Há pessoas que acumulam garrafas, discos, facas japonesas ou relógios. É bem provável que, ao longo da vida, Nuno Diniz também tenha acumulado alguns desses objectos. Mas aquilo que coleccionou verdadeiramente foram livros de cozinha.
Não apenas livros importantes – isso seria relativamente previsível num cozinheiro culto da geração dele – mas também livros improváveis, locais, esquecidos, estranhos, encontrados em pequenas livrarias durante viagens, quase sempre aproveitando desvios entre mercados, restaurantes e obsessões pessoais.
A partir de 30 de Maio, grande parte dessa biblioteca gastronómica ficará disponível ao público na Biblioteca Municipal de Montalegre.
O gesto tem qualquer coisa de bonito e de pessoal ao mesmo tempo. Não apenas pela dimensão e qualidade da colecção (mais de 600 volumes, aos quais se juntarão outros 100 que ainda permanecem em sua casa) mas porque as grandes bibliotecas pessoais acabam sempre por contar uma autobiografia paralela. Talvez até digam mais nas entrelinhas do que muitas entrevistas.
No caso de Nuno Diniz, tudo começou nos anos 1980, em Londres, quando viajava regularmente para ver concertos de rock e blues, comprar discos difíceis de encontrar em Portugal e descobrir os então “radicais” restaurantes do Soho. A certa altura, os livros passaram a entrar também no roteiro.
“Quando viajava já não eram apenas os mercados um dos meus principais destinos, mas também, sempre, sem cansaço, a busca de livros locais”, diz-nos.
Percebe-se perfeitamente o tipo de pessoa. Aquele viajante que entra numa livraria gastronómica como outros entram numa cave de vinhos antigos.
Ao longo dos anos, Nuno Diniz passou por lugares de culto como a Books for Cooks, em Notting Hill, a Librairie Gourmande, em Paris, a Kitchen Arts & Letters, em Nova Iorque, ou a Omnivore Books, em San Francisco. E foi acumulando clássicos franceses, nouvelle cuisine, espanhóis radicais, livros nórdicos, autores asiáticos, revistas desaparecidas e tudo aquilo que lhe permitisse continuar a aprender.
“Procurei sempre livros locais de cozinhas que conhecia pior”, explica.
Apesar desse ecletismo, há uma evidência inevitável: a França domina boa parte da biblioteca. Escoffier, Michel Guérard, Roger Vergé, Alain Chapel, Alain Ducasse, Alain Senderens, Joël Robuchon, Michel Bras, os Troisgros, Fernand Point – a lista funciona quase como uma pequena genealogia da alta cozinha francesa das últimas décadas.
Mas talvez o mais interessante seja perceber que Nuno Diniz nunca coleccionou livros apenas para confirmar os seus próprios gostos. Da conversa e das mensagens que fomos trocando ao longo do dia, a propósito da doação do seu espólio à Biblioteca Municipal de Montalegre, percebe-se que comprava praticamente tudo, incluindo livros de cozinhas e correntes estéticas muito diferentes entre si. Mesmo quando a afinidade pessoal era menor, preferia conhecê-las e estudá-las, por reconhecer “a sua importância e a necessidade de estar bem informado”.
Esse detalhe ajuda talvez a perceber uma característica que particularmente aprecio em pessoas deste meio: a curiosidade intelectual sem dogmatismo.
Hoje a viver em Sezelhe, no concelho de Montalegre, Nuno Diniz parece ter encontrado no Barroso um lugar improvável para deixar parte desta história. E talvez faça sentido que uma biblioteca construída lentamente, fora de modas passageiras, acabe precisamente ali.
Figura muito particular da gastronomia portuguesa, com um percurso dividido entre a cozinha, o ensino, a investigação e a divulgação do património alimentar português, Nuno Diniz foi distinguido este ano — juntamente com Luís Baena — com o Prémio Especial Cutipol Carreira dos Prémios Mesa Marcada 2025.
Entre os livros que destaca da colecção aparecem títulos como La Gran Cocina Latina, monumental levantamento das cozinhas regionais latino-americanas, os dois volumes de Essence, de David Everitt-Matthias, ou La Cuisine, c’est beaucoup plus que des recettes, de Alain Chapel.
Já o livro mais difícil de encontrar foi Satoyama Cuisine, do japonês Yoshihiro Narisawa.
E se tivesse de salvar apenas um livro de toda a biblioteca? A resposta surge sem hesitações: Le Livre de Michel Bras.

Não apenas pela raridade do volume, mas porque lhe foi oferecido por um aluno. “Deve ter gasto um balúrdio, mas acertou em cheio.”
A frase vale provavelmente mais do que a cotação do livro.
Entre os autores portugueses, Nuno Diniz destaca ainda Alfredo Saramago, de quem diz manter “grande admiração”, apesar de todas as polémicas que mais tarde envolveram o seu percurso. “Todos os livros dele estão na Biblioteca a partir de sábado!”, escreve.
Quem quiser conhecer o espólio poderá fazê-lo a partir de 30 de Maio, na Biblioteca Municipal de Montalegre, onde Nuno Diniz estará também presente nesse dia, às 11h, para uma conversa aberta ao público sobre livros, gastronomia e as histórias acumuladas ao longo de décadas de procura.
Foto de Nuno Diniz: Humberto Mouco
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