Uns dias antes de nos fazermos à estrada, em direcção ao Porto, para aí iniciarmos um passeio pela Região dos Vinhos Verdes, o algoritmo sugeriu-nos o link de uma loja de vinhos que nos propunha uma viagem pela região em seis garrafas, que poderiam ser adquiridas à distância de um click: a primeira era um icónico Alvarinho da sub-região Monção & Melgaço; a segunda um pet nat da mesma zona; a terceira um rosé moderno da sub região de Baião; a quarta um tinto de uma vinha de parcela da Azal; e a sexta garrafa era um Loureiro de baixa intervenção de um projecto recente.
Toda esta diversidade de estilos, tipo de vinhos, castas e proveniência mostrou-nos, ainda antes de sair de casa, um bom exemplo do dinamismo que se vive na região e que tão bem traduz o lema adoptado pela comissão de viticultura local: “Há um Verde para cada momento”.
Começar uma Rota pela Região dos Vinhos Verdes pelo Porto, pode parecer estranho, mas a verdade é que, de certa forma, é nesta zona que começa a região demarcada – que tem como limites a Norte o rio Minho (que estabelece parte da fronteira com Espanha), a Sul o rio Douro e as serras da Freita, Arada e Montemuro, a Este as serras da Peneda, Gerês, Cabreira e Marão e a Oeste o Oceano Atlântico.
Mas outra razão para iniciarmos o périplo pelo Porto prendia-se com a própria sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV). A Casa do Vinho Verde, que pode ser visitada aos sábados, mediante marcação, bem como reservada para eventos, fica no antigo Palacete Silva Monteiro, na Rua da Restauração, numa encosta virada a Sul sobre o Rio Douro. A casa é majestosa, de três pisos, contando no seu interior com um trabalho de arquitectura ricamente decorado, do qual se destaca o salão nobre e a escadaria iluminada por uma claraboia ornamentada de frescos. O imóvel pertenceu ao abastado comerciante e filantropo portuense que lhe deu o nome e incutiu uma intervenção estética inspirada em lugares do mundo por onde passou. Imperdível, igualmente, é o jardim, com os seus recantos e uma vista de rio muito particular.
Vista do Douro a partir dos Jardins da Casa do Vinho Verde, Porto
Pormenor dos Jardins da Casa do Vinho Verde, Porto
Vista do Douro a partir dos Jardins da Casa do Vinho Verde, Porto
Pormenor do interior Palacete Silva Monteiro, a actual Casa do Vinho Verde.
Pormenor do interior doPalacete Silva Monteiro, a actual Casa do Vinho Verde.
Foi no cenário da biblioteca que ficámos a conhecer alguns dados da região. Por exemplo, tendo sido demarcada em 1908, a Região dos Vinhos Verdes é a mais extensa região de Portugal (e uma das maiores da Europa) com potencial para produzir vinhos de Denominação de Origem (DO). Aqui, existem aproximadamente 13000 viticultores espalhados por 9 sub-regiões, 379 engarrafadores e mais de 1400 marcas. Ao todo produzem-se mais de 90 milhões de litros de Vinho Verde, dos quais 80% são brancos, sendo que um pouco mais de metade é vendido no mercado nacional enquanto o restante é distribuído por pelos 120 mercados de exportação.
Junto do consumidor conhecedor, a região está muito associada a castas autóctones, como a Alvarinho ou a Loureiro, em virtude de ter sido uma das pioneiras (se não a pioneira), em Portugal, no lançamento de vinhos varietais. Porém, existem 45 castas permitidas para a DO Vinho Verde e 67 para IG Minho, ainda que as mais relevantes sejam “apenas” onze: além das já citadas Alvarinho e Loureiro, temos Avesso, Azal, Arinto, Loureiro e Trajadura – nos brancos; Vinhão e Borraçal – nos tintos; tal como Espadeiro, Padeiro e Alvarelhão – nos rosés.
Já em termos mais genéricos, os Vinhos Verdes, sobretudo os brancos – que representam 80% da produção total, na sua maioria, elaborados com castas locais -, são vistos como vinhos com um grau alcoólico pouco elevado e uma frescura muito presente. Porém, ainda que existam atributos comuns, os diferentes microclimas, solos e relevo, bem como opções de vinificação, acabam por transmitir uma diversidade muito maior do que por vezes se imagina– sobretudo nesta última década, como mostra o exemplo que referimos no início deste artigo.
Foi em busca dessa diversidade, da sua aptidão gastronómica, bem como da capacidade de envelhecimento de alguns deles, que partimos do Porto, primeiro em direcção a Monção e Melgaço, depois a Ponte de Lima e, por fim, à sub-região do Cávado.
Por Terras de Monção e Melgaço
Desde o momento em que deixámos a áreas urbana da cidade começámos a vislumbrar o rendilhado de vinhas verdejantes que cobrem boa parte a paisagem. Estamos numa zona do país onde predomina o minifúndio e em que a produção de uvas para a elaboração de vinho constitui a principal actividade agrícola. Num dos pontos mais a norte do país, muitos destes viticultores organizam-se em associações, como a Adega de Monção.
O alvará de 1958 da constituição da Adega Cooperativa Regional de Monção
Pormenor de uma da vinha de um associado da Adega Cooperativa Regional de Monção
Ricardo Bastos, Sales Manager da Adega de Monção, com 3 dos vinhos provados
Deu La Deu Terraços 2016 um Alvarinho com algum envelhecimento que mostrou um perfil gastronómico muito interessante
Criada em 1958, esta cooperativa nasceu da vontade de um grupo de 25 viticultores locais e nos 64 anos que leva de vida teve um processo evolutivo considerável. Hoje, tem mais de 1600 viticultores associados a quem presta diversos apoios e garante a compra das uvas, possui um centro de vinificação moderno e as suas marcas estão entre as mais bem implementadas no mercado nacional. “Uma pessoa pode não encontrar um vinho do Douro no Alentejo ou um alentejano no Norte, mas certamente que irá encontrar algumas dos nossos, como o Muralhas ou o Deu-La-Deu, em qualquer parte do país”, refere-nos Sales Manager da Adega de Monção, Ricardo Bastos.
Apesar do sucesso, Ricardo não deixa de destacar, igualmente, uma vertente mais humanista da companhia: “podemos não ser sexy ou bonitos, mas temos uma grande responsabilidade social”, numa alusão às mais de 1600 famílias associadas que dependem ou retiram um rendimento importante da actividade, o que, directa ou indirectamente, torna a Adega de Monção no segundo maior empregador da zona, logo a seguir ao Estado.
A conversa decorre na sede da cooperativa, na antiga casa do adegueiro, hoje museu e sala de provas, entre copos que se rodam em busca dos aromas típicos da casta Alvarinho, em diferentes expressões. Se no Deu-la-Deu clássico da última vindima (2022) predomina um lado mais exuberante dos aromas de frutos tropicais e fruta de caroço (pêssego e alperce), nas referências Reserva e Premium da mesma marca, essas características ganham um caracter mais encorpado e macio. Porém, o vinho que mais surpreende os presentes é o Alvarinho Deu-la-Deu Terraços 2016, uma edição especial vinificada com leveduras autóctones de Monção e Melgaço que embora mantenha o seu perfil citrino e mineral revela algumas notas evoluídas de marmelo e mel. Este vinho mostrou ainda o seu perfil gastronómico, instantes depois, ao acompanhar muito bem um bacalhau com broa, ou mesmo um generoso naco de vitela, num almoço descontraído à beira do Rio Minho, no restaurante Caldas, em Monção.
passadiço do Parque das Caldas, em Monção
passadiço do Parque das Caldas, em Monção
Parque das Caldas, em Monção
Após o almoço ainda deu para fazer a digestão, com uma pequena caminhada pelos passadiços inaugurados em 2021 e que ligam o Parque das Caldas e a ecopista que leva até ao posto agrícola de Troviscoso, junto ao Rio Minho, num total de 2.3km. Na verdade, fizemos apenas parte do percurso, uma vez que ainda tínhamos uma outra visita ao fim da tarde e era preciso deixar as malas no Hotel Monte Prado, em Melgaço, que por esses dias mostrava um movimento considerável, que ia desde famílias portuguesas de visita à região, a espanhóis chegados de visitas a quintas, carregados de vinhos, a um grupo de ciclistas estrangeiros que parecia vindo de um raid pelas adegas.
Tudo começou numa vinha soalheira
Ao fim da tarde saímos rumo ao Soalheiro, um dos produtores mais emblemáticos da sub-região Monção e Melgaço e pioneiro na plantação da casta Alvarinho por estas terras. Na verdade, a casta já existia no território, só que as videiras eram plantadas nas bordaduras dos campos, deixando a cultura principal dos terrenos a cereais como o milho. Porém, em 1974, João António Cerdeira e os seus pais decidiram quebrar a tradição e plantaram a primeira parcela de vinha contínua de Alvarinho em Melgaço. Na altura, disseram-lhes que não podiam estar bons da cabeça, porque iam trocar o rendimento certo do milho pelo incerto das uvas para vinho. Porém, eles não ligaram e o tempo provou que estavam certos, que a opção por plantar a vinha do Soalheiro naquele pedaço de terra de boa exposição solar (que daria origem ao nome) tinha sido uma boa aposta.
A primeira vinha do Soalheiro, plantada em 1974 e hoje em modo biológico
Os primeiros registos
O primeiro Soalheiro Clássico, engarrafado em 1982
A essa primeira parcela, que deu origem ao primeiro Soalheiro Clássico, engarrafado em 1982, a família foi comprando e juntando outras, possuindo hoje 18 hectares de vinha, parte delas em produção biológica. Em paralelo, aproveitando o aprofundado conhecimento sobre a casta Alvarinho, Luís Cerdeira, enólogo e membro da 3ª geração, tal como a sua irmã, Maria João, responsável pela viticultura, formaram um “clube de viticultores” que reúne um conjunto alargado de 150 famílias proprietárias de pequenas parcelas provenientes de locais da região com exposições e altitudes diferentes. Esta concretização tem servido para estabelecerem um perfil para a sua referência principal, o Soalheiro Clássico – que representa quase metade das cerca de 900 mil garrafas produzidas anualmente – , bem como para a criação de novos vinhos lançados ao longo dos anos, do Primeiras Vinhas, ao Granit, passando pelo Terramater ou pelo Nature, bem como da mais recente aposta naquilo a que chamaram Cave de Inovação, de onde saíram recentemente novas propostas (algumas em colaboração), como um vinho de ânfora, um pet nat, ou um vinho de pé franco, entre outros.
Durante a visita à propriedade, que começou nos viveiros de ervas aromáticas que dão origem às infusões (que também comercializam), andámos pela famosa vinha onde tudo começou e acabámos na adega de linhas contemporâneas desenhada e construída com base em princípios de sustentabilidade. No final, subimos ao último piso e, tendo a paisagem verdejante como cenário, fomos presenteados com uma refeição encantadora, essencialmente com produtos da propriedade e da região, com destaque para os óptimos enchidos, bem como o presunto, ambos de porco da raça autóctone bísaro, da Quinta da Folga, que pertence igualmente à família. A acompanhar, claro, além de uma tisana, três vinhos recentes da casa, todos de Alvarinho e todos, à sua maneira, especiais: o espumante Bruto Nature, de bolha fina, elegante, inspirado no método ancestral, como base no Alvarinho sem a adição de sulfitos Soalheiro Nature; o Pé Franco, de aroma floral e intenso, algo encorpado e um com toque de taninos presente, por vias do contacto pelicular do mosto durante duas semanas; e, por último, o Soalheiro Clássico 2018 L1815, um Alvarinho encorpado e vibrante, que faz parte da caixa de 4 vinhos experimentais da edição especial comemorativa dos 40 anos e que tem como base a sua referência principal. No caso, era um lote com base no Soalheiro Clássico, com 85% do 2018 (ano quente) temperado com 15% da colheita de 2015 (ano frio). Ambos os vinhos passaram entre 4 e 7 anos em cuba de inox, parte sem intervenção, parte com borras finas de cada nova colheita.
Três Soalheiros especiais, todos de Alvarinho.
Queijos da região e enchidos bem como um presunto, ambos de porco bisado, da Quinta da Folga
No fim da noite, já a caminho do hotel, chegámos à conclusão que além da aptidão gastronómica não havia dúvidas que aqueles vinhos harmonizavam muito bem com uma boa conversa, algo que já desconfiávamos, mas que foi bom poder confirmar. Afinal, como diz a assinatura da campanha, “há um Verde para cada momento”.
—
Nota: Aceda ao site da Rota dos Vinhos Verdes e fique a conhecer ofertas de alojamento, provas de vinhos, passeios na vinha, picnics, SPA, passeios de jipe, percursos pedestres, entre outras propostas em que o Vinho Verde é o denominador comum para momentos únicos.
P.S. Este é o primeiro de dois artigos. O segundo sairá dentro de uma semana.
Uns dias antes de nos fazermos à estrada, em direcção ao Porto, para aí iniciarmos um passeio pela Região dos Vinhos Verdes, o algoritmo sugeriu-nos o link de uma loja de vinhos que nos propunha uma viagem pela região em seis garrafas, que poderiam ser adquiridas à distância de um click: a primeira era um icónico Alvarinho da sub-região Monção & Melgaço; a segunda um pet nat da mesma zona; a terceira um rosé moderno da sub região de Baião; a quarta um tinto de uma vinha de parcela da Azal; e a sexta garrafa era um Loureiro de baixa intervenção de um projecto recente.
Toda esta diversidade de estilos, tipo de vinhos, castas e proveniência mostrou-nos, ainda antes de sair de casa, um bom exemplo do dinamismo que se vive na região e que tão bem traduz o lema adoptado pela comissão de viticultura local: “Há um Verde para cada momento”.
Começar uma Rota pela Região dos Vinhos Verdes pelo Porto, pode parecer estranho, mas a verdade é que, de certa forma, é nesta zona que começa a região demarcada – que tem como limites a Norte o rio Minho (que estabelece parte da fronteira com Espanha), a Sul o rio Douro e as serras da Freita, Arada e Montemuro, a Este as serras da Peneda, Gerês, Cabreira e Marão e a Oeste o Oceano Atlântico.
Mas outra razão para iniciarmos o périplo pelo Porto prendia-se com a própria sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV). A Casa do Vinho Verde, que pode ser visitada aos sábados, mediante marcação, bem como reservada para eventos, fica no antigo Palacete Silva Monteiro, na Rua da Restauração, numa encosta virada a Sul sobre o Rio Douro. A casa é majestosa, de três pisos, contando no seu interior com um trabalho de arquitectura ricamente decorado, do qual se destaca o salão nobre e a escadaria iluminada por uma claraboia ornamentada de frescos. O imóvel pertenceu ao abastado comerciante e filantropo portuense que lhe deu o nome e incutiu uma intervenção estética inspirada em lugares do mundo por onde passou. Imperdível, igualmente, é o jardim, com os seus recantos e uma vista de rio muito particular.
Foi no cenário da biblioteca que ficámos a conhecer alguns dados da região. Por exemplo, tendo sido demarcada em 1908, a Região dos Vinhos Verdes é a mais extensa região de Portugal (e uma das maiores da Europa) com potencial para produzir vinhos de Denominação de Origem (DO). Aqui, existem aproximadamente 13000 viticultores espalhados por 9 sub-regiões, 379 engarrafadores e mais de 1400 marcas. Ao todo produzem-se mais de 90 milhões de litros de Vinho Verde, dos quais 80% são brancos, sendo que um pouco mais de metade é vendido no mercado nacional enquanto o restante é distribuído por pelos 120 mercados de exportação.
Junto do consumidor conhecedor, a região está muito associada a castas autóctones, como a Alvarinho ou a Loureiro, em virtude de ter sido uma das pioneiras (se não a pioneira), em Portugal, no lançamento de vinhos varietais. Porém, existem 45 castas permitidas para a DO Vinho Verde e 67 para IG Minho, ainda que as mais relevantes sejam “apenas” onze: além das já citadas Alvarinho e Loureiro, temos Avesso, Azal, Arinto, Loureiro e Trajadura – nos brancos; Vinhão e Borraçal – nos tintos; tal como Espadeiro, Padeiro e Alvarelhão – nos rosés.
Já em termos mais genéricos, os Vinhos Verdes, sobretudo os brancos – que representam 80% da produção total, na sua maioria, elaborados com castas locais -, são vistos como vinhos com um grau alcoólico pouco elevado e uma frescura muito presente. Porém, ainda que existam atributos comuns, os diferentes microclimas, solos e relevo, bem como opções de vinificação, acabam por transmitir uma diversidade muito maior do que por vezes se imagina– sobretudo nesta última década, como mostra o exemplo que referimos no início deste artigo.
Foi em busca dessa diversidade, da sua aptidão gastronómica, bem como da capacidade de envelhecimento de alguns deles, que partimos do Porto, primeiro em direcção a Monção e Melgaço, depois a Ponte de Lima e, por fim, à sub-região do Cávado.
Por Terras de Monção e Melgaço
Desde o momento em que deixámos a áreas urbana da cidade começámos a vislumbrar o rendilhado de vinhas verdejantes que cobrem boa parte a paisagem. Estamos numa zona do país onde predomina o minifúndio e em que a produção de uvas para a elaboração de vinho constitui a principal actividade agrícola. Num dos pontos mais a norte do país, muitos destes viticultores organizam-se em associações, como a Adega de Monção.
Criada em 1958, esta cooperativa nasceu da vontade de um grupo de 25 viticultores locais e nos 64 anos que leva de vida teve um processo evolutivo considerável. Hoje, tem mais de 1600 viticultores associados a quem presta diversos apoios e garante a compra das uvas, possui um centro de vinificação moderno e as suas marcas estão entre as mais bem implementadas no mercado nacional. “Uma pessoa pode não encontrar um vinho do Douro no Alentejo ou um alentejano no Norte, mas certamente que irá encontrar algumas dos nossos, como o Muralhas ou o Deu-La-Deu, em qualquer parte do país”, refere-nos Sales Manager da Adega de Monção, Ricardo Bastos.
Apesar do sucesso, Ricardo não deixa de destacar, igualmente, uma vertente mais humanista da companhia: “podemos não ser sexy ou bonitos, mas temos uma grande responsabilidade social”, numa alusão às mais de 1600 famílias associadas que dependem ou retiram um rendimento importante da actividade, o que, directa ou indirectamente, torna a Adega de Monção no segundo maior empregador da zona, logo a seguir ao Estado.
A conversa decorre na sede da cooperativa, na antiga casa do adegueiro, hoje museu e sala de provas, entre copos que se rodam em busca dos aromas típicos da casta Alvarinho, em diferentes expressões. Se no Deu-la-Deu clássico da última vindima (2022) predomina um lado mais exuberante dos aromas de frutos tropicais e fruta de caroço (pêssego e alperce), nas referências Reserva e Premium da mesma marca, essas características ganham um caracter mais encorpado e macio. Porém, o vinho que mais surpreende os presentes é o Alvarinho Deu-la-Deu Terraços 2016, uma edição especial vinificada com leveduras autóctones de Monção e Melgaço que embora mantenha o seu perfil citrino e mineral revela algumas notas evoluídas de marmelo e mel. Este vinho mostrou ainda o seu perfil gastronómico, instantes depois, ao acompanhar muito bem um bacalhau com broa, ou mesmo um generoso naco de vitela, num almoço descontraído à beira do Rio Minho, no restaurante Caldas, em Monção.
Após o almoço ainda deu para fazer a digestão, com uma pequena caminhada pelos passadiços inaugurados em 2021 e que ligam o Parque das Caldas e a ecopista que leva até ao posto agrícola de Troviscoso, junto ao Rio Minho, num total de 2.3km. Na verdade, fizemos apenas parte do percurso, uma vez que ainda tínhamos uma outra visita ao fim da tarde e era preciso deixar as malas no Hotel Monte Prado, em Melgaço, que por esses dias mostrava um movimento considerável, que ia desde famílias portuguesas de visita à região, a espanhóis chegados de visitas a quintas, carregados de vinhos, a um grupo de ciclistas estrangeiros que parecia vindo de um raid pelas adegas.
Tudo começou numa vinha soalheira
Ao fim da tarde saímos rumo ao Soalheiro, um dos produtores mais emblemáticos da sub-região Monção e Melgaço e pioneiro na plantação da casta Alvarinho por estas terras. Na verdade, a casta já existia no território, só que as videiras eram plantadas nas bordaduras dos campos, deixando a cultura principal dos terrenos a cereais como o milho. Porém, em 1974, João António Cerdeira e os seus pais decidiram quebrar a tradição e plantaram a primeira parcela de vinha contínua de Alvarinho em Melgaço. Na altura, disseram-lhes que não podiam estar bons da cabeça, porque iam trocar o rendimento certo do milho pelo incerto das uvas para vinho. Porém, eles não ligaram e o tempo provou que estavam certos, que a opção por plantar a vinha do Soalheiro naquele pedaço de terra de boa exposição solar (que daria origem ao nome) tinha sido uma boa aposta.
A essa primeira parcela, que deu origem ao primeiro Soalheiro Clássico, engarrafado em 1982, a família foi comprando e juntando outras, possuindo hoje 18 hectares de vinha, parte delas em produção biológica. Em paralelo, aproveitando o aprofundado conhecimento sobre a casta Alvarinho, Luís Cerdeira, enólogo e membro da 3ª geração, tal como a sua irmã, Maria João, responsável pela viticultura, formaram um “clube de viticultores” que reúne um conjunto alargado de 150 famílias proprietárias de pequenas parcelas provenientes de locais da região com exposições e altitudes diferentes. Esta concretização tem servido para estabelecerem um perfil para a sua referência principal, o Soalheiro Clássico – que representa quase metade das cerca de 900 mil garrafas produzidas anualmente – , bem como para a criação de novos vinhos lançados ao longo dos anos, do Primeiras Vinhas, ao Granit, passando pelo Terramater ou pelo Nature, bem como da mais recente aposta naquilo a que chamaram Cave de Inovação, de onde saíram recentemente novas propostas (algumas em colaboração), como um vinho de ânfora, um pet nat, ou um vinho de pé franco, entre outros.
Durante a visita à propriedade, que começou nos viveiros de ervas aromáticas que dão origem às infusões (que também comercializam), andámos pela famosa vinha onde tudo começou e acabámos na adega de linhas contemporâneas desenhada e construída com base em princípios de sustentabilidade. No final, subimos ao último piso e, tendo a paisagem verdejante como cenário, fomos presenteados com uma refeição encantadora, essencialmente com produtos da propriedade e da região, com destaque para os óptimos enchidos, bem como o presunto, ambos de porco da raça autóctone bísaro, da Quinta da Folga, que pertence igualmente à família. A acompanhar, claro, além de uma tisana, três vinhos recentes da casa, todos de Alvarinho e todos, à sua maneira, especiais: o espumante Bruto Nature, de bolha fina, elegante, inspirado no método ancestral, como base no Alvarinho sem a adição de sulfitos Soalheiro Nature; o Pé Franco, de aroma floral e intenso, algo encorpado e um com toque de taninos presente, por vias do contacto pelicular do mosto durante duas semanas; e, por último, o Soalheiro Clássico 2018 L1815, um Alvarinho encorpado e vibrante, que faz parte da caixa de 4 vinhos experimentais da edição especial comemorativa dos 40 anos e que tem como base a sua referência principal. No caso, era um lote com base no Soalheiro Clássico, com 85% do 2018 (ano quente) temperado com 15% da colheita de 2015 (ano frio). Ambos os vinhos passaram entre 4 e 7 anos em cuba de inox, parte sem intervenção, parte com borras finas de cada nova colheita.
No fim da noite, já a caminho do hotel, chegámos à conclusão que além da aptidão gastronómica não havia dúvidas que aqueles vinhos harmonizavam muito bem com uma boa conversa, algo que já desconfiávamos, mas que foi bom poder confirmar. Afinal, como diz a assinatura da campanha, “há um Verde para cada momento”.
—
Nota: Aceda ao site da Rota dos Vinhos Verdes e fique a conhecer ofertas de alojamento, provas de vinhos, passeios na vinha, picnics, SPA, passeios de jipe, percursos pedestres, entre outras propostas em que o Vinho Verde é o denominador comum para momentos únicos.
P.S. Este é o primeiro de dois artigos. O segundo sairá dentro de uma semana.
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