Critica Gastronómica Restaurantes

Fim de tarde a petiscar no Spot da Fortaleza do Guincho

Aproveitei uma destas tardes longas e amenas de Primavera para ir desconfinar um pouco e acabei por pousar na esplanada da Fortaleza do Guincho, onde, desde há algum tempo, passou a funcionar o Spot, que complementa de forma mais descontraída o conhecido restaurante principal do hotel, chefiado por Gil Fernandes, distinguido com uma estrela Michelin. Segundo me informaram, a cozinha provém da mesma equipa, mas aqui os pratos são mais de partilha e de “petisco”, condizente com o espaço ao ar livre, que tem o mar como cenário, servidos o dia todo. Apesar de o espaço interior do bar também estar disponível, optei por uma mesa mesmo junto a uma ameia e, munido de apropriado agasalho, não me arrependi da opção.

Quando espreitei o menu fiquei algo receoso de lugares-comuns de tábuas de queijos e enchidos, de ceviche e salada de polvo, de choco frito, de saladas e sanduíches. Mas são tempos de arriscar e lá fui pelo ceviche (que era de lírio açoriano) e pela salada de polvo com batata doce de Aljezur. Já tinha pedido um gin tónico (com o grande Martin Miller’s, que nunca desilude, pedindo apenas para trocar a toranja por limão ou lima, o que foi feito de boa cara, sem melindres de “conceito” desrespeitado…) que me soube pela vida e foi com ele que acompanhei triunfalmente os dois petiscos. Apanhei um susto quando o ceviche chegou à mesa coberto por flores coloridas (na foto de abertura) e temi por sabores perfumados a corromper o peixe. Receio completamente infundado, já que estava absolutamente perfeito de equilíbrio, onde a presença da laranja e do coco dava um toque original. Belíssimo.

Salada de polvo com batata doce de Aljezur

Quanto à salada de polvo, o facto de este ter sido grelhado impunha um excesso de fumado ao conjunto, de que não gosto, mas a batata doce, também em chips e puré, fez com que tudo se atenuasse. Agradavelmente surpreendido, com a noite a cair, apeteceu-me continuar com um prato quente, tendo-me sido fortemente recomendada a massada de peixe. Ora aqui está algo que dificilmente pediria por iniciativa própria, já que lembra massas excessivamente cozidas e pedaços de peixe também passados do ponto a boiar em caldos. Mas acedi depois de alguns esclarecimentos e da insistência de quem me atendia – e não poderia elogiar mais a forma competente, bem educada e simpática com que tal aconteceu ao longo de todo jantar, fazendo jus à justa fama que o serviço de sala sempre teve nesta fortaleza.

Pois bem, que variação sensacional. Corvina “marcada” do lado da pele, com pedaços desta soltos e estaladiços, perfeitamente cozinhada, assim como a massa orzo, cujo formato se assemelha a um bago de arroz algo avantajado, com molho de carabineiro, servida numa cataplana pequena. Acompanhei com um copo de rosé Vinha Grande, que nem sempre encontro e que muito aprecio. No fim, café e uma conta que, para duas pessoas, ficou em pouco mais de 100 euros. Tendo em conta a qualidade da cozinha, do serviço e do cenário, acho que se justifica plenamente. Vamos ver se o tempo melhora de vez, porque fiquei cheio de vontade de ir lá provar outros “lugares-comuns”.

Massada de peixe

Spot by Fortaleza do Guincho

Fortaleza do Guincho, Estrada do Guincho, 2413, Cascais

Tel. 214 870 491 (não aceita reservas para a esplanada, é por ordem de chegada)

Aberto todos os dias entre as 11h e as 22h

Fotografias: Cristina Gomes


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