Garrafas de Niepoort Vintage Port 2024, Palmirinha Loureiro e António Madeira Os Granitos 2023 sobre fundo neutro.
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Niepoort lidera Top 100 de James Suckling. Palmirinha fica em segundo e António Madeira atinge 100 pontos

Niepoort lidera o Top 100 dos vinhos portugueses de James Suckling, mas a pequena Quinta da Palmirinha surpreende no segundo lugar e António Madeira alcança os 100 pontos. Uma lista que também dá protagonismo a produtores menos convencionais.

O Niepoort Vintage Port 2024 foi eleito o melhor vinho português de 2026 pela JamesSuckling.com, a plataforma do influente crítico norte-americano James Suckling, que acaba de divulgar a sua lista anual dos 100 melhores vinhos de Portugal. Mas há outras escolhas que merecem destaque: a segunda posição foi atribuída ao Loureiro 2024 da pequena Quinta da Palmirinha, pioneira da agricultura biodinâmica em Portugal, enquanto António Madeira, produtor do Dão, alcançou a pontuação máxima de 100 pontos com Os Granitos 2023, apesar de ocupar apenas o 12.º lugar do ranking.

Publicada quarta-feira, 14 de Outubro, a lista Top 100 Wines of Portugal 2026 resulta das provas realizadas ao longo dos últimos 12 meses pela equipa da JamesSuckling.com. A selecção reúne 44 vinhos brancos, 39 tintos e 17 fortificados, o número mais elevado de sempre desta última categoria. O Douro, a Bairrada e o Dão dominam as escolhas, embora os autores reconheçam que foram também as regiões onde concentraram a maior parte das suas visitas e provas.

O nome James Suckling tem um peso considerável no mercado internacional do vinho. Norte-americano, de 68 anos, iniciou a carreira em 1981 na revista Wine Spectator, onde trabalhou durante quase três décadas, chegando a editor sénior e responsável pela delegação europeia. Especializou-se, entre outras regiões, em Bordéus, Itália e nos vinhos do Porto. Em 2010 deixou a publicação e lançou a JamesSuckling.com, plataforma dedicada à avaliação e divulgação de vinhos de todo o mundo. Em 2025, a sua equipa avaliou cerca de 45 mil vinhos, utilizando uma escala de 100 pontos cujas classificações têm influência no comércio internacional.

Uma das conclusões do novo relatório, assinado por Jacobo García Andrade, editor sénior da plataforma, é a qualidade excepcional da colheita de 2024 para os vinhos do Porto Vintage. Depois de 2017, foi o primeiro ano a merecer uma declaração generalizada por parte das principais casas produtoras.

Segundo os responsáveis ouvidos pela publicação, as condições climáticas permitiram obter vinhos com fruta mais fresca, taninos menos agressivos e maior elegância, distanciando-se do perfil mais concentrado e pesado de alguns Vintage do passado. Três Portos de 2024 surgem entre os dez primeiros classificados: Niepoort (1.º), Fonseca (3.º) e Quinta do Noval (7.º).

O Niepoort Vintage Port 2024, produzido a partir de vinhas velhas e com uma produção de cerca de 25 mil garrafas, foi escolhido pela combinação de concentração, frescura, equilíbrio e capacidade de envelhecimento. A publicação destaca também a relativa facilidade com que poderá ser apreciado ainda jovem.

Palmirinha: um pioneiro da biodinâmica no segundo lugar

Se a escolha do Niepoort não constitui propriamente uma surpresa, o mesmo não se pode dizer do segundo classificado: o Quinta da Palmirinha Loureiro 2024, um branco produzido em Felgueiras, na região dos Vinhos Verdes, por uma propriedade com cerca de quatro hectares.

A Quinta da Palmirinha tornou-se conhecida pelo trabalho de Fernando Paiva, antigo professor de História que foi um dos pioneiros da viticultura biodinâmica em Portugal, tendo sido o primeiro produtor nacional a obter a certificação Demeter. O projecto mantém-se familiar e é hoje conduzido pelo neto, João Goucho, que assumiu a sua liderança em 2023.

Os vinhos da Palmirinha têm circulado sobretudo através de distribuidores especializados, como Os Goliardos, e de garrafeiras e restaurantes ligados ao universo dos vinhos naturais ou de baixa intervenção, longe dos circuitos comerciais mais convencionais.

Na avaliação da JamesSuckling.com, o Loureiro 2024 distingue-se pela expressão aromática, textura e equilíbrio. A publicação chama ainda a atenção para um pormenor técnico pouco habitual: a utilização de flor de castanheiro como antioxidante natural, em alternativa à adição de sulfuroso, prática desenvolvida por Fernando Paiva.

A presença de um produtor desta dimensão no segundo lugar ajuda a explicar o título escolhido para o relatório, Breaking the Mold – expressão inglesa que significa “fugir ao convencional”, uma referência à diversidade de abordagens que está a enriquecer o panorama dos vinhos portugueses.

António Madeira: 100 pontos, mas apenas o 12.º lugar

No Dão, há outro caso que merece particular atenção: o António Madeira Os Granitos 2023, um tinto produzido a partir de vinhas velhas, em solos graníticos de altitude, no sopé da Serra da Estrela.

O vinho recebeu 100 pontos, a classificação máxima da escala utilizada pela JamesSuckling.com. Segundo a Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão), foi a primeira vez que um vinho português não fortificado alcançou esta pontuação na plataforma do crítico norte-americano. A distinção já tinha sido anteriormente atribuída a alguns vinhos do Porto, mas nunca a um tinto ou branco português não fortificado.

Não deixa de ter alguma ironia que a mesma CVR Dão que agora se congratula com esta conquista tenha, por diversas vezes, reprovado vinhos de António Madeira, impedindo-os de ostentar a denominação de origem Dão nos rótulos. Sobretudo brancos e rosés, que esbarravam nos critérios de cor e limpidez das provas de certificação, como contei em 2021 num artigo do Público Vinhos chumbados: afectos, chamada de atenção, provocação ou marketing?, publicado também no Mesa Marcada.

De origem francesa e ascendência portuguesa, António Madeira iniciou em 2010 um trabalho de identificação e recuperação de pequenas parcelas de vinhas velhas no Dão, apostando na viticultura biológica e biodinâmica e numa abordagem de intervenção reduzida na adega. Os Granitos 2023 resulta de uma mistura de mais de 20 castas tradicionais, cultivadas em vinhas antigas.

Mas há uma pergunta inevitável: como é que um vinho com 100 pontos aparece apenas em 12.º lugar?

A resposta está nos critérios utilizados para construir o ranking. A lista não corresponde a uma ordenação automática das notas de prova. A equipa considera igualmente factores como o preço, a quantidade produzida, a disponibilidade comercial e aquilo a que chama o factor wow, ou capacidade de surpreender.

Para a escolha do vinho do ano, por exemplo, a JamesSuckling.com estabelece uma produção superior a 3000 garrafas e um preço inferior a 200 dólares. Estes requisitos não são, contudo, uma condição para a entrada no Top 100. O próprio Cortex, da Quinta da Carolina, que surge em oitavo lugar, teve uma produção de apenas 2600 garrafas.

No caso de Os Granitos 2023, a disponibilidade comercial é também limitada, mas o relatório não esclarece quais os factores específicos que determinaram a sua colocação em 12.º lugar, apesar da pontuação máxima.

Entre grandes casas e pequenos produtores

Também merece destaque o quarto lugar do Domínio do Açor Vila Romana Branco 2024, produzido em Carregal do Sal, no Dão, com enologia de Luís Lopes e João Costa. Embora seja uma das referências mais acessíveis da casa, custa cerca de 26 euros em Portugal, longe, portanto, da ideia de um vinho barato. Jacobo García Andrade valoriza sobretudo o facto de receber os mesmos cuidados na vinha e na adega que os vinhos de topo do produtor, alguns dos quais ultrapassam os 50 euros e têm produções de apenas algumas centenas de garrafas. O Vila Romana, pelo contrário, tem uma produção superior a quatro mil garrafas, o que facilita a sua disponibilidade comercial.

O Cortex, da Quinta da Carolina, é outro dos vinhos que fogem ao convencional. Trata-se de um tinto do Douro sem indicação de colheita, produzido a partir de um lote de vinhos de cinco anos diferentes – 2015, 2016, 2017, 2018 e 2020. Uma abordagem pouco habitual, que nasceu da decisão de voltar a colocar em barrica vinhos que apresentavam maior turbidez no momento do engarrafamento. O resultado é um lote multicolheita desenvolvido por Luís Pedro Cândido da Silva, também director técnico da Niepoort.

Entre outros nomes destacados encontram-se Filipa Pato e William Wouters, Luís Seabra, Arribas Wine Company e V. Puro. Produtores com diferentes dimensões, estilos e filosofias de produção, que partilham o protagonismo com algumas das casas mais prestigiadas do vinho português.

A lista contempla ainda sete vinhos da Madeira e de Porto Santo, incluindo fortificados e vinhos tranquilos. O Barbeito Sercial Vinha da Lage Colheita 2017 aparece em quinto lugar, enquanto o Crosta Calcária dos Profetas 2024, do projecto de António Maçanita e Nuno Faria em Porto Santo, fecha os dez primeiros.

O relatório é assinado por Jacobo García Andrade, crítico espanhol, que desde 2024 é editor sénior da JamesSuckling.com, responsável pela cobertura de Portugal e Espanha. Antes, trabalhou na importadora e distribuidora espanhola Alma Vinos Únicos, conhecida pela aposta em pequenos produtores e vinhos de forte identidade regional. Talvez esteja nele a explicação principal para este “Breaking the mold”. No texto que acompanha o ranking, Jacobo destaca precisamente a crescente diversidade de abordagens à viticultura portuguesa, das práticas biodinâmicas à recuperação de vinhas velhas e castas tradicionais.

É também uma demonstração de como a JamesSuckling.com, apesar de continuar associada ao nome de um crítico com um longo percurso na avaliação dos grandes vinhos clássicos, integra hoje uma equipa com diferentes experiências e sensibilidades.

Convém, por fim, esclarecer que este Top 100 não resulta de uma competição entre todos os vinhos portugueses, mas de uma selecção editorial a partir dos vinhos provados pela equipa durante o último ano. Também não é uma classificação mundial, na qual os vinhos nacionais sejam comparados directamente com os de outros países.

Os 20 primeiros classificados

  1. Niepoort Vintage Port 2024 – Douro
  2. Palmirinha Loureiro 2024 – Vinhos Verdes
  3. Fonseca Vintage Port 2024 – Douro
  4. Domínio do Açor Via Romana Branco 2024 – Dão
  5. Barbeito Sercial Vinha da Lage Cask 17D Colheita 2017 – Madeira
  6. Filipa Pato & William Wouters Nossa Calcário Bical Branco 2025 – Bairrada
  7. Quinta do Noval Vintage Port 2024 – Douro
  8. Quinta da Carolina Cortex – Portugal
  9. Luís Seabra Xisto Cru Branco 2024 – Douro
  10. Vinho do P. Santo Crosta Calcária dos Profetas 2024 – Madeira/Porto Santo
  11. Susana Esteban Sidecar 2024 – Alentejo, Serra de São Mamede
  12. António Madeira Os Granitos 2023 – Dão
  13. Quinta das Bágeiras Garrafeira Baga 2021 – Bairrada
  14. Viticoltores do Granito Granito Tinto 2024 – Portugal
  15. Quinta de Baixo Lote D 2023 – Bairrada
  16. Mariana Salvador Revela 2024 – Dão
  17. Cockburn’s Vintage Port 2024 – Douro
  18. Pormenor Trilho Branco 2023 – Douro
  19. Transmission Branco 2023 – Bairrada
  20. Arribas Wine Company Belfo 2024 – Portugal

A lista completa pode ser consultada no relatório Top 100 Wines of Portugal 2026: Breaking the Mold, da JamesSuckling.com.


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Co-autor do Mesa Marcada. Escreve sobre gastronomia no Público, Revista de Vinhos (crítica gastronómica) e em títulos internacionais como Cook Inc (Itália), Eater.com (EUA) e Gula (Brasil). É autor do livro “Lisboa à Mesa - Guia onde Comer. Onde Comprar”, com edições em português, inglês e espanhol (na Planeta).

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