O Alentejo nunca teve tanta visibilidade gastronómica, tantos sinais de reconhecimento externo, tantos projectos novos e tanta circulação de gente. Mas bastou sentar à mesma mesa dois cozinheiros de gerações diferentes, como José Júlio Vintém e Afonso Dantas, além de responsáveis do turismo, jornalistas e outros intervenientes, para se perceber que, por baixo do momento favorável, continuam muitas perguntas por responder.
Foi precisamente isso que se viu no arranque do Food Love Fest, na Mainova, em Arraiolos, onde um conjunto de personalidades ligadas à gastronomia, ao turismo e à comunicação se reuniu para discutir o presente e o futuro da cozinha alentejana. O pretexto era o festival. A conversa, essa, mostrou rapidamente que o tema era bem maior do que uma programação de eventos.
À mesa estavam José Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, José Júlio Vintém, do Tombalobos, em Portalegre, e Afonso Dantas, chef da Cozinha do Paço, na Adega Fita Preta, em Évora, recentemente distinguido com uma estrela Michelin. Mas participaram também, de forma mais ou menos regular, Joana Barrios, António Moura, Alexandra Prado Coelho e Miguel Pires, entre outros presentes.
Num território que soma distinções, novos protagonistas e um interesse crescente por parte de visitantes portugueses e estrangeiros, o debate revelou uma cena gastronómica em movimento, mas também atravessada por contradições: a tensão entre tradição e criação (mais aparente do que real, na verdade), a dificuldade em valorizar o produto local, os problemas de escala e certificação, a pressão dos preços e uma pergunta de fundo que regressou várias vezes à mesa: afinal, para onde vai a cozinha alentejana?

Foi esse o tom do lançamento da edição de 2026 do Food Love Fest, promovido pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e organizado pela Amuse Bouche, que quis começar não com um simples desfile de nomes e datas, mas com uma discussão aberta. “Não é só um festival que nós queremos fazer. Queremos fazer muito mais do que isso”, resumiu Ana Músico, moderadora da conversa e responsável pela organização, sublinhando uma ideia central: a gastronomia não pode ser pensada apenas como entretenimento.
O cenário escolhido para esse arranque não foi inocente. A Mainova, instalada na Herdade da Fonte Santa, apresenta-se como um projecto familiar de nova geração, centrado na produção de vinhos e azeites e também no enoturismo, juntando adega, olival, vinha e hospitalidade num mesmo discurso de território e identidade.

Um território em alta, mas longe de estar resolvido
Da parte do Turismo do Alentejo e Ribatejo, o discurso foi de afirmação. José Santos falou de um “ecossistema” gastronómico em construção, mais robusto, mais visível e já não feito apenas de casos isolados. Recordou o aumento de referências em guias e distinções internacionais, o crescimento do turismo interno e a relevância crescente da gastronomia como motivo de deslocação. “O Alentejo está a construir um ecossistema ligado à gastronomia, forte, sólido”, disse.
José Santos insistiu também em dois pontos que ajudam a perceber a aposta no Food Love Fest. O primeiro é a vontade de transformar o festival numa marca do território. O segundo é a noção de que a gastronomia se tornou um dos motores do turismo interno. “Há uma actividade muito forte que os portugueses têm, relacionada com gastronomia”, observou, sublinhando a importância de um público que sai de Lisboa, do Algarve ou de Espanha para almoçar em Évora, Estremoz, Arraiolos ou noutras zonas da região.
Mas bastou passar a palavra a José Júlio Vintém para o entusiasmo ganhar espessura. O cozinheiro do Tombalobos não negou o valor da criatividade nem a importância de novos formatos de restauração. Pelo contrário. O que recusou foi outra coisa: que, em nome da novidade, se deixe morrer a cozinha alentejana mais identitária. Para Vintém, os restaurantes tradicionais não podem desaparecer nem ser substituídos por versões vagas de uma suposta cozinha regional. “Um restaurante de cozinha alentejana tem de ser um restaurante de comida alentejana”, atirou, sem rodeios.
Porém, o grande desafio passa por uma questão que é também económica. Já não existe um Alentejo de produto bom e barato. Borrego, espargos selvagens, cardos, poejos, porco de qualidade: tudo isso custa dinheiro. E, se custa dinheiro, não pode continuar a ser julgado com a ligeireza com que muitas vezes se comenta o preço de um prato sem olhar ao que lá está dentro. O seu argumento foi directo: a defesa da cozinha tradicional começa muito antes da receita, começa na valorização real do produto. “Esqueçam a ideia do Alentejo da comida barata”, disse a certa altura, num dos momentos mais enfáticos da conversa.
Entre a tradição e a criação
Do outro lado da mesa, Afonso Dantas introduziu um contraponto importante. O jovem chef madeirense, hoje a cozinhar em Évora, recusou a ideia de uma guerra entre cozinha tradicional e fine dining. “Há espaço para tudo”, respondeu, quando confrontado com a oposição entre cozinha clássica e cozinha criativa. Para ele, há espaço para ambas coexistirem.
Mais: o Alentejo precisa também de projectos gastronómicos ambiciosos, criativos, capazes de mostrar o potencial da região num registo contemporâneo e de atrair públicos que, durante muito tempo, procuraram esse tipo de experiências quase apenas em Lisboa, no Porto ou no Algarve. “A minha missão neste momento enquanto cozinheiro é mostrar o potencial que o Alentejo tem enquanto destino gastronómico”, explicou. O ponto de partida, acrescentou, continua a ser o mesmo: produto alentejano, território alentejano, identidade alentejana. O que muda é a linguagem.
Foi também nesse contexto que surgiu mais do que uma vez a ideia de “contaminação”, usada aqui em sentido positivo. O Alentejo apareceu como território aberto, sem fronteiras rígidas, onde cozinheiros de outras origens, sensibilidades e percursos podem ajudar a enriquecer a cena gastronómica local sem que isso implique apagar a sua base identitária. O caso de Afonso Dantas, vindo da Madeira, foi um dos exemplos mais evidentes, mas não o único. Também o próprio festival, ao juntar cozinheiros de diferentes proveniências e abordagens, parece querer trabalhar essa mistura como força, e não como ameaça.
Foi talvez aí que a conversa se tornou mais interessante. Porque o problema não parece estar, afinal, na convivência entre tradição e criação, mas antes nas fragilidades de base que continuam por resolver. Falou-se de certificação, de rastreabilidade, de dificuldade em facturar certos produtos apanhados no território, da falta de mecanismos que noutros países, nomeadamente em Espanha, permitem uma relação mais estruturada entre pequenos produtores, restauração e cadeia legal de fornecimento. Falou-se também da escala: da dificuldade em garantir regularidade e consistência de produto sem o descaracterizar, e da forma como o centralismo português continua a travar respostas mais ajustadas aos territórios.
O país real à mesa
A certa altura, a conversa saiu da cozinha e entrou no país real. Entrou, por exemplo, nas refeições escolares. Não para dizer que o Estado paga demais, mas exactamente o contrário: quando os concursos públicos impõem um valor máximo muito baixo por refeição, o sistema empurra os operadores para uma lógica em que é praticamente impossível trabalhar com produto local de qualidade. A discussão serviu para lembrar uma evidência tantas vezes esquecida: querer boa comida, mais proximidade e mais autenticidade custa dinheiro, e esse custo não desaparece por decreto.
Entrou também nos baixos rendimentos das populações, sobretudo em territórios menos favorecidos, e no modo como isso condiciona hábitos de consumo. Houve referências ao papel crescente dos supermercados como nova centralidade local, concorrendo directamente com a restauração mais popular e contribuindo para o esvaziamento dos centros das localidades. Alexandra Prado Coelho deu um exemplo simples e eloquente: “No outro dia estava no Norte do país e entrei num destes supermercados e toda a gente estava a tomar o pequeno-almoço lá.” Uma imagem que vale quase como diagnóstico.
Joana Barrios puxou a discussão para outro plano, menos conjuntural e mais estrutural. Falou de território, de abandono e da forma como certas soluções só nascem quando existe capacidade de olhar para os recursos locais de outro modo. E lembrou que, muitas vezes, o contraste entre a idealização gastronómica e a realidade social do interior continua por resolver. “É importante também que o território tenha a capacidade e o interesse de atrair, valorizar e fazer com que as pessoas andem 4 mil quilómetros para vir experimentar coisas com autenticidade”, disse, sem ignorar que essa mesma autenticidade pode tornar-se exclusiva demais para quem ali vive.
Nem por isso a conversa resvalou para o derrotismo. António Moura, do Lamelas, em Porto Covo, lembrou que também se faz caminho pela dinâmica positiva: quando aparecem projectos diferentes, mais exigentes, mais atentos ao vinho, ao produto e ao serviço, isso acaba por contagiar o resto da oferta. Porto Covo, disse, é um exemplo desse movimento. “É à volta de fazermos coisas bem feitas que nós puxamos para a frente”, defendeu, preferindo insistir no efeito de arrastamento que uma nova geração de restaurantes pode ter sobre o território.
José Santos regressou então à ideia de plataforma. Mais notoriedade para um projecto ou para um cozinheiro pode significar mais curiosidade sobre toda a região, mais circulação entre propostas distintas, mais visitantes disponíveis para jantar num restaurante criativo num dia e procurar um ensopado ou umas migas noutro. “Isto é uma plataforma”, resumiu.
Mais do que um festival
Talvez por isso uma das ideias mais interessantes a sair daquela conversa tenha sido a de a transformar em qualquer coisa mais útil do que uma simples troca de opiniões. Ana Músico admitiu essa ambição: aproveitar este arranque para trabalhar, mais à frente, uma carta de intenções ou um documento que ajude a pensar a gastronomia do Alentejo de forma mais estruturada, a partir das vozes do terreno e não apenas de boas intenções exteriores ao sector. “Queríamos muito começar com uma conversa”, disse já na apresentação final do festival, deixando no ar a ideia de que esta sessão poderá ser o primeiro passo de qualquer coisa mais consistente.
Se o Food Love Fest quer ser mais do que uma agenda de almoços e experiências, é provavelmente aqui que a sua utilidade se pode medir. Até porque, como a própria Ana Músico sublinhou, “os festivais têm uma missão que vai muito além do entretenimento”. A frase, num contexto como este, não soou a pose. Soou a programa.
Enquanto o debate decorria, cá fora já se trabalhava sobre o fogo. Filipe Ramalho, do Páteo Real, em Alter do Chão, com a ajuda de Filipe Bilro, do Larau, em Estremoz, ia adiantando a preparação do almoço que seria servido depois, já no interior. E esse almoço acabou por funcionar como síntese prática de muito do que acabara de ser dito. Vieram ovos com espargos selvagens e toucinho, seguidos de um belo ensopado de borrego feito no pote, tudo acompanhado pelos vinhos da Mainova. E, para fechar, uma encharcada de ovos pouco dada a minimalismos: saiu num tabuleiro cuja confecção [aviso, os mais sensíveis não devem ler esta parte] levou 240 gemas e quatro quilos de açúcar.

O programa do Food Love Fest
Quanto ao festival propriamente dito, essa apresentação ficou apenas esboçada durante a conversa. O Food Love Fest regressa este ano com um formato mais concentrado e menos disperso do que em edições anteriores. Em vez da multiplicação de dezenas de micro-eventos por restaurantes e localidades, a edição de 2026 passa a apostar em poucos momentos, mais agregadores, em herdades, adegas e propriedades anfitriãs, reunindo em cada encontro vários cozinheiros a trabalhar em conjunto sobre pratos inspirados na tradição gastronómica do Alentejo e do Ribatejo.

Calendário Food Love Fest 2026
16 de Março — Lançamento institucional, Herdade da Mainova
28 de Março — Torre de Palma Wine Hotel
18 de Abril — Ode Winery
19 de Abril — Fita Preta
2 de Maio — Craveiral Farmhouse
Entre os nomes já anunciados contam-se, entre outros, Alexandre Silva, David Jesus, Vítor Adão, Afonso Dantas, José Júlio Vintém e Joaquim Saragga Leal. O detalhe da programação ficará para outra ocasião. Mas a verdade é que, depois da conversa de Arraiolos, ficou claro que o mais interessante no Food Love Fest poderá não ser apenas o que se vai comer. Pode ser também aquilo que, à volta da mesa, ainda falta discutir.
Nota: este artigo contou com o apoio do Turismo do Alentejo e Ribatejo, no âmbito de uma parceria editorial entre o Mesa Marcada e o Food Love Fest.

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