Opinião

A importância do jantar quando viajamos

Andamos de um lado para o outro, a passear pelas ruas, a visitar monumentos e museus, a tentar absorver a atmosfera de lugares que não conhecemos ou conhecemos mal. Ou a fazer compras. Ou, noutro tipo de viagens, a aproveitar o sol das praias ou a desfrutar da natureza campestre. Como não queremos perder o precioso tempo diurno, o almoço é rápido e prático, sem grande investimento em escolhas cuidadas. Porém, chega a noite e queremos descontrair à mesa de um restaurante, este normalmente já objecto de selecção mais exigente, ajudados por guias e outras indicações de quem conhece o local que visitamos. Nessa altura, para muitos de nós, acontece um momento importante para o balanço que fazemos do dia. Se formos bem atendidos, se o que comemos e bebemos nos satisfaz ou até excede as nossas expectativas, se o ambiente do restaurante nos agradar, esse balanço geral tende a ser positivo. Mas se for ao contrário, quando finalmente nos recolhemos no quarto de hotel talvez tenhamos a sensação de que afinal o dia não foi assim tão bem passado.

Nos últimos anos, fala-se cada vez mais de “turismo gastronómico”, das pessoas que escolhem determinado destino por causa da sua gastronomia, dos seus restaurantes, dos seus mercados e lojas, dos seus produtos alimentares. Mas, se descontarmos a curtas viagens de turismo interno, creio que o número de viajantes que escolhe o destino por motivos especificamente gastronómicos é bastante residual. Haverá certamente os colecionadores de restaurantes com estrelas Michelin, os profissionais do sector, alguns gastrónomos com tempo e dinheiro para “viajar para comer”, mas para a grande maioria dos turistas as questões gastronómicas ficarão em segundo plano perante a beleza, o interesse cultural e histórico dos sítios a visitar, a qualidade das praias, da natureza, das lojas.

No entanto, mesmo para os aparentemente mais desinteressados pelos assuntos do estômago, penso que há o tal “balanço do dia” influenciado pelo jantar, o qual – seja num restaurante estrelado seja num moderno gastropub seja numa tasca típica seja num vegetariano – vai contribuir fortemente para a avaliação dos destinos que escolhemos para as nossas viagens turísticas. Resumindo, diria que para a maior parte dos turistas a gastronomia é um factor secundário na escolha do destino, mas que acaba por ser muito importante no grau de satisfação com a experiência da viagem como um todo.

Ora é aqui que entra aquilo que se poderia chamar a “restauração média”. Sabemos que os restaurantes de topo ficam de fora das opções de grande maioria dos turistas – representando quando muito um jantar especial numas férias mais prolongadas -, quer pelo custo elevado quer por uma imagem que corresponde a um certo formalismo que se quer evitar em tempos de lazer. Por outro lado, os restaurantes mais populares nem sempre satisfazem uma certa qualidade de ambiente ao jantar que se quer depois de um dia a girar de um lado para o outro, em que se comeu alguma coisa a correr ao almoço. Sobretudo para quem tem acima de 30 anos e normalmente mais dinheiro para gastar.

Daí que para a imagem de um local, de uma cidade, de um país, estes restaurantes “médios” sejam fundamentais. Mais procurados na hora decisiva do jantar, as experiências que proporcionam aos turistas determinarão em grande parte a ideia que eles levarão para casa da gastronomia dos locais que visitam. Exemplificando com minhas próprias experiências como turista – e incorrendo numa necessária generalização – diria que a cozinha francesa tem profissionais altamente competentes porque numa qualquer aldeia ou vila de França encontramos frequentemente pequenos restaurantes com pratos deliciosos, cujas receitas, muitas vezes complexas, são primorosamente executadas. Depreendemos que quem cozinha certamente passou pelas escolas de hotelaria e aprendeu nos bons restaurantes-do país, brilhando agora com a sua técnica culinária.

Já em Itália, em qualquer canto parece que encontramos uma grandiosa cozinha de raiz popular, cheia de uma sabedoria que se perde nos tempos, que tira todo o partido dos magníficos produtos que a natureza lhes providencia. Imaginamos logo mesas alegres, propícias a longos convívios e fartas comezainas. Vamos para Espanha e aí sou mais marcado pela modernidade, pela criatividade que hoje se encontra em qualquer bar de tapas de qualquer vilarejo, muitas vezes conduzidos por cozinheiros influenciados pela vanguarda dos finais dos anos 90, início dos 2000, que frequentemente passaram até pelos restaurantes dos principais nomes dessa época de ouro. Também uma cozinha alegre, onde o divertimento, a surpresa, as combinações inesperadas fazem parte dos ingredientes.

Abordei sucintamente as imagens que guardo das cozinhas de três países que me são próximos geográfica e culturalmente, mas o que dizer então da imagem que tenho da cozinha do meu país? Estranhamente, é-me mais difícil enquadrá-la. Há certamente um lado tradicional, algo rústico, de pratos contundentes e rurais, das bacalhoadas, das feijoadas, dos cozidos, mas igualmente a delicadeza dos peixes na grelha, a complexidade dos arrozes, o requinte da doçaria. E é claro que há muito mais, não fosse a variedade do receituário do nosso pequeno território talvez a característica mais notável que apresentamos ao mundo.

Ou ainda uma recente imagem de modernidade e de uma nova abertura ao mundo (já o tínhamos feito nos séculos XV e XVI, com a incorporação dos produtos das Américas e da Ásia) que vamos encontrando em pequenos restaurantes das grandes cidades e dos locais turísticos, praticada por jovens cozinheiros que se formaram em escolas de hotelaria e já passaram por grandes restaurantes em Portugal e mesmo noutros países. São esses restaurantes médios, dos mais tradicionais aos mais criativos, passando por tascas e tabernas renovadas, que espero que influenciem agora as experiências de quem nos visita. E que, segundo me parece, dão hoje uma muito melhor imagem da cozinha portuguesa do que aquela que tínhamos há não muitos anos.

Fotografia: Cristina Gomes, só utilizada nesta publicação do Mesa Marcada

Artigo publicado originalmente na edição de Abril de 2022 da Revista de Vinhos

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

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