Critica Gastronómica

Casa Reîa, um almoço agitado num domingo de Verão

Aberto em Abril de 2022, na Praia da Cabana dos Pescadores, a 20 minutos (sem trânsito) de Lisboa, a Casa Reîa apresenta-se como “um beach club holístico que explora e combina experiências gastronómicas, musicais e sensoriais”.  Ao todo, são 600 m2 de área (interior e exterior) que permitem acolher até 340 pessoas e que incluem, além do espaço de gastronomia/restaurante (com áreas interiores e exteriores), loja, café, cocktails (no interior e no bar que dá apoio à praia), música, eventos e actividades como yoga. O projecto ressurgiu de um outro, o Yamba, um bar de praia “holístico” que fez sucesso na zona, entre Maio de 2019 e Maio de 2021, altura em que sucumbiu a um incêndio, cuja origem nunca foi verdadeiramente apurada. Pelas imagens e características do primeiro, a que estavam ligados duas das principais caras do a Casa Reîa, o francês Sacha Gielbaum e a sua companheira franco-inglesa Melody Sanderson, este lugar recupera o conceito do anterior fazendo um upgrade com mais valências, nomeadamente no espaço (com outra estrutura) e uma componente gastronómica mais ambiciosa, a que não é alheia a entrada, como sócio, do macedónio Emil Stefkov, empresário com restaurantes em Nova Iorque e investidor no sector tecnológico.  

35ºC à sombra, vamos à praia? 

Foram vários os motivos que me levaram á Costa da Caparica naquele domingo de finais de Junho: o calor insuportável que fazia em Lisboa, o facto de ser difícil manter uma criança de 4 anos em casa com esse tempo, a recomendação médica para que ele fizesse praia e, porque, sendo a Costa conveniente (perto e com algumas boas praias), achei que saindo cedo, mesmo a um domingo, talvez conseguisse escapar ao trânsito. Quanto à Casa Reîa, mesmo não pertencendo à tribo “hoolistica”, pareceu-me um lugar onde daria para comprar umas horas de paz em frente ao mar (no espaço de praia concessionado) e almoçar decentemente no restaurante, tudo no mesmo local. Não seria barato, mas na véspera, à falta de grandes alternativas, pareceu uma ideia razoável. 

Bom, pelo menos em teoria, porque houve uns milhares de pessoas que tiveram uma ideia parecida. Poupo-vos de todos os detalhes, mas deixo o aviso: se pretenderam mesmo ir num domingo saiam de Lisboa (se for o caso) às 7.30h e não às 9.30h, assim talvez evitem uma hora e meia por um percurso que se faz em vinte minutos. Isto para não falar que, ao madrugarem, pode ser que escapem de ter de estacionar num lugar longínquo, sujeito a reboque, à beira da estrada, em virtude de o parque estar cheio.  

Valha-nos que, mesmo numa tribo, os hábitos não são iguais e os madrugadores adeptos do Casa Reîa eram poucos nesse domingo: meia dúzia de yogis, impávidas e serenas na sua prática, aparentemente imperturbáveis com o calor (que inveja!). Portanto, passada a tormenta inicial conseguimos facilmente marcar mesa e alugar um guarda-sol com duas camas. 

  • Esplanada do Casa Reia (fotos Casa Reia)
  • Vista do exterior do Casa Reia (fotos Renato de Val/Casa Reia)
  • Zona exterior do Casa Reia (fotos Casa Reia)
  • Sala interior do Casa Reia (fotos Casa Reia)

Pelas 12.30h, com o espaço a preencher-se a bom ritmo, dirigimo-nos a quem estava a coordenar as reservas que chamou outra funcionária que nos encaminhou a uma mesa no exterior. O procedimento foi rápido e feito de forma cordial, mas a tensão no rosto de ambas era evidente. E percebia-se a razão. A fila de pessoas que se acumulava à entrada era cada vez maior e adivinhava-se um certo caos. Pelo que entendemos, o trânsito multiplicou os atrasos e fez com que muitos clientes chegassem em simultâneo. Cá fora, o calor continuava impiedoso e a zona da nossa mesa, embora protegida do sol, parecia uma estufa. Ainda esbocei um pedido para nos mudarem para o interior, mas percebi que não ia fazer diferença, pois o aparelho de ar condicionado portátil não conseguia dar conta do recado. Restava-nos, portanto, não complicar e tentar, dentro da medida do possível, desfrutar do almoço. 

A ementa do Casa Rêia cruza influências mediterrâneas (europeias e do Médio Oriente), com um toque brasileiro pelo meio, tendo como figura central um forno/grelhador Josper, de onde sai boa parte das propostas. Os autores da carta são o brasileiro Dário Costa (que, entretanto, se desligou do projecto), o israelita Udi Barkan e o compatriota do primeiro, Pedro Lima, que é o chefe executivo. 

Nesse dia, havia alguns pratos crus como um tártaro de atum, carpaccio de carabineiro e sashimi de lírio – descritos de forma mais alargada e interessante –, mas dadas as condições atmosféricas resolvemos não arriscar. Demos prioridade à criança, que aviou com agrado um filete de robalo – naturalmente de viveiro – servido com batata frita e salada (14€) e ainda se atirou ao pão de fermentação natural deixando-nos as côdeas que mergulhámos na boa manteiga de laranja com cogumelos e no azeite com harissa e zaatar, que acompanhava – um bom couvert, mas inexplicavelmente caro (10€).

Agradáveis, os três pratos à base de vegetais que pedimos: salada de kale, abóbora, “queijo” de caju maturado, vinagrete de mostarda com mel de cana e cogumelos; courgete grelhada, feijão branco, granola de especiarias e pickles de jalapeño; e baba ganoush de beringelas assadas no forno a lenha, pistáchios, hortelã e malagueta. Cada um, à sua maneira, cumpriu bem os preceitos que desejo de um prato (vegetariano ou não): sabor, boas conjugações e uma certa personalidade (mesmo quando a base é mais óbvia).

O polvo grelhado com molho aioli demorou a chegar. No prato, vinham quatro tentáculos de um espécime de porte pequeno, bem cozinhados (ligeiramente resistentes ao dente, como prefiro) e aprazíveis no palato, com um toque de fumo próprio da cocção no Josper. À parte, como acompanhamento, pedimos os vegetais do dia assados na brasa, em que se destacavam dois tomates num molho, quase um puré, também de tomate assado. Não foi consensual, mas pactuou com o molusco. 

De sobremesa, entre as três disponíveis, a escolha recaiu na “torta” (termo brasileiro para tarte) de requeijão com coulis de frutos vermelhos. Com um ligeiro toque chamuscado no topo, a revelar a passagem no forno a lenha, a tarte tinha uma boa textura (como um bolo húmido) e doçura equilibrada. Já o coulis, embora agradável, vinha um pouco desligado (se a ideia é mesmo assim, mais valia chamarem-lhe molho rústico, ou algo do género).

Claro, nesse dia, com a quantidade de gente para servir faltou afinação: sal a mais aqui, demasiado picante ali e umas folhas de salada por temperar em três dos pratos (quando só tinha sido pedido para vir assim no da criança). Por si só, não disto seria grave, mas o descuido tornou-se notório quando acumulado com outras falhas, essas sim, menos toleráveis, tendo em atenção “a excelência” que querem vender e os preços (altos) que praticam. Por exemplo, foi evidente a descoordenação entre a cozinha e a sala com os três primeiros pratos a virem ao mesmo tempo, enquanto o polvo demorou uma eternidade. Por outro lado, ainda que parecesse não haver falta de pessoal de sala – que de modo geral foram simpáticos – foi notória a diferença de experiência e de conhecimento entre eles, nas explicações, quando se tentava tirar alguma dúvida, ou na forma como se movimentavam, como se houvesse sempre um fogo para apagar. Este corrupio e a incapacidade de oferecer um bom produto quando a lotação está no máximo, passa uma imagem oposta à do conceito de “boas vibrações” do lugar. Depois, há ainda a questão da terminologia da ementa em português. Utilizar termos como “torta” em vez de tarte, ou “salsa” em vez de molho devia ser corrigido, dado que ambos os termos possuem um significado diferente em Portugal (tal como chamar desnecessariamente “gambero rosso”, ao carabineiro). 

Em relação às bebidas, diria que se estivéssemos num lugar similar, no Sul de França, nove em dez mesas estaria a beber um daqueles rosés clarinhos da Provence, cujo estilo (para o bem e para o mal) foi adoptado um pouco por todo o mundo. Porém, no Casa Reîa, vi mais água, cerveja e cocktails nas mesas do que vinhos. O calor pode ajudar a explicar o porquê, mas certamente que o preço dos vinhos é capaz de ter a sua quota parte na razão, uma vez que não há uma única garrafa abaixo de 40€. É de lamentar, porque a carta até tem critério, com uma boa selecção de vinhos de pequenos e médios produtores portugueses e estrangeiros – acompanhámos a refeição a copo, com dois vinhos adequados à comida e ao lugar: Cortinha Velha Alvarinho Reserva 2021, de Monção Melgaço e com o Ameixâmbar Colheita Seleccionada 2020, um branco açoriano da Adega do Vulcão. Contudo, é difícil abstrairmo-nos dos preços elevados, sobretudo porque a qualidade do serviço não o justifica. Os copos eram banais, o aconselhamento com conhecimento de causa não existiu e as temperaturas dos vinhos e dos copos foram difíceis de controlar. Chegou-se ao ponto do empregado sugerir uma pedra de gelo, quando me queixei que o copo estava quente – mas vou dar o benefício da dúvida, pode ser que a sugestão fosse para arrefecer o copo vazio e não o vinho, embora tivesse sido dada quando já estava a servi-lo. Por fim, com a conta, a cereja no topo do bolo: com é cada vez mais hábito em muitos restaurantes – sobretudo da área de Lisboa – a gorjeta vem acrescida na conta, com a referência, escrita ou oral, de que é facultativa. O assunto é polémico e há muitos clientes portugueses que ficam indignados. Não é o meu caso. Quando não concordo, peço para retirar e, se se justificar, dou o valor que entendo à parte. Só que, no caso, a menção dos 10% de “serviço incluído”, ainda que bem visível, não vinha referida como opcional nem foi mencionada pelo empregado, o que me pareceu um abuso. Todavia, quando pedimos para retirar, o mesmo foi feito sem qualquer problema. 

É provável que a experiência durante um dia mais calmo, de semana, ou fora da época alta, seja melhor e disfarce o tipo de serviço mais de acordo com o de um bar, como pouca especialização, do que o de um restaurante de um clube de praia que pretende distinguir-se dos demais. 

Cozinha: 15.5; Sala:13; Vinhos:15

Preço médio com vinho, 60/70€ (por pessoa). Pagou-se pela refeição descrita para duas pessoas (com àgua e café): 145€ + 14€ pelo menu infantil. 

Praia da Cabana do Pescador 2825-491, Costa da Caparica 

Telefone: 937 346 841. Reservas apenas através do site http://www.casareia.com/reservations

Horário: Segunda a quarta:13h às 18h Quinta das 13h às 20:00 Sexta/Sábado/Domingo das 13:00 às 22:00

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos Nº405


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Co-autor do Mesa Marcada. Escreve sobre gastronomia no Público, Revista de Vinhos (crítica gastronómica) e em títulos internacionais como Cook Inc (Itália), Eater.com (EUA) e Gula (Brasil). É autor do livro “Lisboa à Mesa - Guia onde Comer. Onde Comprar”, com edições em português, inglês e espanhol (na Planeta).

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