Restaurantes

Cozinha “à antiga” no novo Bougain

Será que Cascais está a mudar? Pelo menos no que diz respeito a restaurantes e à maneira como os habitantes locais os encaram? Se tivermos em conta o êxito que, segundo os seus responsáveis, o Bougain tem tido desde que abriu há cerca de quatro meses em pleno centro da vila, é caso para dizer que sim. E a julgar também pelas mesas totalmente preenchidas no jardim da antiga Casa da Pérgola, agora reconvertida em boutique hotel com restaurante, no dia, a meio da semana, em que fui lá almoçar para o conhecer. Turistas e, principalmente, residentes estrangeiros, parecem ser os grandes responsáveis pela mudança no mercado de Cascais, cujos habitantes eram conhecidos por preferirem sempre meia-dúzia restaurantes locais aos novos projectos que por ali iam surgindo ao longo dos anos, às vezes liderados por chefes de cozinha que acabariam por rumar, com sucesso, para outras paragens.

O Bougain é uma nova aposta do Grupo São Bento, representado pelo seu único sócio, Miguel Garcia, que há cerca de dois anos adquiriu o famoso Café de São Bento, na rua lisboeta de mesmo nome. A localização e o ambiente agradabilíssimo, com mesas num jardim arborizado (o nome do restaurante deve-se às buganvílias que ali se encontram) e protegido do vento, bem como salas interiores de aspecto confortável e acolhedor, um bar de cocktails acrescentado na parte de fora, serão sem dúvida boas razões para que se procure esta casa para almoçar ou jantar. Mas será também determinante uma cozinha de pratos mais clássicos, fácil de agradar, muito bem executada (pelo que me foi dado provar) pela chefe Diana Roque e apresentada por um serviço de sala igualmente “clássico” liderado pelo brasileiro Carlos Eduardo Silva, que já tinha trabalhado com Miguel Garcia no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e no Grupo Tivoli (duas experiências profissionais importantes na carreira do gestor hoteleiro, de 42 anos de idade, que hoje dirige o Grupo São Bento).

Diana Roque chefia a cozinha depois de passagens por restaurantes como o Belcanto e o Feitoria

Nascida em Aveiro, Diana Roque fez Escola de Hotelaria no Fundão e, apesar de jovem, já conta com passagens por restaurantes portugueses como o Belcanto e o Feitoria, na época chefiado por João Rodrigues, e também estrangeiros, como o Aldea, de George Mendes, em Nova Iorque, ou o Mont Mar, restaurante dos irmãos Roca em Barcelona. Ostras de Setúbal (seis unidades por 13 € ou 12 por 25€), carpaccio de novilho, lírio curado, steak tartare, gaspacho, salada de burrata ou de beterraba, cenoura e citrinos, salada niçoise e camarões al ajillo são entradas a preços que variam entre os 12€ e os 14€. Nos pratos principais, linguado à meuniére (25€), polvo à lagareiro com polenta de mariscos (por 24€, é mais um xerém, mas parece que a denominação italiana é mais compreensível para os clientes, mesmo os portugueses…), tagliolini de mariscos (24€), arroz de carabineiros e citrinos (65€, duas pessoas), camarão tigre grelhado (32€) e peixe do dia grelhado (25€). Nas carnes, entrecôte grelhado à café Paris (25€), pato confitado (25€), carré de borrego com crosta de mostardas (27€), steak tartare cortado à faca (26€) e Chateaubriand com molho béarnaise (60€, 500 g, duas pessoas). Ainda uma série de acompanhamentos a seis euros – alcachofra gratinada, ratatouille, legumes assados com o seu demi-glace, batatas fritas, polenta com ou sem bivalves, espargos grelhados, mix de cogumelos salteados, arroz de coentros ou salada verde. Para vegetarianos, há pratos de pleurotos grelhados com escabeche e puré de aipo trufado (16€) e Wellington de couve-flor (17€). Nas sobremesas, entre sete e nove euros, tiramisu, Pavlova de pêssegos assados, cannelés de chocolate, pannacotta de coco, bomba de chocolate, sorbets e gelados Santini (a loja primordial fica do outro lado da rua) e tábua de queijos (16€, duas pessoas). Como se vê, pratos clássicos da cozinha internacional, como um ou outro registo mais nacional, a bons preços.

A salada niçoise é um dos pratos clássicos menos vistos que a casa apresenta

Pude provar alguns destes pratos e fiquei bastante satisfeito. Nas entradas, os camarões al ajillo estavam num bom ponto, com o molho aveludado pela manteiga e sem traço de alho queimado, algo muito desagradável que acontece com frequência por aí. A salada niçoise valeu por ser pouco comum de encontrar, aqui vinha com atum braseado, ovos cozidos, feijão verde cozido demais para meu gosto, faltando-lhe algo para a espevitar. Nos pratos principais, excelente o arroz de carabineiro, com o grão inteiro e muito saboroso, com o tempero dos citrinos a conjugar-se na perfeição com o caldo do marisco, aliviando o peso que este possa adicionar. No entanto, o carabineiro propriamente dito, de bom tamanho, poderia estar menos cozido. Muito bom o carré de borrego, quer no ponto de cozedura quer nas boas notas que a crosta de mostardas conferia. Para acompanhar, veio um magnífico xerém de bivalves (a tal polenta…) e umas alcachofras gratinadas, raras de se ver, que me souberam muito bem. Sobremesas um bocado doces, tiramisu e cannelés de chocolate, que certamente farão felizes os mais gulosos.

Por tudo isto, não me espanta nada que o Bougain esteja a ter um merecido sucesso, com uma proposta coerente com o estilo do Grupo São Bento de dar valor à cozinha clássica, com uma ou outra “actualização”. Diga-se que quando Miguel Garcia tomou conta do Café de São Bento fez questão de não mudar nada, nem os bifes, nem a decoração, nem sequer as fardas dos experientes empregados de mesa que são a alma da casa. Acho muito bem. Não se deve mexer em equipas que ganham e a cozinha clássica precisa certamente que lhe façam justiça e a saibam tratar.

Bougain

Morada: Av. Valbom, 13, Cascais

Horários: Aberto todos os dias para almoço e jantar

Tel.: 914 768 826

Fotografias: Hayley Kelsing (pratos) e Manuel Manso


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