Critica Gastronómica Restaurantes

Gostar de tudo no Zunzum

Quando me fui despedir de Marlene Vieira no final do jantar, ela perguntou-me, como é habitual nestas circunstâncias, se tinha gostado. Andei durante dois segundos à procura de algo menos positivo e a resposta surgiu feliz e clara: tinha gostado de tudo. Ora, numa refeição com mais de meia dúzia de pratos, isto é muito raro. Pelo menos, para mim. Geralmente, há sempre uma coisa ou outra de que não gosto, ou gosto menos, ou que acho que poderia estar melhor. Mas isso não tinha acontecido naquele jantar de inauguração do Zunzum, o novo gastrobar de Marlene Vieira, no Terminal de Cruzeiros de Lisboa, para o qual fui convidado, que decorrera agradavelmente, apesar da pandemia, na esplanada, numa já longínqua e quente noite de Agosto.

Este raro “gostar de tudo” levou-me a pensar o que teria acontecido na avaliação que fiz do jantar se, como é normal, tivesse havido um prato ou dois que não me tivessem agradado. A verdade é que muitas vezes uma falha ou duas num menu de mais de seis ou sete pratos é suficiente para que, quando nos perguntam se gostámos da refeição, sejamos mais críticos e reservados nos elogios daquilo que gostámos. Que é a grande maioria dos pratos. Acho que já fui mais assim, mas, com o decorrer dos anos, procuro ser equilibrado nas avaliações, enquadrando e relativizando os momentos mais negativos num todo, o qual, se for positivo, não deve afectar o sentido da experiência.

Mas, afinal, perguntarão os leitores, já impacientes, de que é que gostei tanto no novo espaço de Marlene Vieira? Começando pelo ambiente, gostei da disposição do espaço e de mobiliário, tudo alegre e luminoso, coerente com a proximidade do Tejo. Mas de “bons ambientes” está, felizmente, Lisboa cheia, O que muitas vezes falha é a cozinha, porque há muito quem julgue que basta apostar numa decoração catita e na moda para dispensar qualidade e personalidade culinária, apresentando pratos estafados e pseudo-modernos. O pior é que muitas vezes, demasiadas vezes, na verdade isso basta para ter casa cheia e até boa Imprensa.

No Zunzum, mostra-se ao que se vem logo no pão e brioche caseiro, com manteiga e pasta de chouriço, e, sobretudo nuns deliciosos e originais chips de moreia muito bem fritos, que abrem as “hostilidades”. Seguir-se-á uma combinação vencedora (que já tinha experimentado numa entrega ao domicílio antes mesmo do gastrobar abrir) de abacate com sapateira e numa tartelete de bacalhau, em jeito debrandade“encaixada” numa massa finíssima de tinta de choco. Virá depois um ceviche, que nada tem com as versões bocejantes que vemos por aí, de espadarte, maracujá, batata doce, pimenta da terra e coentros, a puxar para os Açores, que mostra a diferença de saber fazer brilhar um bom peixe.

E o melhor ainda estava para vir, num extraordinário prato vegetariano, com aipo “esparguetado” com molho carbonara, e numa espetada de presa de porco preto grelhada, milhos fritos e ketchup de pimento picante (desta vez, chegámos à Madeira), com a carne num belíssimo ponto. Dois pratos de eleição que, passado todo este tempo, ainda me despertam o apetite só de os enunciar. Para terminar, uma versão de arroz doce de Marlene Vieira, que, não sendo sobremesa da minha preferência (será talvez dos poucos pratos de arroz de que gosto pouco) concluiu o banquete na perfeição.

Quando me levantei da mesa estava contentíssimo. Não só pelo óptimo jantar, mas sobretudo pela confirmação de que Marlene Vieira não tinha perdido a mão e que a sua cozinha tinha evoluído na direcção correcta, com pratos (como vim a confirmar posteriormente, falando com outras pessoas que foram ao Zunzum) capazes de agradar a todo o género de clientes, sem, no entanto, fazer cedências a fórmulas já vistas. Na altura, parecia que as coisas iriam, a pouco e pouco, retomar a normalidade e isso, para a chefe, significava a abertura num futuro próximo do Marlene, mesmo ao lado do gastrobar, restaurante onde iria mostrar a sua cozinha mais elaborada. Fui visitar o espaço vazio, que me pareceu ideal para tal se verificar.

Porém, passados estes meses e com a maldita pandemia a recrudescer, Marlene Vieira teve que reformular os planos e agora a abertura do restaurante que leva o seu nome está suspensa, à espera de tempos mais favoráveis. Mas, como consolação, o Zunzum tem tido grande êxito – a ponto de terem que alargar os horários de abertura para todos os dias da semana –  e, para mim e para várias pessoas com quem falei neste período, é um dos lugares favoritos em Lisboa para uma refeição saborosa, diferente e com a alegria de que bem precisamos nestes tempos sombrios.

Zunzum

Morada: Terminal de Cruzeiros de Lisboa, Doca Jardim do tabaco, Av. Infante D. Henrique

Tel. 21 050 0347

Abre de segunda a sexta-feira para almoço e jantar. Aos sábados, sem interrupções, das 12h às 23h. Domingos, das 12h às 17h

Fotografias: Cristina Gomes

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

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