Num mundo dos vinhos que coloca demasiado ênfase nas pontuações e em descrições técnicas, é bom encontrar um grupo de produtores centrado numa abordagem diferente. O Passevinho — colectivo de produtores independentes que desde 2016 celebra o vinho como património humano e natural — realiza nos próximos dias 9 e 10 de Novembro dois encontros dedicados à reflexão sobre o solo e à celebração do vinho que dele nasce. O primeiro, aberto ao público em geral (basta aparecer); o segundo, para profissionais do sector, mediante inscrição prévia.
Domingo, 9 de Novembro: “Antes do vinho, há a terra”
A tarde de domingo divide-se em dois momentos: das 14h30 às 16h00, uma conversa sobre a relação entre viticultura e terreno; das 16h00 às 19h00, uma prova aberta. A proposta é simples mas essencial: antes de se falar de vinhos, olhar para o que os antecede — essa camada viva que sustenta a vinha e molda o seu carácter.
“Queremos recentrar o debate no essencial: a terra e quem a trabalha. Não se trata de um conceito romântico, mas de um organismo vivo, complexo, que precisa de ser compreendido e respeitado. O vinho começa muito antes da adega, começa no chão que pisamos”, afirma o colectivo.
O Passevinho é dinamizado pelos “Culpados do Costume”, Tiago Teles (COZ’s), António Marques da Cruz (COZ’s e Serradinha), com o apoio “braçal” de um grupo de pessoas – entre elas Joana Cartaxo (COZ’s e Serradinha) e Joana Vivas (Serra da Oca) — produtores que partilham uma visão assente no respeito pela terra e numa forma humanista de estar no mundo do vinho . A tertúlia procurará reflectir sobre o papel do produtor como intérprete da terra e sobre a importância de observar e escutar a vida do solo como ponto de partida para uma viticultura consciente e sustentável.
Os produtores envolvidos nasceram todos (ou quase todos) de uma incubadora chamada Goliardos, importadora e distribuidora com um perfil muito próprio (sobretudo, na sua sua vertente de curadoria) que os representa e que há anos – muito antes da efervescência por cá da onda dos vinhos naturais – trabalha na promoção de vinhos, que mais do que naturais gostam de apelidar de “autênticos”. Contudo, este não é um evento dos Goliardos, embora Sílvia Bastos e Nadir Bensmail participem com os seus vinhos Tomaralmá, que produzem na zona de Tomar.
Nesse domingo, após o debate, o público é convidado a participar numa prova aberta, onde poderá conhecer diferentes vinhos e produtores. Um momento de partilha directa, entre copos e conversas, para descobrir, conviver e trocar conhecimentos.
Segunda, 10 de Novembro: Prova para Profissionais — “Mais do que provar, vamos conversar vinhos”
No dia seguinte, o Passevinho propõe um encontro para profissionais do sector com um formato diferente do habitual. No Restaurante Prado, das 15h00 às 19h00, a prova será construída em blocos temáticos, onde cada conjunto de vinhos partilha um fio condutor — seja o estilo, a casta, o solo ou o espírito que os une. Em vez de uma sequência linear de degustação, o programa desenha-se como uma viagem livre pelo território e pelas ideias que moldam o vinho contemporâneo em Portugal.
“Mais do que classificar, queremos pensar o vinho. Mais do que comparar, queremos escutar o que o solo, as castas e as pessoas têm para dizer”, explicam os organizadores. O formato — com mesas de conversa e prova conjunta — pretende criar um espaço de partilha, mais uma vez sem entrar na formalidade técnica, ou de notas de prova rebuscadas.
Salta Muros: as pontes simbólicas desta edição
Este ano, os vinhos de Catarina e David, do projecto Salta Muros, assumem um papel especialmente simbólico na programação. Depois do incêndio que destruiu as suas vinhas, os seus vinhos tornam-se literalmente os “salta muros” desta prova — pontes entre temas, entre cores, entre mundos. Uma metáfora poderosa sobre resiliência, recomeço e a capacidade do vinho de transcender tragédias.
Os blocos temáticos: uma viagem pelo vinho contemporâneo português
Entre pét-nats, brancos desalinhados, encruzados cruzados, macerações, rosés e tintos mestiços, o programa inclui alguns temas ainda a ter em conta:
Pet Nat — Casa Pratas (Pet Nat 2024), Humus (Pet Nat Rosé 2024), Flui (Pet Nat 2024). Os espumantes naturais que conquistaram uma (nova) geração.
Os desalinhados — Salta Muros (Branco 2023, lote de Malvasia, Síria, Rabo de Ovelha, Fernão Pires e outras). Vinhos que desafiam convenções.
Vital-idade — Safado (GTI branco 2023), COZ’s (Vp-Vital 2023). A energia vital que anima os vinhos mais vibrantes.
A versatilidade do Fernão Pil — Um bloco inteiro dedicado a explorar as múltiplas faces desta casta tão portuguesa: Tomaralmá (Volt’Aire branco 2023, Fernão Pires 100%), Casa Pratas (Vale d’água 2023, Fernão Pires, Alicante Branco, Tamarez). Ainda, Las Vedras (Pêro Negro 2021, Fernão Pires e Malvasia-Rei), Serra Oca (Branco 2023, Fernão Pires 65% e Arinto 35% macerados), Tomaralmá (Sultanas 2023, uvas em sobre-maturação de Fernão Pires de Ourém e outras).
Duelo de cruzados: Encruzados de granito e de argilo-calcário — António Madeira (A Liberdade 2023, Encruzado, Cerceal, Bical), Serradinha (Encruzado e Arinto 2023, Encruzado 85% Arinto 15%). Uma comparação fascinante entre terroirs.
Maceração: a vida em laranja — Flui (Macerado 2023), Tiago Teles (Raiz 2023). Os brancos que ganharam cor e estrutura através do contacto com as películas.
Salto para Tintos: La vie en rose — Salta Muros (Rosé 2023, Rufete, Bastardo, Marufo e outras), Safado (Rosé 2022, 100% Tinta Roriz de uma vinha de 20 anos), Humus (Rosé 2023). A transição entre mundos.
Touriga baralhado! — Serradinha (Espumante Rosé 2022, 100% Touriga Nacional de vinhas de 1998), Humus (Palheto 2022), António Madeira (Liberdade tinto 2022, 80% Touriga Nacional de vinhas com 20 anos e 20% de vinhas velhas misturadas). A Touriga em todas as suas formas.
Grand Château Português (uma piada com a tradução literal de Castelão que ironiza também com os grandes châteaux bordaleses, que representam um mundo oposto ao destes produtores) — COZ’s (Pop 2023 Castelão), Serra Oca (Castelão 2020), Serradinha (Castelão 2017), Casa Pratas (Vale d’água 2023 Castelão e Trincadeira), Las Vedras (Pêro Negro 2021 Castelão e Tinta Miúda). Uma celebração da casta mais portuguesa de todas.
Os vinhos mestiços — Salta Muros (Tinto 2021, 90% de tintas Rufete, Bastardo, Marufo e outras + Malvasia, Síria e Rabo de Ovelha), Tomaralmá (Amalgama 2021, Alfrocheiro, Trincadeira, Alicante, Tinto cão, Touriga Franca, Baga, Tinta miúda), Las Vedras (Limo 2022, Castelão, Alicante Bouchet, Touriga Nacional, Merlot, Cabernet-Sauvignon). Os lotes improváveis que funcionam.
Baga em boa companhia — COZ’s (Vm Castelão + Baga 2022), Tiago Teles (Gilda 2023, Alfrocheiro 75% Baga 25%), António Madeira (A Palheira 2022, Baga e outras), Serradinha (Baga e outras 2012 Magnum). A Baga como nunca a viu.
Produtores participantes incluem António Madeira, COZ’s, Serra Oca, Humus, Casa Pratas, Salta Muros, Tomaralmá, Las Vedras, Flui, Serradinha, Tiago Teles e Emanuel Frutuoso, entre outros.
Informações práticas
Prova Aberta (Domingo, 9 de Novembro)
Local: Restaurante Padaria do Povo | Rua Luís Derouet, Campo de Ourique, Lisboa
Horário: 14h30 – 19h00
Entrada livre (sem necessidade de inscrição)
Prova para Profissionais (Segunda, 10 de Novembro)
Local: Restaurante Prado | Travessa das Pedras Negras 2, 1100-404 Lisboa
Horário: 15h00 – 19h00
Formato: Conversas temáticas entre produtores com prova conjunta de vinhos
Destinatários: Profissionais do sector do vinho, restauração e jornalistas
Inscrição obrigatória: passevinho@gmail.com
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