Beber Notas

Sair de uma prova de vinhos com duas ideias e uma descoberta

Já me dou por satisfeito quando saio de uma prova de vinhos com uma ideia ou duas. Na verdade, quando o número de garrafas supera os quatro ou cinco exemplares, acabo por desistir de tentar registar aqueles detalhes que fazem a felicidade dos entendidos, desde o aroma a frutas pretas até à forte mineralidade, passando pelos açúcares residuais, facto a que não será alheio a repugnância que tenho em cuspir os néctares em análise, evitando cuidadosamente reparar nos especialistas que o fazem com grande à vontade. Percebe-se, portanto, que as provas de vinho, quando não inseridas numa refeição, estão longe de ser um programa do meu agrado, mas desta vez, como há muito tempo que não frequentava nenhuma, abri uma excepção para ir ao lançamento-prova dos vinhos da Quinta Dona Sancha, do Dão, região pela qual nutro grande simpatia, que decorreu recentemente no restaurante Eleven, em Lisboa. Seguia-se um almoço, mas, desafortunadamente, havia ali mesmo um outro almoço para a Comunicação Social para mostrar o menu com que o chefe Joachim Koerper está a comemorar os seus 50 anos de carreira, ao qual não poderia faltar, e de que darei conta em futuro post.

Os vinhos da Quinta Dona Sancha são originários de 22 hectares situados em Silgueiros, aproveitando vinhas velhas e também algumas recentemente plantadas com castas típicas da região. Os enólogos são Paulo Nunes e Mafalda Perdigão e a primeira coisa que gostei foi ouvir que discordam da aposta quase exclusiva nas chamadas “castas-rainhas” do Dão –  encruzado, nos brancos, touriga nacional, nos tintos -, optando por uma saudável misturada que, aliás, na minha modesta opinião, caracteriza os melhores vinhos portugueses de todas as regiões, excepção feita à baga, na Bairrada, ao ramisco, em Colares, e alguns brancos, como o alvarinho, em Monção-Melgaço, ou o arinto, em Bucelas. Assim de repente, não me lembro de mais nenhum caso significativo nos vinhos de mesa. Para um país de vinhos antigos como Portugal, parece-me completamente inapropriado o discurso novomundista de “aposta” em “castas-rainhas”, como se dessa maneira melhor se combatessem os cabernets sauvignons e os chardonnays extra-europeus nas prateleiras de quaisquer supermercados ingleses ou americanos.

Voltando à prova no Eleven, serviu-se primeiro o branco Dona Sancha 2020 (11,5 euros, nove mil garrafas), que leva encruzado, malvasia fina, cerceal branco e bical, que me agradou, mas com um preço algo acima do que poderá valer. Depois, um rosé Dona Sancha 2020 (11,5 euros, 2800 garrafas), com touriga nacional e tinta roriz, algo enjoativo e de novo caro. A gama mais básica do produtor completou-se com o tinto Dona Sancha 2019 (11,5 euros, 22 mil garrafas), com jaen, touriga nacional, tinta roriz e alfrocheiro. Deste, não gostei de todo, achei mesmo difícil de beber. E, como se pode adivinhar, caro de mais.

As vinhas em Silgueiros

Estava a ficar desanimado e a maldizer a excepção que tinha feito à minha ausência de provas destas, quando chegou um vinho sensacional. Tratava-se do branco Dona Sancha – Vinha da Avarenta 2019 (16 euros, seis mil garrafas), que deve o seu nome à parcela onde é produzido, com cerca de 50% de cerceal branco, completado com malvasia fina e bical. Com um perfil muito original, aroma discreto e elegante, óptimo de beber até sem comer nada, não poderia ter gostado mais e desta vez achei o preço muito adequado. E, depois das elucubrações sobre “castas-rainha”, aqui está a segunda ideia que levei desta prova: o cerceal branco pode dar origem a belíssimos vinhos do Dão, não é preciso recorrer ao encruzado (casta que aprecio, não quero ser mal entendido, assim como a touriga nacional, mas escusam de armar em ditadoras). 

Da simpática Vinha da Avarenta, veio também um tinto de 2019 (16 euros, seis mil garrafas), com touriga nacional e jaen, bem mais complexo e elegante do que o tinto anteriormente provado, embora ainda esteja muito novo para ser aberto. Segundo os enólogos, é provável que o envelhecimento lhe faça bem e tomara que assim seja, porque o Dão tem bons pergaminhos nessa matéria. Por fim, um novo branco, desta vez um monovarietal de encruzado, sem data de colheita (30 euros, 2700 garrafas), muito marcado pela madeira, com fermentação em barricas de carvalho francês e estágio de seis meses no mesmo tipo de barricas. Tinha o seu interesse, mas achei-o um pouco pesado e, lá está, com preço elevado. Mas não faz mal, já estava bem disposto, tinha duas ideias para levar e um vinho – o tal do cerceal da avarenta – para a minha lista de descobertas. Valeu a pena.

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

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