Três cocktails Spritz, incluindo versões Hugo, Limoncello e Aperol, num bar junto a uma piscina ao final da tarde.
Do outro lado do bar

Porque é que o Spritz já não é apenas um Aperol Spritz?

Do Hugo ao Limoncello, o Spritz deixou de ser uma receita para se tornar numa categoria cada vez mais presente nas cartas dos bares.

Durante anos, pedir um Spritz em Portugal era, na prática, pedir um Aperol Spritz. Hoje, a realidade é diferente. Das cartas dos bares de hotel aos wine bars, passando pelos cocktail bars de autor, o Spritz deixou de ser uma receita para assumir-se como uma categoria própria. Há Spritz de limoncello, de bergamota, de flor de sabugueiro, de amaro, de vermute, de vinho do Porto branco e até versões sem álcool. O formato conquistou espaço e dificilmente voltará atrás.

A explicação é simples. O consumidor procura bebidas mais leves, refrescantes e com menor teor alcoólico, sem abdicar da complexidade aromática. O Spritz responde precisamente a essa procura. Servido num copo grande, carregado de gelo, normalmente composto por um aperitivo, um espumante (como um Prosecco) e água gaseificada, resulta numa bebida longa, fresca, ideal para tardes quentes, finais de dia ou para acompanhar uma refeição.

A origem do Spritz remonta ao século XIX, durante o domínio do Império Austro-Húngaro sobre parte da região do Véneto, em Itália. Os soldados austríacos consideravam os vinhos locais demasiado intensos e começaram a diluí-los com água. O gesto ficou conhecido como spritzen — “borrifar” em alemão — dando origem ao nome Spritz. Décadas mais tarde, com a popularização dos aperitivos italianos como Aperol, Select e Campari, juntaram-se as bolhas do prosecco e a água com gás, nascendo o cocktail que hoje conhecemos.

Se durante muitos anos o Aperol Spritz monopolizou esta categoria, atualmente o mercado mostra sinais claros de diversificação. O Hugo Spritz, preparado com licor de flor de sabugueiro, prosecco, hortelã e lima, tornou-se uma das alternativas mais procuradas. O Limoncello Spritz continua igualmente em crescimento, oferecendo um perfil mais cítrico e descontraído. Há ainda propostas com Italicus, Cynar, Suze, vermutes brancos, amaros ou bitters artesanais, permitindo aos bartenders explorar novos equilíbrios entre amargor, acidez, doçura e frescura.

Portugal não ficou à margem desta tendência. Embora não existam estatísticas nacionais que quantifiquem o peso dos Spritz nas vendas dos bares durante os meses de verão, vários profissionais do setor reconhecem que estas bebidas figuram entre os cocktails mais pedidos entre maio e setembro. André Ferreira Costa, Head Bartender dos bares do Hotel Ritz Four Seasons em Lisboa diz: “Na realidade do hotel Ritz os Spritzs estão cada vez mais na moda pois são cocktails low abv e faceis de beber, ou seja, facilmente bebes 2 ou 3 enquanto por exemplo o Negroni  bebes apenas um. Sinto também que as pessoas já conhecem a bebida e pedem muito mais as variantes como o Hugo Spritz, Limoncello Spritz, Campari Spritz  e não optam logo pelo óbvio. A crescente e procura é tanta que tivemos mesmo para criar uma carta só nesta categoria mas por questões de timings, preparação e apresentação não foi possivel avançar”

Já para Tiago Santos, Diretor de Mixologia na Highgate Portugal (que integra unidades como o Palácio do Governador em Lisboa, ou o Marriott na Herdade dos Salgados, entre outros), “O tradicional continua a ser o Spritz de eleição. Conquistou um lugar que durante muito tempo não teve oposição. Contudo, o sabor ligeiramente amargo a laranja abriu a porta a outras combinações, como Limoncello, ou até o famoso Hugo Spritz, feito com licor de flor de sabugueiro. Estes dois penso serem os maiores rivais, digamos assim, do clássico. No contexto Highgate Portugal, durante o ano de 2025, analisamos os 10 cocktails mais vendidos de algumas unidades, e os Spritz foram dos mais comuns entre os vários menus. Isto diz-nos que a categoria de cocktails leves, com cor, e com gás, continuam a ser o tipo de bebidas que as pessoas procuram. Sabores conhecidos, que não falham”. 

  • André Ferreira Costa prepara um cocktail atrás do balcão do bar do Four Seasons Hotel Ritz Lisbon.
  • Tiago Santos, Director de Mixologia da Highgate Portugal, fotografado junto a um bar.

A nível internacional, estudos recentes apontam para um crescimento consistente da categoria, com alguns grandes operadores a registarem os Spritz como responsáveis por cerca de 45% do volume de cocktails vendidos durante os meses mais quentes, impulsionados sobretudo pelo Aperol Spritz, Hugo Spritz e Limoncello Spritz.

O sucesso do Spritz vai além da sazonalidade. A sua versatilidade permite adaptá-lo às tendências atuais de consumo, onde o equilíbrio entre sabor, moderação alcoólica e ocasião de consumo ganha cada vez mais relevância. É uma bebida que funciona ao almoço, no aperitivo ou mesmo como primeiro cocktail da noite, acompanhando o crescimento da procura por opções de baixo teor alcoólico e por experiências mais descontraídas.

Para os bares, esta evolução representa também uma oportunidade criativa. A estrutura do Spritz é suficientemente simples para permitir inúmeras interpretações, valorizando ingredientes locais, licores artesanais, espumantes portugueses ou até fortificados nacionais. Não é por acaso que começam a surgir versões com Moscatel de Setúbal, vinho do Porto branco, licor de medronho ou infusões botânicas produzidas em Portugal.

Mais do que uma tendência passageira, o Spritz consolidou-se como um novo estilo de consumo. A sua leveza responde às exigências de um público que procura beber melhor, durante mais tempo e com maior frescura. O Aperol continuará, provavelmente, a ser a principal porta de entrada para esta categoria, mas o futuro pertence à diversidade. Hoje, pedir “um Spritz” já não significa pedir sempre a mesma bebida.

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