Restaurantes

Mesa Marcada no Las Dos Manos, o novo restaurante de Kiko Martins

Após um mês de abertura silenciosa, Kiko Martins está a mostrar à Comunicação Social o seu novo restaurante Las Dos Manos, situado na rua de São Pedro de Alcântara, célebre miradouro de Lisboa, limítrofe ao Bairro Alto. Trata-se de uma curiosa e original fusão de cozinha mexicana com japonesa, num espaço dominado por dois balcões que totalizam 16 lugares – há mais 22 nas mesas –, como se duplicasse o conceito da sua movimentadíssima A Cevicheria, mais voltada para a cozinha peruana, localizada umas poucas centenas de metros acima, no Príncipe Real. Os restaurantes de Kiko Martins têm em comum a felicidade da decoração, da autoria do seu irmão António Martins, e o Las Dos Manos não é excepção, com azulejos coloridos a cobrir as paredes (onde figura a famosa artista plástica Frida Khalo a encarar uma anónima gueixa japonesa), cactos centro-americanos misturados com barris de saké com caracteres nipónicos, garrafas de tequila e mezcal no balcão/zona de espera da entrada e por aí fora. Uma óptima iluminação e animada música ambiente – num nível de decibéis civilizado – reforçam a alegria da casa, que mesmo não aceitando reservas tem estado quase sempre cheia, sobretudo por muitos turistas estrangeiros que por ali passam.

Kiko Martins tem estado presente na cozinha neste periodo de abertura

Não sabia o que esperar desta inusitada proposta geogastronómica quando Kiko Martins me convidou a sentar numa confortável cadeira alta no espaçoso balcão que limita a cozinha dos “quentes”, onde se avistam tortillas a cozer nas frigideiras redondas, uma grelha japonesa robata ou um espeto vertical com secretos de porco preto sobrepostos encimados por um ananás. É o próprio chefe que nestes tempos de abertura está em contacto com os clientes, quase sempre falando em inglês, zelando pela operação da cozinha. Explicou-me que iria servir o menu-degustação (cinco pratos e uma sobremesa, custa 66,70 €, bem mais em conta do que os pratos isoladamente) e que a ideia de fundir duas cozinhas tão distantes não tinha surgido logo. De facto, começou por pensar num mexicano de bom nível, mas de repente começou a verificar que certas técnicas japonesas faziam sentido, aceitou a intrusão e foi por aí, embora não se lembrasse de nenhum restaurante nos muitos países que já percorreu que praticasse tamanha ousadia. O mais parecido seria a fusão que existe no Peru, onde os emigrantes japoneses influenciaram fortemente a cozinha local.

A iluminação e o colorido marcam o ambiente

Logo no couvert a fusão manifestou-se através de totopos (das poucas coisas que compram já feitas, garantiu-me Kiko Martins) com guacamole e um queijo branco fundido e ainda uns belíssimos feijões de soja edamame, cozidos na perfeição ainda na vagem, que com um frouxo apertão dos dedos se projectavam mais facilmente que tremoços. Os cocktails são aposta da casa e um Las Dos Manos Sour (tequila branca, Triple Sec e clara de ovo, 13,60 €), que pretende ter o êxito que o Pisco Sour tem n’A Cevicheria, acompanhou este início. Veio ainda um amuse-bouche de tártaro de salmão, talvez um pouco salgado de mais.

Couvert, tártaro de salmão, aguachile de lula e polvo, aguachile de carabineiro

Os aguachiles são outro ponto forte da casa, numa clara alternativa mexicana aos ceviches, onde a presença de pepino é frequente. Veio um de lula e polvo (22,60 €), a primeira picada, o segundo em rodelas de boa cozedura, com puré de beringela, kimchi e molho de lima, bastante agradável, seguido por um outro, magnífico, de carabineiro e aipo bola em puré (38,30 €, com um toque de avelã que o elevava às alturas, pimento, molho de lima e dispensáveis algas codium e wakame que arredei de imediato para a borda do prato. Não faziam falta nenhuma, o carabineiro já me dava todo o “sabor a mar” de que precisava.

Os cocktails à base de tequila e mezcal podem ser apreciados no bar/zona de espera

Kiko Martins informou-me que as tostadas são uma maneira de os mexicanos aproveitarem as tortillas que sobram para o dia seguinte, sendo geralmente fritas. Aqui são colocadas no forno até ficarem estaladiças e há várias opções na lista. A mim coube-me a de barriga de atum (14.30 €, acrescentando-se caviar oscietra passa para 33,60 €), num tártaro com lima e kizami wasabi. Gostei moderadamente, pareceu-me que lhe faltava algum sainete. Já o prato seguinte encheu-me as medidas. Kiko Martins diz que é o que mais se orgulha, já que se trata de uma versão própria e muito testada de um clássico: o taco al pastor. No Las Dos Manos sai do espeto vertical já mencionado, utilizando tortilla caseira de delicioso sabor a milho, com salsa criolla e chicharrón (torresmo), num conjunto de equilíbrio notável, entre o doce e a acidez do ananás, o picante dos temperos, a gordura do porco preto, a cebola roxa. Até pelo preço, apenas 7,30 €, vale a pena ir lá para apreciá-lo a qualquer hora do dia, já que restaurante está sempre aberto entre o meio-dia e a meia-noite, quem sabe se acompanhado por outro dos cocktails que provei, o Sakurita (tequila reposado, Triple Sec e yuzu, 13,80 €).

Tostada de barriga de atum e taco al pastor

Para concluir os cinco pratos do menu de degustação, faltavam as “carnes”, que merecem um capítulo à parte na lista (abrangendo também aguachiles, tacos, tostadas e quesadillas) que inclui um luxuoso yakitori de kobe A5 (250g) por 147,80 €. Para mim veio um tonkatsu de barriga de leitão, com a pele coberta de panko e arroz jasmim yakimeshi, shitake e ovo de codorniz (29,80 €, na fotografia de abertura). Muito bom, com a carne – que passa a noite no forno – suculenta e saborosa a conjugar-se lindamente com um arroz de múltiplos temperos. Por fim, uma sobremesa bem simpática e original, de churros com doce de leite, milho, granizado de lima e tequila (8,40 €).

Cada vez acho mais inapropriado identificar as cozinhas criativas pelas “nacionalidades” e neste jantar não cuidei de saber o que era típico do México ou do Japão, países que de resto não conheço, o que estava de acordo com os cânones ou não. Acho é que Kiko Martins nos apresenta mais um óptimo restaurante, bem diferente de tudo o que existe na cidade, de onde se sai alegre e bem disposto, com vontade de voltar para provar mais pratos. Venham mais projectos como este.

Las Dos Manos

Morada: Rua S. Pedro de Alcântara, nº59, Lisboa

Tel.: 215 897 269

E-mail: ladosmanos@comeromundo.pt

Site: www.ladosmanos.pt (brevemente)

Horário: aberto todos os dias das 12h às 24h

Fotografias: Cristina Gomes

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

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