Opinião

O meu caso com frango assado (ou porque perdemos o Euro 2004) 

Não sei exactamente como começou o meu “love affair” com frango assado de churrasco, mas recordo-me algures na primeira metade dos anos de 1980, no início da minha adolescência, de ser algo a que os meus pais recorriam nas férias de praia, em Armação de Pera, no Algarve, a poucos quilómetros da Guia, a pequena povoação onde terá nascido o fenómeno em Portugal, ou pelo menos, a versão localmente conhecida como frango da Guia. Recordo, em particular, um episódio ocorrido num último dia de férias. A minha mãe sugeriu ao meu pai que fossemos andando para a churrasqueira, que ficava a poucos metros do nosso prédio, enquanto ela terminava de arrumar o apartamento. Instalámo-nos na esplanada e pedimos três unidades, uma por pessoa (um franguinho da Guia tem entre 600/700 gr, ao passo que um frango normal, que se vende na maior parte das churrasqueiras tem 800/900 gr e, nesse caso, conta-se meio frango por pessoa). O apetite despertado pela praia, misturado com o aroma que o frango liberta quando está a grelhar – sobretudo quando os pingos de gordura caem na brasa soltando o fumo que lhe dá um aroma tão característico -, fez com que tivéssemos devorado tudo em poucos minutos. O pior foi quando a minha mãe chegou e viu, com ar incrédulo, que não tínhamos deixado nada…  

Creio que fora do período de férias não tínhamos muito o hábito de ir a uma churrasqueira ou pedir frango assado em take away. A minha mãe era (ainda é) uma cozinheira de mão cheia e preparava diariamente as nossas refeições sem deixar muito espaço para que entrasse comida de fora. No início da minha vida adulta, quando vim para a universidade, em Lisboa, o frango assado – ou, para ser correcto, frango grelhado no carvão – passou a ser regular no meu quotidiano. Na verdade, nem tanto nos primeiros anos, mas, mais tarde, quando já estava a trabalhar. Era prático, absurdamente saboroso, barato e, por isso, algo a que toda a gente recorria (e recorre) com frequência, quer no final do dia, quando se chegava tarde a casa sem tempo ou vontade de cozinhar, ou quando se ia a casa de um amigo num convívio improvisado de última hora, como assistir a um jogo de futebol. 

Em 2004, Portugal organizou o Campeonato da Europa de futebol. A jogar em casa, a Selecção Nacional, com o brasileiro Scolari à frente, era uma das favoritas. O factor casa, um treinador que já tinha sido campeão mundial pelo Brasil e uma equipa formada pela “geração de ouro”, que incluía jogadores como Figo, Rui Costa, Deco ou um jovem muito promissor chamado Cristiano Ronaldo, conferia-lhe esse estatuto. Estávamos no Verão e como acontecia nos meses mais quentes do ano, passava quase todos os fins de semana no Meco, uma praia a uma hora a sul de Lisboa, onde, junto com a namorada da altura e um grupo de amigos, alugávamos umas pequenas (micro) casas de pescador que ficavam nas traseiras do Celmar, um restaurante conhecido e apreciado na zona pelo bom peixe e marisco. Nessa altura, após vários pedidos, o proprietário do resolveu colocar um ecrã gigante na esplanada para podermos assistir aos jogos. Eu não era muito adepto de ver futebol na televisão em grupo. Porém, o jogo de abertura, Portugal x Grécia, disputava-se num sábado à tarde e as temperaturas agradáveis desse fim de semana de Junho chamou-nos à praia. Nesse dia, uma meia hora antes do jogo começar já estávamos à mesa em grande actividade, entre saladas de polvo, mexilhões, ameijoas à bolhão pato, cascos de sapateira e muita cerveja a escorrer pela goela abaixo. 

Mal começou o jogo, o nervosismo e o pavor dos jogadores portugueses em ter a bola era evidente. Para piorar, Karagounis marcou logo aos 6’ para a Grécia e não faltou muito para se começarem a ouvir as primeiras críticas da plateia: “não jogam nada!”, “este Scolari não sabe escolher os jogadores!”, “o Rui Costa devia era reformar-se!”. Após uma primeira parte miserável, o segundo tempo não começou melhor para a equipa anfitriã, com os gregos a marcarem de novo no início fechando-se de seguida lá atrás. Um Cristiano Ronaldo imberbe, mas já muito talentoso, ainda marcou um golo no encerrar do pano, mas o que ninguém esperava tinha mesmo acontecido: Portugal perdia o jogo de abertura, com uma exibição medíocre, perante uma equipa sibilina que após marcar se fechava na defesa. Mais do que a humilhação, aquele jogo e o ambiente altamente pessimista em redor irritou-me de tal forma que decidi que não mais veria em grupo outro jogo do campeonato. 

A Selecção Nacional estava obrigada a vencer os dois jogos seguintes para poder chegar à etapa seguinte. O Rússia x Portugal estava marcado para as 19.45h da quarta-feira subsequente e, como tinha prometido, iria ver o jogo sozinho na televisão. Com os jogos, agora, a coincidirem com a hora de jantar, o protocolo impunha frango assado picante com batata frita (e uma salada, eventualmente), auxiliado por umas cervejas. Foi o que aconteceu daí para a frente. A conveniência tornou-se num vício que rapidamente passou a ritual e, jogo após jogo, a decisão tomada no final da irritante partida de abertura dava os seus frutos. Portugal não só começou a ganhar, como a jogar bem. 

Foi assim que gritei “golo!”, enquanto segurava uma coxa de frango, após Rui Costa acertar na baliza que nos levaria à vitória sobre os russos. Foi assim, no domingo seguinte, ainda com os lábios ardentes do piri piri, que saltei do sofá no instante em que Nuno Gomes rodopiou e chutou à entrada da área, marcando o golo da vitória sobre a Espanha. Foi também assim, ou melhor, com as mãos oleosas do molho – sim, porque frango assado come-se à mão –, que atónito, tal como dez milhões de portugueses, vi o guarda-redes Ricardo tirar as luvas para defender um penalty e decidir, ele mesmo, marcar o derradeiro que nos levaria às meias-finais, após um jogo disputadíssimo contra a Inglaterra. 

Porém, na penúltima etapa da competição algo de muito grave esteve prestes a acontecer: esqueci-me de reservar o frango e ninguém atendia o telefone. Pior, nessa quarta-feira, 30 de Junho, pelas 19h, a churrasqueira, que ficava ao lado de casa, estava fechada – o homem decidira ver o jogo e borrifar-se para os clientes. Mas como?! E agora?! Não dava como improvisar outra comida, nem queria. Tinha 45 minutos para desenrascar um frango. Havia um outro lugar, umas ruas acima, mas também estava encerrado. Subi à Rua da Graça, onde ficava a churrasqueira mais famosa do bairro, que eu evitava porque a fila era enorme, mesmo para quem reservava para levar. Claro, nesse dia, a espera ainda era maior e não tinha sequer a certeza de que houvesse frango quando chegasse a minha vez. Com alguma sorte, lá consegui levar um dos últimos. Fui a correr para casa e ainda cheguei a tempo de ver o primeiro golo de Ronaldo e, sobretudo, o magnifico tiro certeiro de Maniche disparado de um ângulo quase impossível. Portugal vencia Holanda por 2-1 e estávamos na final. Contra a Grécia… 

Entretanto, há vários jogos que os amigos insistiam para que víssemos os embates seguintes em conjunto. A insistência foi de tal forma, que acedi fazê-lo no derradeiro jogo. Mas, com uma condição: tinha de haver frango assado. E houve, tal como queijos, rissóis, croquetes, outras comidas e muita distração, dado que mais de metade do grupo estava ali pelo convívio e não necessariamente interessado em cada detalhe do jogo (alguns nem gostavam de futebol), ou na ritual ligação com frango assado. Não era um bom pronúncio, portanto. Porém, a equipa estava sólida, jogava bem e dava espetáculo. Desta vez, não havia mesmo hipótese de perdermos. Claro que não…após um canto, aos onze minutos do segundo tempo, de cabeça, Angelos Charisteas marcaria o único golo da partida, o golo que levaria a Grécia a sagrar-se campeã da Europa contra Portugal, em Lisboa, no estádio do meu Benfica.

Inacreditável. Tal como no primeiro jogo perdemos novamente contra os gregos que anularam a nossa equipa, mesmo que Figo, Ronaldo, Rui Costa e Deco tenham feito melhor figura do que na partida inicial. Aliás, tudo poderia ter sido diferente se, a um minuto do fim, no derradeiro remate do jogo, a trajectória da bola rematada por Luís Figo tivesse curvado uns centímetros mais à direita e entrando na baliza. Ou, desconfio – desconfio, não, estou praticamente certo -, se eu tivesse ficado em casa a ver o jogo sozinho apenas na companhia de um suculento e picante frango assado.

Texto publicado originalmente (em inglês) na Fare Magazine

Nota: A foto de abertura é da Rio de Mel, em Alvalade, e a segunda, da Valenciana. A primeira é a minha churrasqueira preferida, a segunda é o lugar onde mais vou buscar, sobretudo por uma questão de conveniência. Curiosamente nenhumas das duas é retratada no artigo. A terceira imagem é a do artigo original na Fare que teve ilustrações de Mantraste.


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3 comments on “O meu caso com frango assado (ou porque perdemos o Euro 2004) 

  1. Teresa's avatar

    Gostei de ler, fez-me rir e mais ainda ficar com vontade de um franguinho churrasco. Reconheci a fotografia e sei qual é a casa. Pergunto: porquê a fotografia sem identificação do local, ou terei visto mal?
    Teresa

  2. Mesa Marcada's avatar

    Olá Teresa, obrigado pelas palavras. Não deve ter reparado mas no final do texto há uma nota a propósito das fotos, onde são identificados os locais.

    Miguel Pires

    • Teresa's avatar

      Não reparei mesmo…as minhas desculpas e obrigada pela mensagem

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