Critica Gastronómica Restaurantes

Uma nova etapa na longa vida d’A Travessa

A Travessa, um dos mais bonitos restaurantes de Lisboa, aproveitou o período de encerramento obrigatório para se renovar, mudando de chefe e de pratos. Mas os que gostam desta casa situada no Convento das Bernardas, na Madragoa – onde se instalou há cerca de 20 anos, vinda do espaço original na Travessa das Inglesinhas, ali bem perto, onde foi fundada em 1978 – podem estar sossegados porque não houve “redecorações” modernosas e, sobretudo nestas noites mais aprazíveis, jantar no claustro continua a ser um programa muitíssimo agradável. Porém, na vertente gastronómica as mudanças são bem visíveis e talvez mais controversas. 

É bastante difícil a um restaurante já com umas décadas de existência renovar a sua oferta agradando a todos. Quando o faz, já se sabe que vão aparecer clientes “fiéis” – mesmo que não ponham lá os pés há anos – a reclamar pela perda de pratos que tanto lhes agradavam no passado. Por outro lado, não é seguro que os novos pratos signifiquem a conquista de novos clientes, sobretudo daqueles que têm consolidada uma determinada imagem do restaurante e sentem como algo inconsistente a mudança, como se o único objectivo fosse “actualizar-se” a qualquer custo.

A cozinha d’A Travessa está agora nas mãos de João de Oliveira, nascido em Lisboa há 39 anos, que vem de três anos como chefe executivo do Hotel Londres, no Estoril, tendo antes estado em restaurantes como o Volver, em Lisboa, e Porto de Santa Maria, no Guincho. A carta foi inteiramente renovada, mas os proprietários, Vivianne Durieu e António Moita, que sempre foram as figuras marcantes da casa, indo às mesas e apresentando sugestões aos clientes, asseguraram que alguns produtos “emblemáticos” se mantivessem, ainda que com receitas alteradas, caso, por exemplo, da raia, antes servida na tradicional “beurre noisette”, agora num “minestrone” com pesto de amêndoa, ou do tornedó de touro bravo, agora com um acompanhamento vegetal de beterraba, cherovia e alho-francês.

Foi para conhecer esta nova etapa da vida da casa – onde vou desde os tempos em que ainda nem sonhava que um dia ia escrever sobre restaurantes – que os proprietários me convidaram para experimentar alguns dos pratos. Tal como sempre foi costume da casa, o cardápio d’A Travessa continua curto, com seis entradas, três pratos de peixe, outros tantos de carne e um vegetariano. Não tomei nota das sobremesas, mas não devem ir muito além destes números. Acho muito bem esta aposta em poucos pratos, que pressupõe produtos mais frescos e melhor funcionamento da cozinha, geralmente dificultado por listas extensas.

No entanto, pouco depois me sentar numa mesa do claustro, abençoado pela luz do fim destas tardes longas de Junho, apercebi-me logo de uma mudança num aspecto que, desde os anos 80, quando comecei a frequentar a casa, caracterizava e distinguia A Travessa dos demais restaurantes que então existiam em Lisboa: a sucessão de acepipes que vinham para a mesa mesmo antes de escolhermos os pratos. Eram coisas que hoje nos parecem bastante inocentes, como camembert panado com compota de frutos vermelhos, um mexilhão gratinado, cogumelos com molho de manteiga, tâmaras com bacon, pimentos Pádron…O próprio António Moita vinha à mesa trazer uns ovos mexidos na altura, com espargos ou cogumelos, uma fatia de porco preto assado, umas lamejinhas… Estes acepipes foram variando e actualizando-se, mas gostava imenso deles, acompanhados por uma cerveja de trigo belga, punham-me logo de boa disposição.

Pois bem, acabaram. António Moita explicou-me que começaram a ver, sobretudo nas redes sociais, que vários clientes, entre os quais se encontram actualmente muitos turistas e estrangeiros residentes, não achavam grande graça a este desfile de acepipes não pedidos, que era comida a mais, que ficavam caros, que não sei o quê. Além disso, nem sempre conseguiam servi-los nas condições adequadas de temperatura e complicavam o funcionamento da cozinha. Compreendo, mas lamento esta decisão, gostaria que a reconsiderassem, embora ache natural que adaptem este momento da refeição aos dias de hoje. Mas era uma característica da casa que tenho pena que se perca.

Corvina, queijos, tornedó de touro bravo e panna cotta

Quantos aos pratos provados, foram, nas entradas, vieiras braseadas, com presunto, gengibre, poejo e ervilhas (custam 16 euros), que estavam bem feitas e harmonizavam com os restantes ingredientes, e perdiz salteada, com nabo, couve-flor, cenoura e laranja (15 euros), com a ave um pouco rija, mas saborosa. Os pratos do chefe João de Oliveira destacam os vegetais como acompanhamento, seguindo as tendências actuais. Nos pratos principais, corvina de anzol com risotto de algas (26 euros) – pedido por quem me acompanhava, eu continuo a evitar “vegetais do mar” -, com o peixe num bom ponto e o arroz sem exageros de iodo. E o tornedó de touro bravo já referido, com a carne muito saborosa, mas com algum excesso de doçura nos acompanhamentos. Nas sobremesas, um prato de queijo muito agradável e uma panna cotta que não me deixou recordações. Tudo bem acompanhado pelo Palpite Reserva 2018 (40 euros), que me foi aconselhado, um branco alentejano feito por António Maçanita, que não conhecia e cuja complexidade muito me agradou.

Uma coisa que nunca muda n’ A Travessa é a simpatia e o profissionalismo de Vivianne Durieu e de António Moita. Gostei de ver que eles continuam empenhados e dar continuidade a este belo restaurante, que foi acompanhando as mudanças que a cidade sofreu nas últimas décadas. Tomara que, como o novo chefe, com quem conversei brevemente e que me causou boa impressão – de alguém que compreende o local onde agora oficia e está igualmente empenhado – consigam adaptar-se a estes tempos que já cheiram a pós-pandemia, afinando os pratos e conseguindo resolver a difícil equação de agradar a velhos e novos clientes. Já agora, para terminar, não será mesmo de voltar com os acepipes?

A Travessa

Trav. do Convento das Bernardas, 12, Lisboa

Tel. 213 940 800

Só jantares. Fecha ao domingo

Fotografias: Cristina Gomes

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

1 comment on “Uma nova etapa na longa vida d’A Travessa

  1. Maria Ruivo

    Experiência a repetir , continua a ser o melhor restaurante de Lisboa!
    Serviço, ambiente e comida, excelentes!

    Gostar

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