Quatro Negronis apresentados numa tábua de madeira para uma degustação de cocktails.
Do outro lado do bar

Cocktail flights: a nova forma de beber menos e provar mais

Em vez de escolher apenas um cocktail, porque não provar quatro ou cinco em pequenas doses? Dos menus de degustação aos flights de Negronis e Martinis, João Roseiro explora uma tendência que começa a ganhar espaço nos bares portugueses.

A experiência num cocktail bar foi sempre relativamente simples: escolher uma bebida, terminá-la e decidir o que fazer a seguir. Um segundo cocktail semelhante? Um clássico? Algo mais forte? Hoje, sobretudo nos bares internacionais mais atentos à evolução do consumidor, essa lógica começa a mudar. Em vez de uma única bebida de cada vez, há cada vez mais propostas para provar várias. Chamam-lhes cocktail flights, tasting menus ou experiências de degustação, mas a ideia é praticamente a mesma: pequenas doses, mais variedade e uma forma diferente de descobrir o trabalho de um bar.

O conceito não é novo, mas ganhou uma dimensão particularmente interessante nos últimos anos. A tendência dos mini cocktails tem crescido em vários mercados internacionais, com alguns bares a construírem verdadeiras experiências de degustação em torno de pequenas doses. O Esencia by Sips, em Barcelona, por exemplo, organiza a sua experiência através de nove pequenos cocktails divididos em sequências conceptuais, enquanto em Paris o De Vie trabalha um menu sazonal de cinco etapas. Em Londres, o fenómeno também se tornou mais visível, com bares como o Archive & Myth a apresentarem flights compostos por pequenos cocktails escolhidos pelo cliente.

A lógica faz sentido num momento em que o consumidor quer descobrir mais, mas não necessariamente beber mais. Um cocktail flight permite experimentar diferentes perfis aromáticos, técnicas, bases alcoólicas e estilos de serviço numa única visita. Na maioria dos casos, estas degustações são compostas por quatro a seis cocktails em formato reduzido, muitas vezes com cerca de 30 ml cada. Feitas as contas, cinco cocktails de 30 ml representam apenas 150 ml de líquido, uma quantidade que, dependendo da graduação e da composição das receitas, pode aproximar-se do consumo habitual de dois cocktails convencionais.

Mas a matemática é apenas uma parte da história. O verdadeiro interesse está na diversidade. Num único flight é possível passar de um cocktail cítrico e refrescante para uma proposta mais herbal, seguir para algo tropical, experimentar um perfil mais seco ou terminar com uma bebida mais intensa e alcoólica. Em vez de obrigar o cliente a comprometer-se com uma única escolha durante 20 ou 30 minutos, o bar consegue contar uma história através de várias pequenas experiências. É, de certa forma, uma aproximação ao modelo dos menus de degustação da gastronomia, aplicado ao universo líquido.

Portugal, aos poucos, está a entrar nessa conversa. Um dos exemplos mais claros é o Onda Cocktail Room, que apresenta uma Tasting Experience composta por cinco mini cocktails seleccionados pela equipa e pensados para criar uma progressão de sabores, dos perfis mais leves e luminosos aos mais ricos e intensos. A experiência é assumidamente uma alternativa para quem quer explorar o bar sem ter de escolher apenas um cocktail.

Onda Cocktail Room, em Lisboa (R Damasceno 45)

Segundo Joana Jaeger, uma das proprietárias, a ideia surgiu da observação dos próprios clientes. “Turistas voltavam vários dias seguidos para provar mais cocktails, e nós percebemos que as pessoas queriam provar mais, mas não tinham tempo ou dinheiro para experimentar cinco cocktails.” A solução foi criar um menu de degustação, com um preço de 38 € por pessoa, que permite experimentar cinco propostas em doses reduzidas. “Funciona especialmente bem para clientes a solo, que provam cinco cocktails sem ficarem embriagados. Não é um flight de cocktails, funciona mesmo como um menu de degustação.”

A experiência segue uma sequência definida pela equipa, começando com uma bebida mais leve e refrescante, normalmente um Spritz, e avançando progressivamente em intensidade. O quarto momento é reservado a um cocktail mais savoury, à maneira de um prato principal, e o último a uma proposta ligeiramente mais doce, como sobremesa. Cada etapa utiliza um destilado diferente, habitualmente gin, whiskey, tequila ou mezcal, vodka e rum.

“Nós guiamos a progressão de sabores, mas trabalhamos à volta das alergias, exactamente como num menu de degustação de comida”, explica Joana. Os cocktails são servidos às cegas, criando também uma oportunidade para explicar o processo de criação de cada receita e personalizar o serviço. E acrescenta que, quando os clientes vêm em casal, frequentemente acabam por ficar para experimentar mais um ou dois cocktails.

Também o 18.68 Cocktail Boutique representa esta nova forma de pensar a experiência de bar em Lisboa. O espaço, ligado ao Bairro Alto Hotel e actualmente orientado para uma abordagem de aperitivo e cocktail boutique, trabalha uma carta que valoriza diferentes famílias e estilos de cocktails, dos Negronis aos Martinis, passando por clássicos e interpretações contemporâneas.

É precisamente neste tipo de conceito, onde a descoberta e a variedade são parte central da proposta, que os formatos de degustação encontram terreno natural para crescer, com a opção de um flight de Dry Martinis (Citrus 50/50, Mediterranean, Raspberry e Oyster), de 70 ml cada, pelo valor de 28 €, e um flight de Negronis (Passion Fruit, Coconut, Fig Leaf e Coffee), de 60 ml cada, pelo mesmo valor.

Todos eles estão também disponíveis em tamanho normal, bem como em garrafas de 500 ml para levar para casa, pelo valor de 52 €.

18.68 Cocktail Boutique. Foto: Tiago Maya

Fora de Lisboa, começam também a surgir exemplos interessantes em Portugal. No Porto, a SEDE apresenta diferentes cocktail flights no seu menu, incluindo um Time Travel Flight de três cocktails, pensado para atravessar os capítulos de passado, presente e futuro, e um House Classics Flight com três mini cocktails.

O crescimento deste formato acompanha uma transformação mais ampla no consumo de bebidas alcoólicas. Beber menos deixou de significar necessariamente abdicar da experiência. Pelo contrário: para muitos consumidores, a moderação está agora associada a beber com mais curiosidade, experimentar mais sabores e prolongar a experiência sem acumular necessariamente o mesmo consumo alcoólico de uma sequência de cocktails completos.

SEDE, Porto (Rua de José Falcão 199). Foto: Tiago Maya

Há ainda uma vantagem evidente para os próprios bares. Um flight permite mostrar mais do que a equipa sabe fazer. Um cliente que normalmente pediria apenas um ou dois cocktails pode, numa única experiência, conhecer cinco receitas, perceber a identidade da carta e descobrir estilos que provavelmente nunca escolheria sozinho. Para o bartender, é também uma oportunidade de construir uma narrativa, criar uma progressão de sabores e controlar melhor o percurso da experiência.

É provável que os cocktail flights não substituam a carta tradicional. Nem devem. Continuará a haver quem queira sentar-se ao balcão e pedir apenas um Martini, um Daiquiri ou um cocktail de assinatura. Mas a degustação em pequenas doses responde a um consumidor diferente — ou talvez ao mesmo consumidor, numa ocasião diferente — que quer provar mais sem necessariamente beber mais.

No fundo, a ideia é simples: se um menu de degustação permite conhecer melhor uma cozinha através de várias pequenas experiências, porque não aplicar a mesma lógica aos cocktails? Portugal está a testar esse caminho. E, num país onde os cocktail bars continuam a multiplicar-se e a elevar o nível da oferta, é possível que beber menos e provar mais venha a ser uma das próximas formas de beber melhor.

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