Dá gosto verificar que há restaurantes em Lisboa que reflectem na sua lista de pratos a sazonalidade que abençoa um país, como Portugal, onde as quatro estações (sem contar com as sub-estações…) estão bem definidas. Vem isto a propósito das magníficas alcachofras primaveris que provei no Planto, o restaurante “informal” que o chefe Vítor Adão – conhecido pelo seu trabalho no Plano, na Graça – apresenta agora neste espaço situado na Rua da Boavista, perto do Cais do Sodré, onde os vegetais de origem biológica são um dos trunfos. As alcachofras estavam cozidas ao vapor e vinham com um delicioso e suave molho de gengibre – e, é claro, manteiga – no qual se mergulhavam as pétalas que se iam desfolhando, aumentando com o gesto de “comer à mão” o prazer proporcionado por este prato difícil de encontrar. Só me lembro de ter provado alcachofras assim, igualmente deliciosas, no tradicional Cimas- English Bar, no Monte Estoril.
Mas nem só de alcachofras vive o Planto e é claro que provei e aprovei outros pratos também muito recomendáveis. Aliás, acabei por provar bem mais do que pretendia à partida porque estava lá o chefe Mateus Freire (ex-Faz Frio e ex-Osso Bento, também restaurantes de Lisboa), que actualmente trabalha com Vítor Adão e está encarregado de supervisionar mais directamente o Planto. Não só ele fez questão que eu provasse mais pratos deste restaurante que abriu no Verão passado como, em conluio telefónico com Vítor Adão, teve a amabilidade de me fazer convidado na hora, já que tinha marcado mesa noutro nome.
O restaurante está inserido, com entrada directa da rua, no Boutique Hotel Look (dos mesmos responsáveis pela Guest House, na Graça, onde está o Plano) que tem ainda a simpática característica de estar aberto todos os dias, das 9h da manhã à 1h da madrugada, cozinha sempre aberta, apresentando pequenos-almoços e brunches nas primeiras horas. Tem também uma pequena e agradável esplanada, com umas quatro ou cinco mesas, situada debaixo dos arcos da rua, mas eu preferi ficar do lado de dentro, onde um extenso balcão domina uma sala ao comprido, não fossem os cocktails uma das grandes apostas da casa.

Mas vamos lá ao que provei neste jantar no Planto. Comecei com um couvert com pão da Gleba (melhor do que aquele que estão a vender ao público, mas, mesmo sendo especial para o restaurante, bastante inferior à boa oferta que hoje se encontra noutras padarias de Lisboa), acompanhado com azeite, tapenade (que também pode ser melhorada) e molho raita, que servia muito bem para os vegetais crus que integravam igualmente este início de refeição, constituídos por pequenas cenouras de vários tipos e palitos de courgette. Custa 4.5€ e dá à vontade para duas pessoas.
Vieram de seguida uns impecáveis rissóis do Adão (8€, duas unidades), de fritura perfeita, massa leve, recheio generoso de berbigão, com maionese de lima e picante Mondego. Além das já mencionadas alcachofras (9€, duas unidades). Mais tarde, depois de Mateus Freire ter aparecido, ainda me deu a provar uns originais e igualmente bem fritos croquetes de espinafres, mostarda e pickles de courgette (9€), Estes últimos, aliás, vindos das prateleiras da sala que estão repletas de boiões com estes acepipes, dos mais variados vegetais, aos quais o chefe flaviense Vítor Adão dedica quase tanto entusiasmo quanto ao Desportivo de Chaves…E por falar em pickles caseiros, eles voltaram a aparecer no final do capítulo das entradas, acompanhando um pica-pau de lombo (19€), creio que de carne barrosã DOP, com um molho sensacional, que melhorou enormemente o pão da Gleba.

Nos pratos principais, caril goês (17€), com gambas do Algarve e arroz basmati aromatizado com lima e especiarias, bastante leve e agradável, com pequenos cubos de maçã a ajudar a na frescura, com tudo na medida certa, no qual só me pareceu que os mariscos ganhariam em estar menos cozidos. Ao lado, para suavizar, um belo doce de abóbora caseiro fez muito boa figura. Para terminar, “Diz que é uma Sandes de Presa” (14€), ou seja, uma sanduíche ao estilo japonês Katsu Sando, com fatias de brioche tostado, a carne de porco panada com panko, sunomono de couve coração (mais uma preparação saída dos boiões das prateleiras) e mostarda. Era um prato que se adivinhava pesado, sobretudo para quem como eu já estava, no mínimo, “bem alimentado”, mas a verdade que me soube muito bem, principalmente porque a gordura não se impunha – muitas vezes, nestas sanduíches, as fatias do pão são tostadas com excesso de manteiga, mas aqui o brioche já tinha suficiente – tendo só a lamentar a perda da textura crocante do panko, que estava desfeito, resultado, creio eu, da humidade do sunomono.
Como se não bastasse, Mateus Freire ainda quis que eu provasse as sobremesas e vieram não uma, não duas, mas sim três para a mesa. Primeiro, uma Pavlova de frutos vermelhos (8,5€), sem grande história para mim, que não sou muito de doces, demasiado açucarada, embora deve realçar a excelente qualidade das amoras e framboesas que a adornavam, bem como da bola de gelado de framboesa da óptima gelataria Unico. De seguida, dois frascos, um com Maçã de Adão (6,5€), um gelado de baunilha e crumble, onde a maçã propriamente dita estava desaparecida, e uma mousse de chocolate bio com frutos vermelhos (6,5€) muito bem feita.
Já se disse que o Planto aposta fortemente nos cocktails de autor, contando para isso com barmen premiados, e a carta de vinhos parece que está a ser reformulada. Só nos foram apresentadas oralmente poucas opções, mas um Pinot Noir da duriense Quinta do Cidrô portou-se à altura perante tantas preparações culinárias. Foi um belíssimo jantar, num espaço que julgo que não desilude quem gosta da cozinha de Vítor Adão, como é o meu caso, embora se tenha que compreender, inclusive pelos preços praticados, que estamos num espaço diferente do Plano. Até pela facilidade dos horários, certamente que vou lá voltar. Ver lista.
Planto
Morada: Rua da Boavista 69 A, Lisboa
Tel.: 938 381 922
E-Mail: info@welcometoplanto.com
Horários: aberto todos os dias, das 9h à 1h da manhã
Fotografias: Cristina Gomes
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Consumidor contumaz dos pães da padaria Gleba, entendo que o crescimento vertiginoso da rede empobreceu a qualidade e, por isto, se não se importa, daria opções de outras padarias em Lisboa, como mencionou na crítica do Plano?
Gosto especialmente de duas. A Marquise, junto à Praça das Flores, que fica perto de minha casa e de que sou cliente frequente, e a Isco, em Alvalade. Dentro do que conheço e de agora me lembro, outras boas opções são a Millstone Sourdough, no Parque das Nações, a Terra Pão, no Mercado de Arroios, e os cafés Simpli.
Agradecemos, a esposa e eu, as indicações. Começamos pela A Marquise. Gostamos muito. Em dois momentos. Na padaria, na excelência dos pães que compramos pelo perfume e aparências. Depois fomos para o pequeno grande almoço na cafetaria. Cappuccinos e um copo de tinto para acompanhar ovos beneditinos e uma sande fantástica de roast beef. De voltar!
Obrigadíssimo pelas indicações das padarias. Iniciamos o périplo, esposa e eu, para ir a todas. Começamos pela A Marquise. Gostamos muito da compra dos pães e, também, do pequeno grande almoço. Excelentes os ovos beneditinos e a sandes de roast beef (das melhores que já provei). Para casa estamos a reservar pães perfumados. De voltar, embora não seja na nossa vizinhança. Nada que o uber não resolva.