Opinião

O futuro das cidades e as mudanças na gastronomia

Há três dias, Brian Chesky, o CEO do Air Bnb lançou um pacote de mais de 100 recursos e novidades para os usuários do aplicativo. A palavra central do discurso de lançamento foi: flexibilidade.

Agora podemos escolher, por exemplo, ficar numa casa por 3 meses (ou menos), localizada num perímetro de 70 km (ou mais), numa propriedade que tenha piscina (ou não) e que na verdade nem precisa ser uma casa… O resultado da busca ainda pode incluir uma vinícola, um celeiro, um moinho ou uma barraca. O algoritmo e os filtros não devem ser engessados quando o usuário anda mais flexível do que nunca.

Finalmente, depois de 48 anos ouvindo o refrão da música genial de Raul Seixas, aprendemos que é preciso ser “uma metamorfose ambulante”.

O Covid-19 foi um atropelamento que ainda dói. Deslocou nossos quadris, o pescoço, os negócios, a relevância das cidades e a noção de tempo. A relação com o trabalho mudou de um jeito tão violento que tudo que aprendemos a querer, não existe mais.

Escritórios imensos entraram em decomposição até se tornarem esqueletos raquíticos com vocação para sala de reuniões eventuais, nas raras situações em que é necessário juntar toda a equipe. As corporações encolheram no espaço físico, mas as possibilidades continuam infinitas no mundo virtual.

Enquanto isso, aprendemos que é possível pôr a roupa para lavar, amanhecer numa cidade e dormir na outra, fazer a lição de casa com os filhos e voltar ao trabalho, como se nada houvesse. Há pesquisas que estimam que o teletrabalho aumentou a produtividade em 22%, e ninguém é louco de questionar algo que melhore eficiência. O mundo como o conhecíamos, não voltará.

Há dois dias, dei uma aula sobre cenários futuros, a pedido da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) em parceria com a Amplia Mundo, empresa que promove inovação em políticas públicas e negócios. Entre outras coisas, falei sobre uma das grandes mudanças globais, que afeta viajantes, empresários e funcionários: A RESIDÊNCIA SEMI-PRINCIPAL.

O termo, cunhado na França, mas germinado no mundo inteiro mostra que as pessoas andam preferindo ter um imóvel menor dentro de grandes centros urbanos e uma segunda casa numa cidade pequena, como duplo de escritório, para o trabalho remoto. E estão mais felizes.

Ainda agarrados à necessidade eventual da presença física no trabalho, empregados se despedem da primeira casa aos poucos, enquanto percebem que o lugar dos seus sonhos não precisa ser o das férias ou da aposentadoria. Ele pode ser deles, agora.

E a segunda morada, seja ela um apartamento, uma ilha ou uma cabana, muda inteiramente a dinâmica do território que a cerca. Lugares isolados agora rebolam para atender as demandas dos expatriados que exigem bebidas, pratos, itens de supermercado, transporte, iluminação, serviços de entrega, “streaming” e outros, que cidades pequenas não estavam habituadas a oferecer.

O tempo de permanência do visitante também mudou. O que costumava ser um passeio de fim de semana ou feriado desdobrou-se em estadas de dois ou três meses, o que fez com que a infraestrutura das cidades escolhidas para a segunda casa fosse profundamente impactada.

As estradas agora devem ser melhores, já que as pessoas querem ir e vir em trajetos de até 3 horas e o wi-fi deve ser rápido como um raio em cada canto da floresta ou da praia deserta, tanto para baixar uma folha de cálculo pesada de trabalho quanto para postar um vídeo no Instagram.

Há muitos desafios, mas também há oportunidades, especialmente na gastronomia. O nómada muda de cidade, mas não o faz sem levar um tanto de sua casa, junto.

Padarias de fermentação natural, cafés especiais, cervejas artesanais, uma grande oferta de vinhos, além de ingredientes e bebidas orgânicos são caprichos comuns e cotidianos do morador temporário, habituado à diversidade das grandes cidades. Mesmo preservando a identidade única de cada território, há um grande espaço para o aperfeiçoamento de produtos e serviços em localidades menores, e é por isso que todos os prefeitos do planeta, neste momento, coçam suas cabeças buscando formas de atrair mais pessoas do que a cidade vizinha.

A frase “minha casa é onde penduro o meu chapéu” já é uma verdade em minha vida há mais de 20 anos, desde que um laptop jurássico – aquela bigorna de 13 quilos – e a liberdade que ter o meu próprio negócio me permitiram trabalhar de onde quisesse. Desde então, escolhi ser como os beduínos, mongóis ou lapões, uma espécie de caçadora-coletora sempre em busca de melhores pastagens. 

O confinamento se impôs nestes tempos aflitos, mas o desejo de liberdade sempre vence. Não saiam de casa! – disseram. E obedecemos, mas não sem antes rebatizarmos a morada, reinventarmos o trabalho e o mundo como o conhecemos.

E assim dança o nosso chapéu.

7 comments on “O futuro das cidades e as mudanças na gastronomia

  1. A aula da Cris Beltrão, mencionada no brilhante texto, foi uma verdadeira obra-prima. Inspiração e leveza, assentados em conhecimento e profissionalismo raros de se ver.

    Que privilégio o nosso contar com a generosidade da Cris, sempre compartilhando muito.

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  2. Izabel Rangel

    Antes !
    Do Covid eu tive um sonho do que está acontecendo.
    Ontem eu comentei á um amigo sobre moradias que estou planejando colocar em prática.
    Agradeço !
    Seu conhecimento quanto a isto .
    Mas..vou lutar para minha loja que não é virtual para que novas gerações futuras saiba o que existi .
    Obrigado, pelo carinho.

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  3. Sempre maravilhosa Cris!

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  4. Maria Cecilia Bonadio

    Que maravilhoso esse texto e toda sua visão Cristiana!

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  5. Jota Marincek

    Adorei. Mês passado coloquei minha casa a venda para poder ter uma base pequena em SP e zarpar para a Serra da Mantiqueira.

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