É um percurso que, no mundo do vinho, talvez se possa comparar ao de um piloto que tenta chegar à Fórmula 1. Anos de preparação, sucessivas provas, investimento, persistência e uma selecção que deixa pelo caminho muitos profissionais experientes. Portugal já tinha tentado chegar lá. Agora, pela primeira vez, conseguiu.
Tiago Macena tornou-se oficialmente Master of Wine (MW), sendo o primeiro português a obter aquele que é um dos títulos profissionais mais exigentes e reconhecidos do mundo do vinho. Natural da Guarda, Tiago Macena é um dos sócios da No Rules Wines, responsável pelos vinhos Código, no Dão, e enólogo da Tarelo Wines, nos Açores. O título de MW culmina um percurso iniciado há 14 anos.
E não foi um caminho em linha recta. Macena entrou pela primeira vez no programa do Institute of Masters of Wine em 2012, interrompeu-o dois anos depois, para se dedicar à vida profissional e familiar, e regressou em 2017. Seguiram-se anos de estudo e várias tentativas até conseguir ultrapassar as exigentes provas teóricas e práticas, estas últimas com 36 vinhos analisados às cegas.
Faltava ainda a última etapa: o Research Paper, um trabalho original de investigação. Macena escolheu um tema particularmente ligado ao seu percurso profissional: a importância da casta Encruzado para a Região do Dão. A aprovação desse trabalho tornou agora oficial a sua entrada no Institute of Masters of Wine.
«É difícil resumir mais de uma década de estudo, provas, viagens, trabalho e muitas dúvidas num único momento. A conclusão deste caminho representa, naturalmente, uma enorme conquista pessoal e profissional», afirma Tiago Macena. «Estou muito feliz, e realizado, por finalmente poder dizer que sou Master of Wine.»
Um clube com pouco mais de 400 membros
O primeiro exame de Master of Wine realizou-se no Reino Unido em 1953 e o Institute of Masters of Wine foi criado dois anos depois. Desde então, o título tornou-se uma referência internacional no sector.
Os candidatos são avaliados em matérias que atravessam praticamente toda a cadeia do vinho, da viticultura e enologia ao negócio, e enfrentam provas de degustação às cegas. Só depois de ultrapassadas as componentes teórica e prática chegam ao trabalho de investigação que permite concluir o percurso.
Actualmente existem pouco mais de 400 Masters of Wine em todo o mundo. Entre eles encontram-se alguns dos mais conhecidos críticos, escritores e profissionais internacionais do vinho, como Jancis Robinson, Julia Harding, Tim Atkin, Jeannie Cho Lee, Lisa Perrotti-Brown ou o espanhol Pedro Ballesteros Torres.
No Brasil há apenas um: Dirceu Vianna Junior, que conquistou o título em 2008. E o seu nome cruza-se com esta história: Vianna Junior foi mentor de Macena durante parte da preparação para o exame prático.
A procura pelo primeiro MW português começou há mais de uma década
Em 2012, a Symington, em colaboração com a Revista de Vinhos e o próprio Institute of Masters of Wine, lançou uma iniciativa com um objectivo assumido: ajudar a formar o primeiro Master of Wine português. Promoveu em Vila Nova de Gaia uma formação para potenciais candidatos e disponibilizou bolsas para apoiar alguns dos participantes.
Dos 24 profissionais que decidiram realizar a prova de admissão, apenas nove foram aprovados. Macena estava entre eles, embora não tenha sido um dos beneficiários das bolsas.
Outros portugueses tentaram chegar ao título. Raúl Riba d’Ave, por exemplo, recebeu uma bolsa da Symington e frequentou o programa entre 2012 e 2017, mas não conseguiu ultrapassar o exame final. O enólogo Jorge Alves chegou também muito longe e, em 2014, era apontado como estando a um passo de poder tornar-se o primeiro Master of Wine português. Também não viria a concluir o percurso.
É este histórico que ajuda a colocar em perspectiva o resultado agora alcançado: vários profissionais portugueses tentaram chegar ao MW, alguns avançaram bastante no processo, mas nenhum tinha conseguido concluí-lo.
Das primeiras bolsas às Barca-Velha
O envolvimento de empresas portuguesas na formação de futuros Masters of Wine continuou entretanto. Em 2025, a Casa Ferreirinha, do grupo Sogrape, lançou, em parceria com a Gérard Basset Foundation e a Liquid Icons, as Barca-Velha Golden Vines MW Scholarships.
A iniciativa prossegue em 2026, agora com a Casa Ferreirinha e a Gérard Basset Foundation, e atribui anualmente duas bolsas de 35 mil libras para apoiar candidatos ao MW nos custos da formação, estágios e viagens. Os seleccionados passam também por Portugal para uma experiência nas propriedades da Sogrape.
Embora Tiago Macena não tenha sido beneficiário destas bolsas, criadas muito depois de ter iniciado o seu percurso, a iniciativa é outro exemplo do envolvimento de empresas portuguesas na formação de futuros Masters of Wine.
Uma história que começou e acabou no Dão
Foi em 2009, quando trabalhava como enólogo no Dão, que Macena participou numa reunião com dois Masters of Wine estrangeiros. Ficou impressionado com a capacidade daqueles profissionais para identificar e contextualizar um vinho apenas através da prova e começou então a interessar-se pelo título.
Três anos depois candidatou-se. Seguiram-se uma interrupção, um regresso e várias tentativas até, finalmente, concluir o percurso com um trabalho sobre a Encruzado e o Dão, a região onde começou profissionalmente.
Catorze anos depois daquela primeira candidatura, Portugal tem finalmente o seu primeiro Master of Wine. E o enólogo português já pode assinar: Tiago Macena MW.
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