René Redzepi anunciou nesta noite de quarta-feira que se vai afastar da liderança do Noma, o restaurante de Copenhaga que fundou. O anúncio foi feito pelo próprio chef dinamarquês numa publicação nas redes sociais. No texto que acompanha o vídeo, Redzepi afirma que decidiu dar um passo atrás depois das polémicas das últimas semanas em torno de alegadas situações de abuso na cozinha do restaurante.
À primeira vista, a mensagem parece clara. O chef assume responsabilidade pela forma como liderou o restaurante no passado e anuncia que deixa a condução do Noma nas mãos da equipa actual.
Mas quem vê o vídeo que acompanha a publicação percebe que a história é mais complexa do que o comunicado sugere.
Já lá vamos.
A polémica que levou ao anúncio
Nas últimas semanas, a pressão sobre Redzepi e sobre o Noma tinha vindo a aumentar.
A polémica começou quando Jason Ignacio White, antigo director de fermentações do restaurante, começou a divulgar na sua conta de Instagram testemunhos de antigos trabalhadores sobre alegadas situações de abuso na cozinha.
Nos dias seguintes, os relatos multiplicaram-se e o debate rapidamente ultrapassou o caso do Noma para tocar numa questão mais ampla: a cultura de trabalho nas cozinhas de alta gastronomia.
Como escrevemos num artigo recente no Mesa Marcada, a discussão intensificou-se depois de o New York Times publicar uma investigação assinada pela jornalista Julia Moskin, baseada em entrevistas a mais de três dezenas de antigos trabalhadores do restaurante.
Desde então, a pressão pública não diminuiu. Pelo contrário.
Um dos patrocinadores associados à residência temporária do Noma em Los Angeles anunciou entretanto o cancelamento do apoio ao projecto, sinal de que a polémica começava a ter consequências concretas.
Foi neste contexto que Redzepi anunciou agora o seu afastamento da liderança do restaurante.
O comunicado e o vídeo dizem exactamente a mesma coisa?
No comunicado escrito publicado no Instagram, Redzepi afirma que decidiu afastar-se da direcção do restaurante.
Depois de mais de duas décadas a construir e liderar o Noma, escreve o chef, chegou o momento de permitir que a nova geração da equipa conduza o restaurante para o seu próximo capítulo.
Na mesma publicação, Redzepi anuncia também que se demitiu do conselho da MAD, a organização sem fins lucrativos que fundou em 2011 e que reúne profissionais da restauração de todo o mundo.
Mas o vídeo que acompanha a publicação acrescenta uma camada mais complexa à história.
Gravado aparentemente durante uma reunião da equipa antes de um serviço da residência temporária do Noma em Los Angeles, o discurso de Redzepi é simultaneamente um pedido de desculpa, um gesto de responsabilidade e um apelo mobilizador dirigido à equipa.
Em vários momentos do discurso, o chef afirma que se afasta da gestão directa para proteger a equipa num momento de forte pressão mediática.
Mas também deixa claro que não está a abandonar o projecto.
Perto do final do vídeo afirma mesmo que os membros da equipa continuarão a vê-lo por perto, ainda que não da mesma forma que nos últimos 23 anos.
Noutra passagem refere que vai dedicar-se a preparar a próxima fase do Noma.
Ou seja, mais do que uma saída total, o anúncio parece apontar para um afastamento da gestão diária do restaurante, não necessariamente do projecto.
Resta agora perceber se este passo atrás marca realmente uma nova fase no Noma ou apenas mais um capítulo numa história que ainda está longe de terminar.
Por agora, o Noma continua. E, pelos vistos, Redzepi também.
Segue-se a transcrição integral do seu discurso traduzida para português e mantendo a oralidade do vídeo.
Transcrição do vídeo publicado por René Redzepi
Peço desculpa por todos estarem nesta situação. Peço mesmo, mesmo desculpa. Não acho que isto represente a nossa equipa.
Tenho um orgulho enorme no ponto onde estamos enquanto organização. A verdade é que estamos agora no meio da tempestade. E para garantir que todos vocês se sentem a 100% seguros, vou afastar-me.
Ok? E isso será anunciado em breve. Mas a condução deste restaurante, por agora, fica nas vossas mãos.
Ok? E espero mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, com todas as fibras do meu corpo, que lutem por isto. Eu não estou a fugir de nenhuma responsabilidade pela forma como fui. Não estou. Eu sei como fui.
Muitos de vocês estão aqui há tempo suficiente para terem vivido a mudança que fomos atravessando.
Por isso preciso que se levantem e lutem, por favor. Vamos conquistar os convidados um a um. É assim que o vamos fazer. A longo prazo, é assim que o vamos fazer.
Os convidados sentados aqui, os convidados sentados ali. Sintam-se à vontade para se abrir e dizer o que quiserem dizer, se eles vos perguntarem. Mas vamos conquistar os convidados um a um.
Vamos ultrapassar isto. Vamos ultrapassar isto.
Mas como agora tudo está tão centrado em mim, tenho de me retirar.
Acredito que este é o restaurante da década. Não ia dizer isto antes do final deste projecto. Mas acredito nisso, consigo senti-lo na energia.
Para mim isto não é apenas trabalho, claro. Muitos de vocês são hoje família para mim.
Quando se trabalha com alguém durante 19 anos, ou 14 anos, ou 10 anos… está em todo o lado. Treze anos… e deixa de ser apenas colegas.
É daqui que tiro a minha energia.
O meu compromisso continua a ser o mesmo de sempre: trabalhar para que sejamos uma organização extraordinária, onde a comida está na linha da frente e onde fazemos parte de uma mudança.
E o meu compromisso convosco é criar a melhor organização que alguma vez se viu na indústria da restauração. Esse é o meu compromisso. Este é o meu compromisso. E tem sido assim há muitos anos.
A fase Noma 3.0 era exactamente isso: tentar construir uma economia que nos permitisse cuidar das pessoas de uma forma nunca antes vista na restauração.
É muito, muito difícil mudar… criar uma mudança verdadeira. Podemos destruir coisas em minutos e reconstruí-las pode demorar uma eternidade.
Por isso, por favor, por favor, por favor, lutem. Estejam dentro disto. Encontrem força uns nos outros como equipa, ok?
E saibam que estou a fazer isto para proteger toda a gente aqui. Só consigo estar aqui e dizer isto porque, quando vejo o que está a acontecer online, sei que já não é assim há muito tempo.
Eu sei. Eu sei que não é isto que nós somos.
E é isso que me dá tanta motivação. E isso, claro, é algo que temos de explicar ao mundo e contar ao mundo.
Mas há muitos lados nesta história. Não há apenas um lado, ok? Está bem.
Por isso, vão continuar a ver-me por aqui… mas não da forma como me viram nos últimos 23 anos.
Agora são vocês que estão a conduzir isto. Ok?
Este é agora o vosso restaurante. Cada um de vocês.
Eu vou dedicar-me a planear a próxima fase.
Ok? Este faço eu.
VAMOS FAZER UM GRANDE SERVIÇO!
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