Porto Lado B: restaurantes, equipas, pratos e salas da 2.ª parte do guia
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PORTO Lado B: 30 restaurantes fora do roteiro habitual – 2.ª parte

Na 2.ª parte do PORTO Lado B, Sara Roseira apresenta mais 13 restaurantes, do centro para fora da Baixa, completando uma selecção de 30 restaurantes fora do roteiro habitual.

Do alto dos meus 38 anos, posso afirmar que nunca houve guia de gastronomia que eu não criticasse ou prémios da mesma área a que tivesse assistido com menos do que se possa considerar fervor. Inúmeras foram as vezes que eu disse, indignada, “mas por que raio não ganhou antes o restaurante Y?”, “estes prémios são só para Lisboa?” ou “os critérios deviam ser transparentes, porra!” (não terão sido exactamente estas as interjeições).

Assim, quando o Miguel me propôs imaginar um guia sobre “o lado B” da restauração do Porto, para lá da cozinha tradicional, sobre a qual já se escreveu tanto e bem, toda eu rejubilei. Finalmente, justiça! 

Mas a euforia depressa deu lugar ao pânico. Primeiro porque escrever sobre o “lado B” significava não poder dedicar (mais) caracteres ao Pata Gorda, o meu restaurante preferido do Porto, o que só por si é motivo de dor. Mas, sobretudo, havia a responsabilidade de tentar fazer justiça à mui nobre cidade sem fingir que existe uma fronteira clara entre os restaurantes lado A e os lado B.

Pode pensar-se se a distinção entre os dois se faz pelo número de prémios ou nomeações em guias, pelas filas de espera à porta ou o aviso de que não existem mesas disponíveis numa terça-feira de Novembro ou, quem sabe, pela quantidade de turistas que disseram “what a hidden gem!” num reel do TikTok. 

Havendo mais dúvidas do que certezas, resolvi agarrar-me a uma só ideia: reunir um conjunto de espaços unidos pela vontade sincera de nos fazerem felizes à mesa. Uns são mais conhecidos para os locais e menos para quem visita, outros ganham prémios mas deviam ter mais público, outros têm o carinho da indústria e de meia dúzia de pessoas mais atentas. Todos merecem o desvio, como se diz noutros guias. 

Depois dos 17 restaurantes da 1ª parte, completamos agora o PORTO Lado B com os restantes 13, do centro para fora da Baixa.


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo



PARTE 2: do Centro para fora da Baixa 

A Certain Café, Bonfim

Matias Romano e Agustina Fortunato são argentinos, de Buenos Aires, e gerem este café no Bonfim de paredes brancas e um pé direito infinito, que um dia foi uma garagem, pontuado por peças de cerâmica de artistas locais e joalharia em vidro, feita por Agustina. O pequeno-almoço serve-se pela tarde dentro e há sempre um menu de almoço, que muda diariamente e é simples sem ser aborrecido, pastelaria caseira e uma decadente rabanada com doce de leite que tem lugar cativo (e no verão dá vez ao melhor soft serve do universo). A música acompanha a atmosfera e em algumas noites a metamorfose acontece e surge o Uncertain bar, com jantares feitos por chefes convidados e dj sets.

Preço: €

R. do Morgado de Mateus 107. Tel: 223 198 116. Seg 09h00-17h00 Qua-Dom 09h00-17h00

Barra Este, Maia


Se fizermos um jogo de associações sobre a Maia, cidade, “cozinha nipónica” deve aparecer poucas vezes como a primeira referência que nos salta à cabeça. Mas foi aqui que em 2021 Evgeny Alinichenko decidiu abrir o seu primeiro restaurante, depois de ter passado por sítios icónicos, como o Terra ou Ichiban, onde começou a desenhar a sua visão. Para além da localização menos óbvia, o Barra Este divide-se entre a barra (nigiri, sashimi e outras peças) e uma carta de pratos quentes, que vão do okonomiyaki (a famosa panqueca japonesa) ao takoyaki (bolinhas de polvo), dando asas à criatividade de Evgeny e distanciando-se das abordagens mais convencionais. 

Preço: €€

R. de Altino Coelho 632. Tel: 935 373 284. Ter-Sáb 12h30-15h00/19h30-22h30

Cibû, Leça da Palmeira

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando imaginamos almoçar em Leça da Palmeira não será, certamente, alheira ou cabidela. Mas foi Trás-os-Montes que Hugo Portela, natural de Chaves, decidiu trazer para a terra mais bonita de Portugal, embora sem se deixar prender demasiado às suas raízes. Há açorda de polvo, cabidela de asas e um imperdível tártaro de novilho, feitos a partir de produtos 100% portugueses; há tachos de barro, paredes de pedra e um rol de sobremesas clássicas mesmo a pedir um pijaminha – e reza a lenda que, em noite de lua cheia, se pedirem mesmo muito, talvez aconteça.
 

Preço: €€

R. Castelo 15, 4450-632 Leça da Palmeira. Tel: 222426929. Qua-Qui 19h30-22h00  Sex-Sáb 12h30-15h00/19h30-22h00 Dom 12h30-15h00

Donau, Bonfim

Donau é a palavra alemã para Danúbio, uma homenagem de Rick Lins à sua terra natal, a Áustria. As referências não ficam por aqui e transbordam para a cozinha, em pratos como goulash, spätzle, salsichas e strudel, embora a carta pareça usufruir de uma liberdade que ultrapassa fronteiras. Rick, que divide o percurso entre as artes e a cozinha, e Sara Rafael, ligada à fotografia e à música experimental, fizeram do espaço uma espécie de extensão das suas próprias linguagens. O resultado tem várias camadas e vidas, com uma programação contínua de concertos, exposições, cinema, dj sets e outras coisas que façam sentido naquele momento.

Preço: €

R. Joaquim António de Aguiar 80. Seg 17h00-00h00 Qua 11h00-00h00 Qui-Sáb 11h00-01h00 Dom 11h00-23h00

Ezo, Boavista

Na Geórgia, uma refeição é uma celebração da identidade do país: há partilha, música, cânticos e tempo que se estende à mesa. Foi esse espírito que Maia Bodjgua quis trazer para o Ezo, restaurante georgiano na zona da Boavista. O nome significa pátio ou quintal em georgiano, o espaço onde família e comunidade se encontram, o coração da casa. Depois de vinte anos a trabalhar em restaurantes na Geórgia, Maia mudou-se para o Porto com receitas cheias de memória, como o kharcho megreliano, receita da avó, ou o khinkali (um dumpling/pastel com várias possibilidades de recheio). Nos vinhos, naturalmente, destacam-se os laranja, fermentados em qvevri, grandes ânforas de barro enterradas[1]  no solo, uma tradição de vinificação com cerca de 8000 anos e considerada a mais antiga produção de vinho de uva.

Preço: €€

R. da Meditação 39. Tel: 913 900 999. Qua-Sáb 12h00-15h00/18h30-23h30; Dom 12h00-22h30


Este guia tem o apoio d’Os Goliardos, referência histórica na distribuição, curadoria e divulgação de vinhos de terroir de produtores independentes e organizadores do Vinho ao Vivo.


Lessa, Leça da Palmeira


É difícil precisar se o Lessa é o restaurante mais pequeno de Leça da Palmeira mas estará com certeza no top três: entre o mini-balcão e as três mesas no interior, está cheia a casa que André Pinto Baptista abriu em 2019. Noutro campeonato, vencedores são também os arrozes, sobretudo o do mar, que vai variando o produto consoante a disponibilidade no mercado e a pescaria frita em farinha de milho, que pode incluir petingas ou lulas. Há também tártaros e ceviches, empurrando sempre o mar para a primeira fila, numa carta onde se trabalham apenas ingredientes portugueses. Porque Lessa is more.[2] 

Preço: €€


R. Santos Lessa 129, Leça da Palmeira. Tel: 221141045. Seg-Ter 12h30-15h00 Qua-Sex 12h30-15h00/19h00-23h00

Liz, Pinheiro Manso

Daniel Carvalheira nasceu em Moçambique, cresceu entre os Estados Unidos e Vila do Conde e chegou tarde ao mundo da cozinha, depois de se afastar de uma carreira em gestão. Passou por restaurantes como o Noma e o Euskalduna, antes de abrir no Pinheiro Manso, longe dos turistas e do borbulhar da baixa, o seu primeiro restaurante. Liz partilha o nome com a sua filha e assume-se como fine dining, focando toda a energia num menu de degustação, onde se cruzam memórias moçambicanas e portuguesas. Viaja-se da gamba com caril ao pargo com chouriço e pimento, num jogo de sabores bem conseguidos e particularmente refrescante, que nos faz perguntar como continua a ser um segredo tão bem guardado.  


Preço: €€€€


R. de Mota Pinto 170. Tel: 226168024. Ter-Sáb 19h00-22h00

Mafaldas, Matosinhos

Se todos os restaurantes fossem mais Mafaldas, o mundo era com certeza um lugar melhor. Aberto há 13 anos no Mercado de Matosinhos e encabeçado pelas irmãs Mafalda e Inês Pando, é um pequeno oásis em terra onde o peixe grelhado é rei. A cozinha voa do mercado para o prato, acompanhando as estações, num menu que muda diariamente, com inspirações do mundo inteiro e com uma relação qualidade/preço difícil de igualar. 

E pode soar estranho falar de um restaurante como “inclusivo”, mas no Mafaldas a diversidade não é uma bandeira, é simplesmente uma forma de existir. 

Preço: €-€€

R. França Júnior 65, Matosinhos. Tel: 223 223 783. Ter-Sex 12h00-15h30 Sáb 10h00-16h00

Oitavo Oceano, Bonfim

Quem gosta de uma cozinha asiática de fusão que não inclui queijo creme não vai encontrar no Porto uma quantidade muito generosa de opções. Mas, desde 2025, que nos meandros do Bonfim, o Oitavo Oceano tem feito muitas pessoas felizes. Dagan Wong é o one man show (cozinha, serve, limpa e responde a perguntas infinitas) neste espaço onde se sentam oito ou dez pessoas, dependendo do que ele consegue acomodar. 
A carta vai mudando, tendo sempre por base a comida chinesa, o seu ponto de partida, e os anos passados a viver na Califórnia e em Londres. Ramen com chipotle, milho e manteiga de miso ou Nashville hot chicken via Seoul, um híbrido entre uma sandes de frango frito e os sabores coreanos de gochujang e daikon são bons exemplos da sua liberdade criativa – o oitavo oceano que imaginou. 

Preço: €

R. do Bonfim 345. Qua-Sáb 12h00-15h00/19h30-22h30

Oma, Cedofeita

Luís Moreira e Ana Silveira trocaram a tranquilidade de uma pequena aldeia pela vida no Porto, mas recusaram deixar para trás a ideia de casa. OMA, que significa avó em alemão, nasceu precisamente desse desejo de receber sem formalismos e é também uma homenagem sentida e direta às suas maiores referências, num restaurante onde o fine dining se serve com leveza. O menu de degustação muda constantemente, tocando simultaneamente no tradicional e no contemporâneo, e deixando que as memórias ditem o caminho, mais do que as tendências. Na carta há duas constantes: as “Lulas da Infância”, uma ode às férias de verão longas e soalheiras e a “Francesona”, que substitui o ovo estrelado por caviar de ovo e as batatas fritas por um soufflé de batatas. 

Preço: €€€-€€€€

R. de Oliveira Monteiro 183. Tel: 912 00 0099. Ter-Sex 18h30-23h00 Sáb 12h30-15h00/19h30-23h00


RCA, Boavista

O RCA (Radiclube Agramonte) é um espaço polivalente, onde há concertos, dj sets e conversas abertas. Dependendo de com quem se fala (e da geração em questão), diferentes qualidades serão enumeradas, mas há unanimidade em dois pontos: come-se lá muito bem e o jardim vale o desvio. A cozinha está nas mãos de Joana Silva, que antes de ter poiso fixo era já conhecida pelos seus pop-ups “license to eat” ou “As Joanas”. Todas as semanas o menu muda e a entrada e a sobremesa variam diariamente, numa compilação de pratos simples e bem feitos, desde tacos de cheeseburger a donburi (prato japonês de arroz), com legumes e ervas aromáticas vindas diretamente da horta comunitária.

Preço: €€

R. João Martins Branco 180.  Seg, Qua, Qui 10h00-01h00 Ter 10h00-17h00 Sex 10h00-02h00 Sab 14h00-02h00 Dom 14h00-00h00

Rino, Matosinhos

Em Matosinhos, a uns meros metros da praia, há um izakaya e sushi bar de poucos lugares. Rino, uma homenagem de Masaki Onishi e Aiko à filha de ambos, é um lugar de culto para quem tem a sorte de o conhecer (e de conseguir mesa), onde a tradição japonesa fala sempre mais alto do que a procura por tendências.

Depois de muitos anos à frente da cozinha do Ichiban, na Foz, Masaki decidiu abrir, em 2023, com Aiko, o seu próprio espaço, guiado pela proximidade do Mercado, com opções diárias que partem do peixe e marisco do dia. Há sushi e sashimi irrepreensíveis, mas é nos pratos menos óbvios, como as cabeças de peixe com ponzu, a enguia grelhada ou o bolbo de lírio, especialidades que raramente encontramos em Portugal, que percebemos o lugar verdadeiramente único onde estamos.

Preço: €€-€€€

R. Dr. Manuel Rodrigues de Sousa 53. Tel: 932 885 718. Ter-Qua 12h30-14h15/19h30-21h15 Sex-Sáb 12h30-14h15/19h30-21h15

Venn Canteen, Campo 24 de Agosto


Durante a sua infância na Polónia, Monika Bloch ia com frequência passear pela floresta, onde colhia plantas silvestres, cogumelos e raízes. Essa ligação à natureza moldou a forma como hoje se move na cozinha, e na vida, num profundo respeito pelos ciclos e na atração pela simplicidade. O Venn, que abriu com Snider Rodrigues e Julian Fernandes, é a extensão natural da sua filosofia: um projeto de cozinha criativa de base vegetal, onde os produtos são locais, e se dá prioridade à agricultura regenerativa, à agrofloresta e à utilização de espécies alimentares antigas, esquecidas e selvagens. Funciona apenas ao jantar, com um menu de degustação de quatro ou seis pratos, onde podem aparecer cuscuz de milho painço e beterraba curada, falafel de chícharo e água de tomate ou tarte de alfarroba e gelado de miso. 

Preço: €€-€€€

R. de Fernandes Tomás 345. Tel: 220 140 899. Seg-Dom 19h00-23h00

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Legenda preço médio: € – menos de 20€ |€€ – 20 a 40€ | €€€ – 40 a 60€ | €€€€ – 60 a 100€ | €€€€€ – +100€ 

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*Sobre a autora Sara Roseira: vive em Matosinhos e é psicóloga de formação. Assina a curadoria gastronómica do Simplesmente… Vinho, salão de vinhos alternativo que se realiza anualmente no Porto, onde descobriu a produção de eventos. Em 2024 criou o Espalha Brasas, movimento dedicado a ampliar a visibilidade de quem se identifica como mulher na indústria. É também responsável pela programação gastronómica do Out of the Blue e pela gestão do projecto Menus com História.


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Sara Roseira vive em Matosinhos e é psicóloga de formação. Assina a curadoria gastronómica do Simplesmente... Vinho, salão de vinhos alternativo que se realiza anualmente no Porto, onde descobriu a produção de eventos. Em 2024 criou o Espalha Brasas, movimento dedicado a ampliar a visibilidade de quem se identifica como mulher na indústria. É também responsável pela programação gastronómica do Out of the Blue e pela gestão do projecto Menus com História.

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