Notas Opinião

Como foi a 1ª Gala do Guia Michelin Espanha sem Portugal? 

Desde há pelo menos um ano que era do conhecimento geral que Portugal e Espanha iriam passar a ter, pela primeira vez, guias separados a partir da edição de 2024. Na verdade, falar de separação de guias aqui é algo simbólico porque fisicamente as edições impressas praticamente já não existem, ou existem para restaurantes e meia dúzia de aficionados, sendo que, na prática, a aposta está no digital, onde a separação dos dois países já existia. 

O que é novo é a existência de mais recursos dedicados ao nosso país, o que se traduz em mais conteúdos em português e sobre estabelecimentos locais, que tem resultado em novas entradas, ao longo do ano, na versão digital actualizada da publicação. À partida, estas entradas passam a existir no guia anual e algumas poderão alcançar as valiosas distinções (estrelas ou outras). Do acordo estabelecido e financiado por várias entidades portuguesas (públicas e privadas) existem ainda vários eventos e conteúdos destinados a promover a gastronomia portuguesa, o país como destino gastronómico e uma cerimónia própria que se realizará, em Fevereiro, no Algarve, sobre a qual haverá novidades em breve.

Para já, falemos da gala do Guia Michelin Espanha 2024, que se realizou esta terça-feira, em Barcelona.

Longe vão os tempos em que a cerimónia ibérica era uma festa de revelação das estrelas centrada nos convidados, quase todos espanhóis, mais meia dúzia de portugueses. Nessa era pré histórica, pré redes sociais, os restaurantes portugueses ficavam a saber se tinham ganho ou perdido estrelas através de um telefonema – um papel que cabia sempre, ou quase sempre, ao Duarte Calvão.

Desde há uns bons anos para cá, com as redes sociais e com a transmissão em streaming, qualquer um pode ver o evento à distância e ter acesso aos resultados no momento. E é por isso, também, que as cerimónias evoluíram: estão mais espectaculares, mais tecnológicas, mais televisionáveis, mais instagramáveis (desculpem, ainda não consigo escrever tiktokáveis) e servem, além de uma celebração em volta de uma comunidade gastronómica – profissionais de restauração, imprensa & influenciadores digitais e patrocinadores e fornecedores) mostrar, também, um certo poder. E, nisso, a gala espanhola (e já antes a ibérica, que apenas se realizou uma vez em Portugal) não tem igual. Comparada, a gala francesa, a que já assisti, parece uma celebração regional e, e nenhuma das outras, pelo que tenho visto por aí, se aproximam, sequer.

No ano passado, em Toledo, e já com já com o negócio fechado com as entidades portuguesas, tivemos o Ricardo Costa (o do Yeatman, não o da SIC) no palco a co-apresentar a secção portuguesa. Recordo-me, na altura, de ele dizer, meio a sério meio a brincar, que não achava grande graça a esta história de separar as cerimónias, pois adorava vir a Espanha, nestes momentos, comer e celebrar com os amigos de ambos os países. As cerimónias mantêm-se separadas (não se sabe muito bem com que custo, mas todos acham muito positivo, que terá mais benefícios) mas a dica deve ter sido ouvida nos escritórios da marca, em Madrid, pois marcaram presença na gala de Barcelona todos os chefes de Portugal com duas estrelas (com excepção de Hans Neuner) e vários dos que detêm uma estrela, como é visível também nesta foto no almoço de “aquecimento”  no 3*** Lasarte, de Martin Berasategui e Paolo Casagrande. 

Na festa não se lhes via a mesma cara de felicidade de quando recebiam a jaleca alusiva às estrelas no palco, mas sentia-se naturalmente uma maior descontração no ar. 

A gala, em si, foi espectacular, como se esperava: com todos os recursos audiovisuais possíveis, um apresentador humorista local famoso (que levou o assunto com profissionalismo, mas com graça), mudanças de cenário e suspense. Também teve momentos chatinhos, como os interlúdios musicais e os discursos demasiados longos dos patrocinadores e, sobretudo, das entidades oficiais – são estes dois últimos que viabilizam a existência destas cerimónias e por isso são sem dúvidas fundamentais, mas, estou em crer, pelas reacções dos presentes que todos ganhavam se as suas intervenções fossem mais curtas e incisivas. Ainda assim, houve um esforço da organização para que apresentação dos prémios fosse mais curta depois da seca de mais de três horas do ano passado – acabou por durar pouco mais de duas horas.

Quanto aos resultados. Primeiro, houve os prémios especiais, que me pareceram unanimemente aceites e por isso muito aplaudidos:

 A Josep Roca foi atribuido o novo prémio de Sommelier do ano (com o apoio da Vini Viniteca), prémio a que o emblemático escanção do Celler de Can Roca dedicou  a toda a equipa e, em especial, a Daniel Redondo, o “4º Roca” (que foi também co-chef do Maní, em São Paulo), recentemente falecido. 

Depois, foi a vez de Joan Carles Ibáñez, do Lasarte, receber o Prémio Especial Serviço de Sala Michelin 2024, entregue pela The Glenrothes; seguindo-se o Prémio Especial Chef Mentor 2024 a Juan Mari Arzak, entregue pela Blancpain, à sua filha Elena; e, por fim, o Prémio especial Jovem Chef 2024, entregue pela Makro, à chef Martina Puigvert, do 2*  Les Cols, em Olot, na Catalunha, que segue (com as suas irmãs) os passos da sua mãe, Fina Puigdevall. 

Após os prémios especiais, entrámos então nas estrelas, com o desfile a começar com os novos 1* estrela, que pareciam não caber no palco. Além de representarem 31 restaurantes havia várias duplas (os nomes e locais podem ser vistos no final do texto). Confesso que fiquei um pouco assustado porque achei que conhecia relativamente bem a cena gastronómica espanhola e reconheci poucos dos que subiram ao palco – porém, mais tarde, fiquei um pouco mais descansado, porque ao falar com alguns chefes espanhóis famosos, disseram, também eles, conhecer poucos destes novos nomes – alguns serão primeiros restaurantes abertos há pouco tempo, por exemplo. 

Depois de distribuir “1* estrela” como se não houvesse amanhã, bem como os 12 novos estrelas verdes, pensava-se que vinha aí uma chuva de 2** estrelas. Mas não. Para grande surpresa, com direito a um grande bruáaaa seguido de um silencio tenso na sala, foi anunciado que só haveria um novo restaurante com esta distinção, o Venta Moncalvillo, de Ignacio Echapresto, em Daroca de Rioja (La Rioja). 

E o momento de tensão manteve-se porque seguia-se o anúncio dos 3 estrelas, a cereja no topo de um bolo onde cabem poucos em todo o mundo. Apesar deste ano haver menos fugas de informação – até porque a mesma deixou de ser dada aos media antecipadamente – havia nomes de que se falavam, nomeadamente o que viria a ser anunciado de seguida. Mas a gestão da comunicação foi bem feita. Primeiro disseram que os 13 restaurantes detentores das mesmas, as mantinham. Depois, com alguma graça, o apresentador disse (mais ou menos isto): “bom 13 é um número estranho, se calhar devíamos juntar mais um restaurante”. Foi então que anunciaram o NOOR, de Paco Morales, acto que foi celebrado com grande aplauso. Porém, ao cair do pano, quando todos já esperavam a reunião dos mestres no palco para a habitual selfie de Marcelo, perdão de Quique Dacosta, eis que é apregoado que afinal haveria mais um 3***…

E aí a casa veio abaixo. É que o nome em questão erao do Disfrutar, o restaurante da cidade, dos ex-elBulli, Eduard Xatruch, Oriol Castro e Mateu Casañas que não couberam em si de emoção. 

Paco Morales, do Noor, a receber a jaqueta representativa da nova comenda, a das 3 estrelas
Eduard Xatruch, Mateu Casañas e Oriol Castro, do Disfrutar
Todos os 3 estrelas espanhóis no palco – incluindo “el português” Quique daCosta

Depois, foi festa e festança com todas as donas Constanças e sempre ao mais alto nível, com stands dos patrocinadores e dos estrelados da cidade, que servirem pratos de degustação de bom nível, para 700 pessoas, que puderam ser acompanhados com vinhos da região, cerveja e outras bebidas a preceito. 

P.S. Fui muito bem recebido, como habitualmente, pelos amigos espanhóis, que mostraram o seu apoio à gala portuguesa. Entre eles, deixo o recado de Elena Arzak: “se me chamarem, pois lá estarei!”. Esperemos então essa reciprocidade no Algarve. Uma gala nossa, mas com nuestros hermanos presentes terá mais sabor, tal como aconteceu com os chefes de Portugal aqui presentes, em Barcelona – de onde escrevo este artigo.

Gracias y obrigado ó Bibendum. Por acaso não és o único inspector português, aquele com sotaque espanhol, que dizem que existe? Ah, não és. Certo. Mas… e… sempre me vais dar a 1/2 estrela em Fevereiro?

Aqui fica o resumo das novidades:


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Unknown's avatar

Co-autor do Mesa Marcada. Escreve sobre gastronomia no Público, Revista de Vinhos (crítica gastronómica) e em títulos internacionais como Cook Inc (Itália), Eater.com (EUA) e Gula (Brasil). É autor do livro “Lisboa à Mesa - Guia onde Comer. Onde Comprar”, com edições em português, inglês e espanhol (na Planeta).

1 comment on “Como foi a 1ª Gala do Guia Michelin Espanha sem Portugal? 

  1. Manuel Faria's avatar
    Manuel Faria

    Esperemos que a gala Portuguesa dure pelo menos mais de 5 minutos e que haja muitas surpresas.

Os comentários estão fechados.

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