Portugal reforçou a presença no 50 Best Discovery com três novos restaurantes e 14 espaços ligados ao vinho e ao enoturismo. À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma distinção internacional. Contudo, perceber como funciona esta plataforma e como são escolhidos os estabelecimentos que nela entram ajuda a compreender o que significa, afinal, passar a integrá-la.
Os três novos restaurantes portugueses são todos de Lisboa: Canalha, de João Rodrigues, Essencial, de André Lança Cordeiro, e SEM, o projecto criado por Lara Espírito Santo e George McLeod, que encerrou em Abril.
A actualização de 2026 acrescentou mais de 650 estabelecimentos à plataforma: mais de 210 restaurantes, 110 bares e 130 hotéis, além de mais de 190 propriedades vitivinícolas, integradas numa nova categoria. No total, o 50 Best Discovery reúne agora mais de 3500 lugares em mais de 800 cidades e localidades.
Na Península Ibérica foram acrescentados nove restaurantes: os três portugueses e seis espanhóis. Em Espanha, entraram OSA, Ugo Chan e Bascoat, em Madrid, Mont Bar e Compartir Barcelona, em Barcelona, e Bar Néstor, em San Sebastián.
O caso do SEM
Entre as entradas portuguesas, o caso do SEM é o mais singular. A notícia chegou depois de o restaurante ter encerrado, embora resulte naturalmente dos votos recebidos enquanto ainda estava em funcionamento.
Numa publicação no Instagram, Lara Espírito Santo e George McLeod reconheceram a estranheza do momento. Explicaram que só no último ano do SEM se permitiram ambicionar algo desta dimensão e que, mesmo assim, lhes pareceu uma espécie de sonho distante, uma situação de “SEM 2.0”.
A princípio, escreveram, o anúncio pareceu uma partida do universo. Depois, passaram a encará-lo como a confirmação de que estavam a seguir na direcção certa e como um incentivo para continuarem. A publicação termina, aliás, deixando claramente a porta aberta a uma continuação: a lagarta nunca foi o fim da história — e eles também não.
Mais do que uma incongruência, a presença do SEM mostra o inevitável desfasamento entre o período de votação, a validação dos resultados e a publicação da actualização. O próprio 50 Best explica que o Discovery é revisto em função dos votos mais recentes e que podem ser retirados espaços que tenham encerrado, mudado significativamente ou deixado de cumprir os critérios.
Afinal, o que é o 50 Best Discovery?
Há uma tendência para anunciar a entrada no 50 Best Discovery como se se tratasse de uma nova lista dos melhores restaurantes do mundo. Não é.
O Discovery não é um ranking, não atribui posições e também não tem um júri próprio. Funciona como uma extensão das diferentes listas do universo 50 Best, reunindo restaurantes, bares, hotéis e, agora, lugares ligados ao vinho que receberam votos dos membros das respectivas Academias.
Os jurados não votam directamente para o Discovery. Votam nas experiências que consideram as melhores para os diferentes rankings — The World’s 50 Best Restaurants, The World’s 50 Best Bars, The World’s 50 Best Hotels, The World’s 50 Best Vineyards e as várias listas regionais. A base de dados é depois construída a partir desses resultados.
Os restaurantes, bares e hotéis também não se podem candidatar. Para entrarem, precisam de receber um número mínimo de votos nas eleições das diferentes listas. A organização não revela qual é esse limiar, alegando que pretende evitar pressões e campanhas de lobbying junto dos votantes. A curadoria final da plataforma pertence, em qualquer caso, ao 50 Best.
Quando lançou o projecto, em 2019, a organização explicou que, até então, apenas revelava os restaurantes e bares com votos suficientes para entrarem nas classificações. O interesse do Discovery estaria precisamente nos lugares não classificados, cujos votos nunca antes tinham sido tornados visíveis ao público.
Uma mina de informação — também para o 50 Best
A criação do Discovery permitiu à William Reed, proprietária e organizadora do 50 Best, transformar milhares de votos que serviam sobretudo para elaborar os rankings anuais numa plataforma permanente de pesquisa e recomendação.
A própria organização descreve esses votos como uma “mina de informação” e apresenta o Discovery como um instrumento para quem procura restaurantes, bares e hotéis fora das listas classificadas. Em vez de reduzir o universo 50 Best às primeiras 50 ou 100 posições, a plataforma permite prolongar a marca ao longo do ano e dar visibilidade a centenas de outros espaços.
Esse alargamento também torna também o Discovery potencialmente mais útil para quem viaja. Um ranking mundial concentra inevitavelmente restaurantes de alta cozinha, destinos gastronómicos consolidados e lugares com grande projecção internacional. Uma base de dados mais extensa pode incluir projectos emergentes, favoritos locais e endereços menos óbvios.
Isto não quer dizer que todos sejam melhores do que outros restaurantes ausentes, nem que o Discovery ofereça um retrato exaustivo de cada cidade. Significa apenas que receberam votos suficientes dos especialistas que participam nas várias Academias.
Catorze espaços portugueses ligados ao vinho
A maior alteração desta edição é a entrada das propriedades vitivinícolas como nova categoria. A integração está ligada à incorporação do World’s 50 Best Vineyards no universo da marca e reúne lugares que figuraram nas listas daquela classificação nos últimos anos.
Portugal passa a estar representado por 14 espaços: Quinta do Seixo, Quinta do Bomfim, Quinta do Crasto, Quinta do Noval, Quinta do Vallado, Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Quinta da Pacheca, Quinta do Infantado, Graham’s Port Lodge, Taylor’s Port Cellars, Soalheiro, Quinta da Aveleda, Quinta da Taboadella e Herdade do Esporão.
A presença portuguesa está sobretudo concentrada no Douro e no vinho do Porto, mas estende-se também às regiões dos Vinhos Verdes, Dão e Alentejo. As fichas da plataforma incluem não apenas quintas e adegas, mas também caves visitáveis, alojamento, restauração, provas, visitas às vinhas e outras experiências de enoturismo.
A designação “Vineyards” pode, por isso, ser um pouco estreita quando traduzida literalmente. Nem todos os lugares são apenas vinhas: o conjunto inclui propriedades agrícolas, centros de visitas, hotéis, restaurantes e caves de vinho do Porto. Falar em espaços de enoturismo descreve melhor a diversidade da selecção portuguesa.
O que representa, então, esta entrada?
Seria exagerado dizer que Canalha, Essencial e SEM entraram numa nova lista dos melhores restaurantes do mundo. Mas também seria redutor tratar a inclusão como uma simples referência editorial sem qualquer critério.
Para os restaurantes, integrar o Discovery significa passar a fazer parte de uma plataforma construída a partir das votações das Academias do 50 Best, mas sem qualquer ordenação ou classificação pública entre os estabelecimentos. É um reconhecimento diferente de entrar num ranking e que, apesar de menos conhecido, contribui para dar maior visibilidade internacional aos projectos portugueses dentro do universo 50 Best.
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