Opinião

A arte poética da cerâmica do Studioneves

João Grinspum Ferraz

A cerâmica utilitária, como arte aplicada que é, se ressente de sua proximidade com a indústria: seu valor é sempre comparado a produtos inferiores, mais seriados e baratos. Seus artistas, menos mencionados e, quando tal, comparados de certa feita com robôs, ou então com artistas plásticos cujo compromisso criativo nunca é com o uso e a repetição. Por isso, e só por isso, escapa aos nossos olhos o nome de algumas personagens cujo trabalho é grandioso, marcado por pesquisa seria, seja no campo da estética, seja no campo da técnica.

O trabalho e a pesquisa destes poucos lhes garante uma evolução constante, marcada pelo aprimoramento técnico e pelo alargamento de uma poética própria, digna das mais nobres artes. Ao Studioneves é reservado esse lugar: Gabi e Alex são verdadeiros – e grandes – artistas dessa arte. É notável sua preocupação na construção de um repertório próprio de referências que circunda o mundo das artes plásticas e que, no seu trabalho, busca diálogo com a história da cerâmica, sobretudo com a história e tradição da cerâmica no Japão. Não bastando o universo das artes, era notável, desde quando tinham seu ateliê no Brasil, a presença de uma farta literatura sobre gastronomia contemporânea dos mais diversos lugares do mundo, ao redor de seus trabalhos. Era importante estar conectado com o universo a que seu trabalho desejava servir.

Partiram do Brasil – atravessaram o Atlântico – não por motivos cotidianos, mas por esgotarem aqui as estruturas oferecidas pelo país: partiram em sua nau no caminho reverso ao de seus atuais conterrâneos, e ali fixaram-se, buscando novos e maiores alicerces, que dessem conta do talento de sua produção. Nesse sentido, dois movimentos marcantes podem ser notados em sua evolução. De um lado uma oferta mais rica de materiais como o barro e os diversos pigmentos usados na pintura do prato e, de outro, uma possibilidade de abertura comercial para o continente europeu. Portugal seria sua porta de entrada – como de fato foi.

Outro dado fundamental na evolução do trabalho da dupla foi a expansão de recurso técnicos: o primeiro movimento foi suscitado pela possibilidade de estabelecimento de um ateliê maior e com um forno maior e com maior amplitude de recursos tecnológicos. O segundo, notável, avanço foi a expansão de sua linguagem para o campo da louça branca refinada. Diante de dificuldades encontradas no diálogo com alguns restaurantes – sobretudo na França – a resposta foi a abertura desse campo de trabalho, unindo o tradicional acabamento apurado dessa linguagem, com a poética contemporânea já característica do Studioneves. O resultado, surpreendente – refinado e contemporâneo – atualizou o próprio campo da cerâmica aplicada à alta cozinha, tornando-se capítulo próprio e obrigatório em uma visão panorâmica sobre esse assunto. Temas riscados, com quebras e com desenhos cuneiformes – que remetem às primeiras formas de linguagem escrita da humanidade – trouxeram uma lufada de ar fresco à temática que, até então, pairava entre uma louça mais tradicional que predominava na alta restauração francesa e norte-americana e uma louça mais rebuscada que se celebrizou com seu uso pela vanguarda espanhola, em lugares como o elBulli, El Celler de Can Roca e Quique Dacosta Restaurante.

Hoje, as obras do Studioneves – pratos, canecos, potes e cuias (taças) – ocupam não apenas as melhores mesas brasileiras e portuguesas, mas sim vários dos grandes restaurantes do mundo, cujo trabalho de vanguarda busca um suporte – ou “moldura”, como Alex costumava chamar – adequado às comidas que estão sendo inventadas pela cabeça de geniais criadores de uma outra nem tão pouco negligenciada arte aplicada: a gastronomia.

João Grinspum Ferraz é Doutor em História e mestre em Ciências Políticas. Actua como pesquisador e professor, com foco em História da Cultura. Trabalha em projectos sobre a cultura brasileira desde 2005, em 2008 foi curador do Museu do Pão de Ilópolis (RS) e em 2012 foi co-curador da exposição “Histoires de Voir, Show and Tell” na Fondation Cartier pour l’art Contemporain, em Paris. Desde 2014 dedica-se também à pesquisa na área de cultura e alimentação. Criou e dirigiu o documentário “Behind the Plate”(“A Terra e o Prato”).

1 comment on “A arte poética da cerâmica do Studioneves

  1. Sem palavras pra agradecer essas palavras que nos engrandecem o trabalho e a alma.
    Obrigado querido João!

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