Restaurantes

Guia Repsol volta a Portugal: 70 Sóis atribuídos e a sombra Michelin

Depois de quase uma década de ausência, o Guia Repsol está de volta a Portugal. O regresso foi assinalado com a primeira Gala dos Sóis em solo português, que está a ter lugar esta segunda-feira, no Convento de São Francisco, em Santarém, e onde vão ser distinguidos quase duas centenas de restaurantes, de norte a sul do país, incluindo Madeira.

A grande novidade desta edição inaugural é a atribuição da distinção máxima, 3 Sóis, a quatro restaurantes: Belcanto, de José Avillez (Lisboa), Ocean, de Hans Neuner (Porches), Il Gallo D’Oro, de Benoît Sinthon (Funchal), e The Yeatman, de Ricardo Costa (Vila Nova de Gaia). Um reconhecimento que, segundo o Guia, reflecte não só a consistência e criatividade dos cozinheiros, como também o compromisso com uma experiência gastronómica de excelência.

No total, são atribuídos Sóis a 70 restaurantes — há 4 com 3 Sóis, 17 com 2 Sóis e 49 com 1 Sol. A estes juntam-se 124 restaurantes Recomendados e ainda quatro distinções especiais de Sustentabilidade, para projectos com práticas amigas do ambiente.

As Inevitáveis comparações com o Guia Michelin

Embora o Guia Repsol faça um louvável esforço para tentar marcar a diferença e afirmar-se por si só, ao utilizar um sistema de galardões idêntico ao Guia Michelin, a comparação com este, que desde há dois anos passou a ter uma edição só para o nosso país, é inevitável.

Sendo um guia mais recente e geograficamente mais regional, uma vez que existe apenas em Portugal e Espanha, o Guia Repsol está menos preso a cânones internacionais da alta cozinha, ou das cozinhas contemporâneas, e por isso encontramos entre os premiados, além destes, uma série de restaurantes tradicionais e clássicos, o que raramente acontece com o guia vermelho. Já em termos de distribuição geográfica dos premiados, ambos mostram boa abrangência, que vai dos centros urbanos às zonas mais rurais, mas também, infelizmente, a mesma omissão dos Açores, uma vez que nem outro contempla um único restaurante desta região entre os galardoados – provavelmente por uma lacuna nas suas rotas de avaliação.

Em relação à lista de distinções, a sensação que dá é que no Guia Repsol a exigência é elevada, mas um degrau abaixo do Guia Michelin, sobretudo nos dois patamares cimeiros, 3 e 2 Sóis. É como se os 3 Sóis do Belcanto, Ocean, Il Gallo d’Oro e Yeatman correspondessem à projecção do que gostaríamos que fossem as 3 estrelas nos nossos melhores sonhos. Ainda assim, iria haver reclamações por faltarem lá o Vila Joya, Alma, Casa de Chá da Boa Nova e o Antiqvvm!

Ah, mas devíamos então estar felizes por termos o dobro das distinções (excepto na sustentabilidade) e um guia ibérico de raiz espanhola, mas com um júri português, que entende melhor a cultura e riqueza gastronómica dos nossos restaurantes, do que um guia Michelin francês, de Madrid, que não tem inspectores portugueses. Sim, claro. Ou melhor, depende…

Pronto, lá tinha de vir a comparação Portugal vs. Espanha…

Com a ajuda de uma ferramenta de inteligência artificial pedi uma análise de discrepância entre os dois guias e as suas edições nos dois países e a resposta veio de pronto:

“Com certeza! Vamos comparar a discrepância entre as atribuições de Sóis (Guia Repsol) e Estrelas (Guia Michelin) em Espanha e Portugal para as edições de 2025:

Análise da Discrepância: Espanha (2025)

  • Total de Sóis Repsol: 44 (3 Sóis) + 176 (2 Sóis) + 569 (1 Sol) = 789
  • Total de Estrelas Michelin: 16 (3 Estrelas) + 33 (2 Estrelas) + 242 (1 Estrela) = 291

Em Espanha, o Guia Repsol atribuiu 2.71 vezes mais distinções (Sóis) do que o Guia Michelin (Estrelas) (789 / 291 ≈ 2.71).

Análise da Discrepância: Portugal (2025)

  • Total de Sóis Repsol: 4 (3 Sóis) + 17 (2 Sóis) + 49 (1 Sol) = 70
  • Total de Estrelas Michelin: 0 (3 Estrelas) + 8 (2 Estrelas) + 38 (1 Estrela) = 46

Em Portugal, o Guia Repsol atribuiu 1.52 vezes mais distinções (Sóis) do que o Guia Michelin (Estrelas) (70 / 46 ≈ 1.52).

Comparação da Discrepância entre os Países:

  • Discrepância em Espanha: O número total de Sóis atribuídos pelo Guia Repsol é cerca de três vezes o número total de Estrelas Michelin.
  • Discrepância em Portugal: O número total de Sóis atribuídos pelo Guia Repsol é praticamente de uma vez e meia o número total de Estrelas Michelin.

Conclusão: A discrepância entre o número de distinções atribuídas pelo Guia Repsol (Sóis) e pelo Guia Michelin (Estrelas) é maior em Espanha do que em Portugal.

Isto sugere que:

  • Em Espanha: O Guia Repsol tem uma abordagem significativamente mais abrangente na sua atribuição de distinções, reconhecendo um número muito maior de restaurantes com os seus Sóis em comparação com a selectividade do Guia Michelin.
  • Em Portugal: Embora o Guia Repsol também atribua mais distinções do que o Guia Michelin, a diferença não é tão acentuada como em Espanha.”

Por outro lado, numa outra leitura, é ainda possível referir que o Guia Repsol atribui aproximadamente 11,27 vezes mais sóis em Espanha do que em Portugal, enquanto que o Guia Michelin atribui aproximadamente 6,33 vezes mais estrelas em Espanha do que no nosso país.  

Porém, ao contrário do que muitos advogam, a IA não é fria e completamente desprovida de bom senso, e a ferramenta refere que tal conclusão “pode ser devido ao facto de o Guia Repsol estar a regressar a Portugal e a construir a sua avaliação”. Mas também põe a hipótese da tal discrepância “poder reflectir uma diferença real na distribuição de restaurantes de alta qualidade avaliados por cada guia nos dois países”. Por último, faz ainda uma ressalva final: “é importante lembrar que os critérios de avaliação de ambos os guias são diferentes, o que também contribui para estas discrepâncias. O Guia Michelin tende a focar-se mais estritamente na qualidade da cozinha, enquanto o Guia Repsol valoriza uma experiência gastronómica mais holística”. Será? Oh IA!

Lista dos Premiados do Guia Repsol Portugal 2025:

3 Sóis: 3 Sóis Guia Repsol Portugal: Belcanto (Lisboa), Ocean (Porches), Il Gallo D’Oro (Funchal) e The Yeatman (Vila Nova de Gaia).

2 Sóis: Al Sud (Odiáxere), Alma (Lisboa), Bon Bon (Carvoeiro), Casa de Chá da Boa Nova (Matosinho), Cura (Lisboa), Euskalduna Studio (Porto), Feitoria (Lisboa), Fifty Seconds (Lisboa), Herdade do Esporão (Reguengos de Monsaraz), Le Monument (Porto), Marlene (Lisboa), Mesa de Lemos (Viseu, Pedro Lemos (Porto), Ó Balcão (Santarém), Vila Joya (Albufeira), Vista (Portimão) e William (Funchal).

1 Sol: 100 Maneiras (Lisboa), 2Monkeys (Lisboa), A Cozinha (Guimarães), Arkhe (Lisboa), Austa (Loulé), Bahr (Lisboa), Boubou’s (Lisboa), Canalha (Lisboa), Cavalariça (Alcácer do Sal), Cícero (Lisboa), Ciclo (Lisboa), Cozinha das Flores (Porto), De Raíz (Viseu), Dom Joaquim (Évora), Eleven (Lisboa), Epur (Lisboa), Essencial (Lisboa), Fauno (Porto), Fava Tonka (Matosinhos), Flora (Viseu), Fortaleza do Guincho (Cascais), Gambrinus (Lisboa), Gusto by Heinz Beck (Loulé), Henrique Leis (Loulé), JNcQUOI Avenida (Lisboa), Kampo (Funchal), Lab by Sergi Arola (Sintra), Lamelas (Porto Covo), Mapa (Montemor-o-Novo), Maré (Cascais), Mercearia Gadanha (Estremoz), Mito (Porto), Näperõn (Aljezur), O Fernando (Maia), O Magano (Lisboa), O Nobre (Lisboa), Os Três Pipos (Tondela), O Pigmeu (Lisboa), Pirâmides do Egipto (Guimarães), Prado (Lisboa), Sála de João Sá (Lisboa), Santa Joana (Lisboa), São Gião (Guimarães), SEM (Lisboa), Solar dos Presuntos (Lisboa), Tia Alice (Ourém), Tombalobos (Portalegre), Veneza (Albufeira) e Vila Foz (Porto).


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1 comment on “Guia Repsol volta a Portugal: 70 Sóis atribuídos e a sombra Michelin

  1. Paulo Nobre Rodrigues's avatar
    Paulo Nobre Rodrigues

    Boa tarde Miguel.

    Estive ontem na gala, mas saí logo após entrega dos prémios. Será, seguramente, uma mais valia para os restaurantes que estão no guia, pela valorização que os espanhóis lhe dão. Utilizo-o com frequência quando viajo para Espanha, principalmente no interior, onde, geralmente, encontramos boas recomendações, principalmente quando não estamos para passar quatro horas num restaurante.

    Parece-me que as classificações traduzem ainda algumas lacunas no Guia para Portugal.

    Em Viseu, por exemplo, foram muito generosos mas, a região do Douro e Trás-os-Montes, não terá sido visitada. Não há sois nem recomendados, apesar de, em Bragança, haver um com uma estrela Michelin. Talvez esse seja um dos motivos para as diferenças entre os Guias português e espanhol, mesmo que, seja mais provável bons restaurantes em locais remotos no país vizinho.

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