabou por ser um dos mais comentados depois. Segundo o guia, as estrelas pertencem aos restaurantes e não aos chefs. Porém, como já tinham dado a entender pela transposição automática no site das estrelas do Alma para o novo Henrique Sá Pessoa, essa interpretação não era apenas momentânea.

E assim foi: a distinção acabou mesmo por ser atribuída ao novo espaço do chef português — uma interpretação que, diga-se, me parece justa e correcta.

Esporão

Mais estranho é o caso do Esporão.

Mesmo depois de os responsáveis do restaurante terem comunicado ao guia que, a partir de Março, o espaço mudaria de conceito e passaria a assumir um registo mais informal, pelos vistos não foram suficientemente convincentes para levar a Michelin a retirar a distinção já nesta edição

Está visto que escolheram o Esporão para aplicar uma das suas máximas: quem atribui e retira as estrelas são eles — e não os restaurantes.

Açores

Continua a ser um mistério a ausência completa do guia nesta região autónoma. Custa-me a crer que não exista sequer um único restaurante digno de constar no guia, pelo menos na categoria de recomendados.

Só no Pico lembro-me facilmente do Bioma e do Latitude, este último da Azores Wine Company — dos mesmos proprietários e com um ADN semelhante ao d’A Cozinha do Paço, que conquistou este ano uma estrela.

E nem sequer falei de São Miguel, a ilha principal.

Bib Gourmand

No comunicado enviado à imprensa, a Michelin descreve esta distinção nos seguintes termos:

“O emblemático Bibendum a lamber-se, a nossa representação gráfica do Bib Gourmand, é uma das distinções mais apreciadas por los gastrónomos de todo el mundo, ao reflectir a melhor relação qualidade/preço.”

Independentemente de parecer que estão a falar de um animal doméstico — e meio em espanhol — a verdade é que Portugal não parece ser, nos critérios da Michelin, um país particularmente fértil em restaurantes qualidade/preço.

Ter apenas dois novos restaurantes nesta categoria, num total de 26 em todo o país (menos do que os estrelados), é bem revelador disso.

Lisboa

Apesar de a cidade passar a ter mais um restaurante com duas estrelas Michelin — e de continuar a ser a região do país com maior número de restaurantes galardoados — a verdade é que a saída do Arkhe (por encerramento) e do Eleven, por um lado, e a ausência de novas conquistas, por outro, enquanto o Porto acrescentou quatro novas estrelas, fazem pensar um pouco.

Pode ser algo circunstancial. Mas também pode levantar outra questão: estaremos perto de atingir o limite de restaurantes estrelados que uma cidade como Lisboa consegue albergar?

E as previsões do Charles, deram certo?

Como alguns leitores se recordarão, dias antes da gala publiquei aqui no Mesa Marcada um exercício algo diferente: uma conversa fictícia com o “Charles GPT”, onde o modelo de inteligência artificial se aventurava em previsões sobre o que poderia acontecer no Funchal.

Como seria de esperar, acertou em algumas coisas e falhou redondamente noutras. Antecipou, por exemplo, que o número de novas estrelas poderia ficar entre quatro e seis — e acabámos com dez. Por outro lado, identificou bem dois pontos importantes: a ausência de um três estrelas e a possibilidade de o Fifty Seconds entrar definitivamente na conversa das duas estrelas.

No capítulo das novas estrelas, a coisa já foi mais errática. Houve alguns nomes plausíveis, outros discutíveis e pelo menos um ou dois que fizeram os leitores sorrir mais do que prever.

Mas talvez isso faça parte da graça do exercício. Afinal, a Michelin sempre soube cultivar um certo grau de imprevisibilidade — e é precisamente isso que mantém o jogo interessante ano após ano.

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