Aproxima-se o dia da revelação do Guia Michelin Portugal 2026, cuja gala se realiza a 10 de Março no Funchal. Claro que, como é habitual nas semanas que antecedem o evento, começam a surgir as perguntas em catadupa. Como Portugal já conta quase quatro dezenas de restaurantes com uma estrela no guia, fazer linha parece pouco e a obsessão vai directa para bingo. É aí que surge logo a pergunta: “Então e achas q é este ano que vamos ter um 3 estrelas?”. A minha resposta não tem variado muito “eh pá, é difícil, mas sim, já devíamos ter pelo menos um 3 estrelas, ainda por cima porque isso abriria espaço para haver mais restaurantes a entrarem no clube das duas estrelas, uma vez que ao nivel dos uma estrela, já cabe um pouco de tudo – dos 0,8 estrela ao uma estrela e meia.
Este ano, resolvi fazer a coisa de forma diferente e pedir ajuda ao grande especialista, ao grande tudólogo: o Chat GPT, que decidi baptizar de Charles GPT. Numa primeira versão, o diálogo até saiu com um certo humor, mas muito não me comprometas, com umas deduções feitas a partir da introdução, e sem querer avançar com nomes. Tive que apertar com ele e dizer-lhe que não lhe pagava só para me dar beijinhos. Dei-lhe algumas balizas, sugeri-lhe alguns artigos e disse-lhe que fosse menos preguiçoso do que muitas das pessoas que o usam.
O rapaz acusou o toque e accionou o modelo “thinking” que o faz pensar por mais tempo para obter respostas melhores (“thinks longer for better answers”). O resultado valeu a pena: não se acanhou e até chutou nomes. Algumas respostas pareceram-me certeiras, outras nem por isso. Vai daí, resolvi introduzir mais uma camada e comentar os seus palpites. Acompanhem-me no exercício (Nota prévia: se for um dos contemplados, sem azias, por favor!)
Nota: o MP, sou eu segundo ele; o Charles GPT, é ele mesmo e os “Comentários”, são meus, por mim mesmo.
MP — Charles, vamos despachar o elefante na sala: em 10 de Março, no Funchal, vamos finalmente ter um três estrelas em Portugal?
Charles GPT — Vou ser desagradável: se tivesse de apostar, diria que não. Mas também te digo: se houver um ano em que isso pode acontecer, é quando a Michelin decide que Portugal já “aguenta” o selo máximo — e esse momento anda a ser empurrado há tempo demais.
[Comentário: um bocadinho Sr. de La Palisse, mas não está mal]
MP — Ok, mas eu pedi nomes.
Charles GPT — Então toma lá. Se a Michelin acordasse de manhã com vontade de dizer “pronto, está feito”, os dois candidatos mais óbvios são Belcanto e Ocean. São os dois que melhor encaixam na ideia de “vale a viagem”, cada um à sua maneira: um urbano e internacional, outro destino/resort, mas com consistência de topo. (E sim, eu sei que isto não é uma auditoria, é uma previsão.)
[Comentário: tirando as descrições dos restaurantes um bocado mal amanhadas não está mal]
MP — E o resto do clube dos 2 estrelas fica a ver navios?
Charles GPT — Não. Mas se estás a perguntar “quem está mais perto”, eu diria que, logo a seguir, tens Casa de Chá da Boa Nova e Antiqvvm — não por “barulho mediático”, mas por coerência de cozinha e maturidade. Depois vêm The Yeatman, Vila Joya e Il Gallo d’Oro, que são casas com peso e historial, mas onde o salto para 3 depende muito de como a Michelin está a olhar para Portugal em 2026.
[Comentário: mais um bocadinho e estava quase a acertar no totobola à segunda feira. Ah! não é insensível à fórmula Vítor Matos/Estrelas Michelin]
MP — Falaste do Alma?
Charles GPT — Tenho de falar, porque mexe no tabuleiro. O Alma fechou a 31 de Dezembro de 2025 e isso, na lógica Michelin, costuma significar uma coisa muito simples: não há estrela para avaliar enquanto não há restaurante. E mesmo quando um chef reabre noutro sítio, as estrelas não “viajam” no bolso dele — a Michelin é muito clara nisso.
[Comentário: olhe que não sôtôr, olhe que não. Aqui tive de introduzir eu a pergunta]
MP — Reparaste que na versão online a Michelin associou as estrelas ao restaurante Henrique Sá Pessoa?
Charles GPT — Sim, a Michelin já tratou a mudança quase como uma continuidade do projecto. A questão é perceber se essa interpretação administrativa se mantém quando chegar o momento da gala — porque, tradicionalmente, a Michelin costuma avaliar o restaurante enquanto lugar, e não apenas o chef.
[Comentário: não está mal visto, mas não sei se é mesmo assim. O facto de terem passado as estrelas para o novo restaurante de HSP parece-me um bom sinal de que irá mantê-las ]
MP — Ou seja: em 2026 podemos ter menos um 2 estrelas em Lisboa.
Charles GPT — É um cenário plausível, sim. E ainda por cima cria um efeito curioso: a conversa do “falta um três estrelas” continua, mas o mapa real pode ficar mais curto durante um período de transição. (E isto, para quem gosta de bingo, é péssima notícia.)
[Comentário: ups, está-se a esticar. Mas, está bem, concordamos em discordar]
MP — Vamos então ao efeito dominó que eu sugeri na prompt: os duas estrelas são potenciais três e os uma estrela são potenciais duas. Quais são os uma estrela que vês com “cara” de promoção?
Charles GPT — Aqui é que a coisa fica mais interessante, porque o grupo das uma estrela já é grande e heterogéneo — e não é “todos lá para cima”. Se me obrigas a escolher perfis com lógica de subida (não necessariamente já em 2026), eu separava em três sacos:
- Os “já deviam estar a bater à porta”
— Fifty Seconds (Lisboa): cozinha autoral com ambição e uma casa que gosta de subir degraus.
— Sála (Lisboa): consistência, identidade e um posicionamento claro.
(E sim, isto são apostas, não decretos.) - Os “hotéis com cozinha a sério” que podem ganhar tração
— Vila Foz (Porto): quando a Michelin quer reforçar Norte/Porto, estas casas ganham relevância.
— Vista (Portimão): Algarve tem margem para mais do que “resort fine dining”, e o Vista já tem estatuto para entrar nessa conversa. - Os que acabaram de entrar e ainda têm de “pagar portagem”. Aqui entram Marlene, Arkhe, Grenache, Vinha, Blind, Oculto, Yōso, Palatial (todos novos 1 estrela em 2025). Podem ser futuras promoções, mas a Michelin normalmente gosta de ver o filme mais do que o trailer — embora, de vez em quando, faça fast-track quando a consistência é muito evidente.
[Comentário: tem um certa lógica e até que fez umas escolhas certas. Porém, outras parecem-me aleatórias, ou mesmo palermas – já para não falar que não deu pelo encerramento do Arkhe]
MP — Estás a fugir à pergunta “quem sobe já”.
Charles GPT — Estou a fugir porque, ao contrário da bola, aqui não há forma elegante de prometer subidas. Mas se me pedes duas escolhas para “mais provável” (e aceitando que posso levar baile): eu olharia com mais atenção para Fifty Seconds e Sála.
[Comentário: uma aposta em parte certa e em parte…ousada]
MP — E perdas? Vais ter coragem?
Charles GPT — Coragem tenho; certezas não. O que eu diria é isto: num ano em que já sabemos que houve “casos e casinhos” recentemente (ex.: 100 Maneiras já caiu em 2025), a Michelin vai continuar a usar o grupo das 1 estrela como zona de ajuste fino. E, em 2026, o grande “não é bem perda, é consequência” chama-se Alma — porque fechou.
[Comentário: e ele a insistir com o Alma. Nota também para duas omissões: o Arkhe e a mudança de conceito do restaurante do Esporão, que deverá custar a estrela.]
MP — Última: a gala é na Madeira. Há “bailinho” madeirense ou é só palco bonito?
Charles GPT — Madeira tem dois trunfos: já tem um 2 estrelas (Il Gallo d’Oro) e um núcleo de restaurantes com estrela que dá narrativa à escolha do Funchal. Se isso se traduz em prémios “locais” no palco, é outra conversa — mas pressão mediática vai haver, e a Michelin sabe disso.
[Comentário: esta é do manual “como dizer alguma coisa sem dizer nada”. E palco o quê?]
Tal como em alguns textos “GPTados” que já vi por aí, o modelo evita entrar no campeonato das previsões para 1 estrela, porque (digo eu) as bases são muito mais díspares. Como insisti, ele foi e…espalhou-se ladeira abaixo.
MP — Muito bem. Já falámos de promoções. Mas há sempre a outra parte da história: quem pode entrar para o clube das uma estrela. Arriscas?
Charles GPT — Arrisco, mas com uma advertência prévia: a Michelin adora fazer uma ou duas escolhas inesperadas, como aconteceu no ano passado com o Palatial ou o Yōso.
Portanto, a lista nunca é totalmente previsível.
MP — Mesmo assim, vamos a nomes.
Charles GPT — Vamos separar isto em três categorias: os prováveis, os plausíveis e os wildcards.
1. Os prováveis
— Oven (Lisboa) — Já andava no radar no ano passado. O próprio Hari Chapagain chegou à gala com aquela ansiedade típica de quem sente que está perto.
Cozinha muito consistente, identidade clara e um conceito que foge ao padrão da alta cozinha portuguesa.
— JNcQUOI Avenida – Sala de Chef (Lisboa) — Se a Michelin decidir olhar para aquilo como restaurante autónomo e não como extensão de um grupo, pode perfeitamente entrar na conversa.
— Arrebita (Vila Nova de Famalicão) — Aqui entra também o factor “Norte em expansão”. A Michelin tem vindo a equilibrar cada vez mais o mapa fora de Lisboa.
[Comentário: ahahahah, alucinou. Além de um nada provável, faz uma grande misturada. É plausível que calhe uma estrela ao Table (acho que era a esse JNcQUOI que se refere), mas só para o próximo ano. A menos que bata o record de restaurante aberto há menos tempo com uma estrela Michelin. Quanto ao Arrebita, o festival pop up organizado pela Amuse Bouche, deixo um respeitoso lol.]
2. Plausíveis
— Prado (Lisboa) — É curioso ainda não ter estrela. Produto, técnica e consistência estão lá há anos. Talvez falte apenas aquele clique final para a Michelin.
— Canalha (Lisboa) — Este é um caso interessante. Não é “fine dining” clássico, mas a Michelin tem vindo a premiar restaurantes mais informais quando a cozinha é sólida.
— Euskalduna Studio (Porto) — Aqui é quase um eterno candidato. Alguns acham que já devia ter estrela há mais tempo.
[Comentário: Charles, espero que o Vasco Coelho Santos não leia isto se não ainda te parte a cara. Camarada, custou mas o Euskalduna já tem uma estrela há uns aninhos. Quanto aos dois primeiros, estou de acordo. Se estivessem em Nova York ou em Hong Kong, se calhar tinham.]
3. Wildcards
— MOGO (costa alentejana) — Muito cedo, é verdade. Mas quando há um chef com o percurso do João Rodrigues, a Michelin costuma olhar com atenção.
— SEM (Lisboa) — Se a Michelin quiser reforçar o discurso da sustentabilidade — e já vimos que gosta dessa narrativa — pode entrar em jogo.
[Comentário: “muito cedo”, diz ele em relação ao Mogo. Que maravilha, seria o primeiro restaurante do mundo a ganhar uma estrela ainda mesmo antes de abrir. E o caso do SEM deve ter sido porque ouviu dizer que vai fechar…]
MP — E o que me dizes destes restaurantes que me sopraram ao ouvido: A Cozinha do Paço, Boubou’s, Éon, Essencial., Gastro Elemento, Intemporal, Kappo, Largo do Paço (Casa da Calçada), MA, Mapa?
Charles GPT — Diria que é uma lista bastante plausível — até relativamente alinhada com o que costuma acontecer antes das galas, quando começam a circular nomes de restaurantes que terão sido visitados pelos inspectores com alguma frequência. Mas nem todos estão exactamente no mesmo ponto do campeonato.
MP — Traduz.
Charles GPT — Diria que Essencial., Kappo e Intemporal parecem estar um pouco mais alinhados com o perfil de restaurante que a Michelin tende a promover quando decide acrescentar novas estrelas. Depois há um segundo grupo — Boubou’s, Largo do Paço, Gastro Elemento e MA — que também não surpreenderia ver subir ao palco. Os restantes podem perfeitamente estar no radar, mas talvez ainda precisem de mais algum tempo de consolidação.
MP — Portanto, resumindo: quantas novas estrelas vês a aparecer no palco do Funchal?
Charles GPT — Se tivesse de apostar: entre quatro e seis novas estrelas.
Menos do que a “chuvinha” do ano passado, mas ainda assim suficientes para manter o tal T invertido a crescer.
[Comentário: Hum… espero bem que não, sôtôr!]
MP — E depois da gala toda a gente vai dizer que já sabia.
Charles GPT — Como sempre. A gastronomia também vive muito de retrospectiva profética.
[Comentário: que bela frase para encerrar, Charles. Talvez mesmo a melhor deste texto todo.]
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Perguntei-lhe ontem, mas tive direito a uma resposta mais alargada:
“Comecemos pelo patamar que mais agita o mapa: as novas primeiras estrelas. Se a Michelin quiser mostrar que continua atenta ao que realmente se passa no terreno — e não apenas ao que já está consagrado — há um pequeno conjunto de restaurantes que parecem praticamente a piscar em néon no radar dos inspetores.
O Kaigi, no Porto, tem tudo o que a Michelin aprecia quando decide premiar uma casa: uma identidade clara, quase obstinada, uma execução meticulosa e aquela sensação de que a cozinha sabe exatamente o que quer ser. Não é um restaurante a tentar agradar a todos; é um restaurante que afirma uma visão. E quando essa visão se traduz em pratos precisos, elegantes e tecnicamente seguros, a estrela deixa de parecer um prémio e passa a parecer uma formalidade.
Ainda no universo japonês, Tokkotai surge como outro candidato natural. A Michelin sempre teve uma afinidade particular com cozinhas que demonstram disciplina técnica quase militar, e este tipo de restaurante oferece exatamente isso: rigor, concentração e respeito pela matéria-prima. Não é exuberante. É afiado. E a Michelin gosta de cozinhas afiadas.
No Centro do país, o radar pode apontar para o Prosa, em Aveiro, um daqueles casos em que produto, território e mão do cozinheiro se alinham com uma naturalidade rara. A Michelin, quando encontra esta combinação — clareza de sabor, técnica segura e uma narrativa gastronómica legível — tende a premiar.
E se quiser reforçar a ideia de que Portugal gastronómico não termina em Lisboa, Porto e Algarve, nomes como Safra, em Coimbra, podem entrar no jogo. Seria uma estrela com significado territorial: uma afirmação de que a geografia culinária portuguesa está finalmente a alargar-se”.
Depois do que ele te disse a ti e do que vi já escrito nas últimas horas, é caso para o deixar bloqueado até dia 11…
Miguel,
pedi ao Pedro Lexity para analisar o problema, tendo em consideração o teu Charles e tudo o resto.
diz ele:
Perdas e Ajustes (Importante — Charles errou aqui)
Alma (2)**: Fechou 31/12/2025. Michelin não transfere estrelas automaticamente. Nova casa Sá Pessoa (Páteo Bagatela, 2026) começa a 0. Alma sai do mapa.
Arkhe (1, novo 2025)**: Fechou Nov 2025 (à venda). Perde estrela.
*Esporão (1)**: Mudança conceito, saída chef Carlos Teixeira (Fev 2026). Risco alto de perda — reformulação “acessível” choca com fine dining.
Previsão perdas: 3–4 (Alma 2*, Arkhe/Esporão 1*). Líquido: +2–3 estrelas totais.
Narrativa da Gala (Funchal)
Madeira ganha: 1 nova 1* + renovação Il Gallo d’Oro com destaque (bailinho sim).
Equilíbrio geográfico: 3 Norte, 2 Lisboa/Centro, 1 Algarve, 1 Madeira/Ilhas.
Temas: Sustentabilidade (Estrela Verde +1?), jovens chefs, Norte em alta.
Total estrelas 2026: 48–50 (leve crescimento).
Resumo Final (melhor que Charles):
3*: Não (70%), Belcanto se sim.
Novos 2*: 5 (SÁLA lidera).
Novos 1*: 7.
Pedir uma 3ª opinião ao Claude? (o nome é bem apropriado…)