No período pós-pandemia, raramente vemos restaurantes de referência apostarem no universo do take-away. As exceções surgem sobretudo em torno de certas especialidades, particularmente naqueles momentos festivos em que ansiamos saborear em casa determinado prato familiar, emblemático da época, mas que, por inabilidade culinária ou pelo labor que exige, não ousamos confecionar. Isto torna-se especialmente verdadeiro quando implica dedicar horas preciosas aos tachos num Domingo de Páscoa – e mais ainda se existir um estabelecimento capaz de nos garantir o mesmo com a qualidade desejada.
Foi certamente com este pensamento que o restaurante Pica-Pau, em Lisboa, decidiu este ano participar na celebração pascal com duas propostas concebidas para degustar em ambiente familiar: o cabrito assado com arroz de forno e o folar doce, ambos disponíveis mediante encomenda prévia, aqui, com levantamento agendado para a manhã de domingo, 20 de Abril.
O cabrito, explica o chef Luís Gaspar, segue os preceitos da tradição: assado lentamente, perfumado com tomilho e alecrim, acompanhado por um arroz generoso, elaborado com enchidos regionais e os sucos provenientes da própria assadura. A porção para duas pessoas está fixada em 40 euros. Quanto ao folar doce – aromatizado com erva-doce e canela – apresenta-se por 20 euros, idealizado para o convívio familiar. As reservas podem ser formalizadas online até às 13h de 16 de Abril, e os clientes recebem instruções detalhadas para a finalização em casa.
Em jeito de antecipação, tive o privilégio de saborear estas duas propostas no domingo transacto, por cortesia do restaurante – e partilho aqui as minhas impressões.
Residindo nas proximidades do Pica-Pau, recolhi a encomenda por volta do meio-dia, embora pudesse tê-lo feito mais cedo, dado que tanto o cabrito quanto o arroz são previamente preparados para conclusão doméstica e, por isso, não é necessário chegar mais próximo do horário da refeição porque não vêm “quentinhos”. Ambos chegaram impecavelmente acondicionados, embalados a vácuo, acompanhados de instruções precisas para regeneração no forno. O arroz apresentava-se pré-elaborado, com todos os componentes, mas com os grãos ainda por abrir, permitindo a adição do caldo e, à partida, suportando os 10 minutos de forno “até adquirir uma caramelização perfeita”, conforme prometido nas indicações. O conceito parece ser que ambos os elementos, ainda que regenerados em recipientes separados, possam ser finalizados simultaneamente, numa única operação.
O arroz distinguiu-se, principalmente, pela profundidade do caldo – intenso, envolvente, revelando uma preparação de base. Contudo, como é habitual nestas propostas para finalização caseira, o maior desafio reside no ponto ideal de conclusão. No meu caso, os 10 minutos recomendados não foram suficientes, precisando de mais uns minutos para que o arroz absorvesse integralmente o caldo e desenvolvesse a prometida caramelização – talvez fosse melhor vir ligeiramente menos cozido de origem, concedendo essa margem de finalização.
Quanto ao cabrito, aconteceu o processo inverso: possivelmente beneficiaria de mais tempo de forno no restaurante, chegando mais “a despregar-se do osso”, para que em casa bastasse conferir-lhe a crocância final. Ainda assim, estava bem cozinhado e era evidente que a carne havia sido adequadamente temperada e confeccionada de modo a desenvolver sabor. Aqui também se aplica a lógica de uma só fornada para carne e arroz.
Já havia degustado este prato anteriormente no restaurante e voltei a experimentar uma sensação semelhante à dessa ocasião: transporta-me para territórios mais a centro-norte, como a da casa da família paterna, onde ia esporadicamente na infância e era comum os enchidos a fumar na lareira e em que o aroma, bem como os preparados com eles – como o deste arroz – me eram familiares.
Quanto ao folar doce, é viciante. Reconheço não ser propriamente um termo que se aplique a algo que não é bem pão nem propriamente bolo. Porém, não sei se será a calda açucarada que o envolve, misturada com a erva doce e a canela, mas a verdade é que desde domingo que o venho saboreando e não consigo limitar-me a uma única fatia. Até as corto fininhas, para chegar à terceira sem sentir o peso da culpa.
Em suma: globalmente, trata-se de uma boa proposta, especialmente para quem deseja manter a tradição sem sacrificar tempo e qualidade. E com o selo de consistência que o trabalho de Luís Gaspar tem demonstrado nos vários projectos do grupo em que está envolvido.
Para finalizar, diga-se que quem preferir sair de casa no domingo, o cabrito estará igualmente disponível no restaurante, juntamente com a restante carta do Pica-Pau. Mas para aqueles que elegerem o conforto do lar e a companhia familiar, esta é uma sugestão que merece consideração.
—
P.S. Para quem quiser uma alternativa doceira mais chocaholic (e não só) não muito longe dali, também tem umas belas sugestões, aqui .
Fotos: Miguel Pires, com excepção da de entrada fornecida pelo restaurante.
No período pós-pandemia, raramente vemos restaurantes de referência apostarem no universo do take-away. As exceções surgem sobretudo em torno de certas especialidades, particularmente naqueles momentos festivos em que ansiamos saborear em casa determinado prato familiar, emblemático da época, mas que, por inabilidade culinária ou pelo labor que exige, não ousamos confecionar. Isto torna-se especialmente verdadeiro quando implica dedicar horas preciosas aos tachos num Domingo de Páscoa – e mais ainda se existir um estabelecimento capaz de nos garantir o mesmo com a qualidade desejada.
Foi certamente com este pensamento que o restaurante Pica-Pau, em Lisboa, decidiu este ano participar na celebração pascal com duas propostas concebidas para degustar em ambiente familiar: o cabrito assado com arroz de forno e o folar doce, ambos disponíveis mediante encomenda prévia, aqui, com levantamento agendado para a manhã de domingo, 20 de Abril.
O cabrito, explica o chef Luís Gaspar, segue os preceitos da tradição: assado lentamente, perfumado com tomilho e alecrim, acompanhado por um arroz generoso, elaborado com enchidos regionais e os sucos provenientes da própria assadura. A porção para duas pessoas está fixada em 40 euros. Quanto ao folar doce – aromatizado com erva-doce e canela – apresenta-se por 20 euros, idealizado para o convívio familiar. As reservas podem ser formalizadas online até às 13h de 16 de Abril, e os clientes recebem instruções detalhadas para a finalização em casa.
Em jeito de antecipação, tive o privilégio de saborear estas duas propostas no domingo transacto, por cortesia do restaurante – e partilho aqui as minhas impressões.
Residindo nas proximidades do Pica-Pau, recolhi a encomenda por volta do meio-dia, embora pudesse tê-lo feito mais cedo, dado que tanto o cabrito quanto o arroz são previamente preparados para conclusão doméstica e, por isso, não é necessário chegar mais próximo do horário da refeição porque não vêm “quentinhos”. Ambos chegaram impecavelmente acondicionados, embalados a vácuo, acompanhados de instruções precisas para regeneração no forno. O arroz apresentava-se pré-elaborado, com todos os componentes, mas com os grãos ainda por abrir, permitindo a adição do caldo e, à partida, suportando os 10 minutos de forno “até adquirir uma caramelização perfeita”, conforme prometido nas indicações. O conceito parece ser que ambos os elementos, ainda que regenerados em recipientes separados, possam ser finalizados simultaneamente, numa única operação.
O arroz distinguiu-se, principalmente, pela profundidade do caldo – intenso, envolvente, revelando uma preparação de base. Contudo, como é habitual nestas propostas para finalização caseira, o maior desafio reside no ponto ideal de conclusão. No meu caso, os 10 minutos recomendados não foram suficientes, precisando de mais uns minutos para que o arroz absorvesse integralmente o caldo e desenvolvesse a prometida caramelização – talvez fosse melhor vir ligeiramente menos cozido de origem, concedendo essa margem de finalização.
Quanto ao cabrito, aconteceu o processo inverso: possivelmente beneficiaria de mais tempo de forno no restaurante, chegando mais “a despregar-se do osso”, para que em casa bastasse conferir-lhe a crocância final. Ainda assim, estava bem cozinhado e era evidente que a carne havia sido adequadamente temperada e confeccionada de modo a desenvolver sabor. Aqui também se aplica a lógica de uma só fornada para carne e arroz.
Já havia degustado este prato anteriormente no restaurante e voltei a experimentar uma sensação semelhante à dessa ocasião: transporta-me para territórios mais a centro-norte, como a da casa da família paterna, onde ia esporadicamente na infância e era comum os enchidos a fumar na lareira e em que o aroma, bem como os preparados com eles – como o deste arroz – me eram familiares.
Quanto ao folar doce, é viciante. Reconheço não ser propriamente um termo que se aplique a algo que não é bem pão nem propriamente bolo. Porém, não sei se será a calda açucarada que o envolve, misturada com a erva doce e a canela, mas a verdade é que desde domingo que o venho saboreando e não consigo limitar-me a uma única fatia. Até as corto fininhas, para chegar à terceira sem sentir o peso da culpa.
Em suma: globalmente, trata-se de uma boa proposta, especialmente para quem deseja manter a tradição sem sacrificar tempo e qualidade. E com o selo de consistência que o trabalho de Luís Gaspar tem demonstrado nos vários projectos do grupo em que está envolvido.
Para finalizar, diga-se que quem preferir sair de casa no domingo, o cabrito estará igualmente disponível no restaurante, juntamente com a restante carta do Pica-Pau. Mas para aqueles que elegerem o conforto do lar e a companhia familiar, esta é uma sugestão que merece consideração.
—
P.S. Para quem quiser uma alternativa doceira mais chocaholic (e não só) não muito longe dali, também tem umas belas sugestões, aqui .
Fotos: Miguel Pires, com excepção da de entrada fornecida pelo restaurante.
Partilhar:
Like this:
Discover more from Mesa Marcada
Subscribe to get the latest posts sent to your email.