Como é sabido, durante a Quaresma — este período que antecede a Páscoa — é tradição, em muitas famílias católicas, fazer jejum ou, pelo menos, abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e às sextas-feiras, sobretudo nesta Sexta-feira Santa.
Diz a tradição católica que, por um lado, a abstinência de carne é uma forma de penitência, entendida como um gesto de renúncia e humildade, que convida os fiéis a reflectirem sobre o sacrifício de Jesus Cristo, especialmente na Sexta-feira Santa, que marca a sua crucificação. Isto tem muito a ver com o facto da carne, especialmente a vermelha, ser associada ao luxo, ao prazer e à celebração. Evitar o seu consumo nestes dias é visto, portanto, como uma forma de respeito pelo sofrimento de Cristo.
Por fim, parece haver ainda a justificação de que a Igreja recomenda a prática do jejum e da abstinência como forma de preparação espiritual para a Páscoa. Isto porque, alegadamente, o peixe é considerado um alimento mais simples e humilde, mas também com um significado simbólico ligado aos milagres de Jesus, como a multiplicação dos pães e dos peixes.
Esta é uma tradição mantida por muitas famílias, sejam elas praticantes ou não, como forma de preservar a cultura e os valores religiosos associados à Páscoa. Até à minha fase adulta, estive naturalmente envolvido nesse ritual, por fazer parte de uma família católica praticante. Como a esmagadora maioria dos jovens, nessa altura era completamente carnívoro e, sendo o meu pai responsável numa empresa de carnes, esta fazia parte da nossa alimentação quotidiana.
Portanto, ainda que o peixe fizesse parte da nossa dieta — e os meus pais faziam por isso, por uma questão de gosto e por terem noção do seu valor nutritivo numa alimentação equilibrada — havia sempre uma escapatória. Bom, excepto nesses dias de abstinência, que para um jovem como eu eram bastante deprimentes. Como se não bastasse o tom carregado da Quaresma e, por vezes, associado a um tempo chuvoso (“Abril, águas mil”), ainda tinha de levar com peixe ao almoço e ao jantar.
Claro que, a partir de determinada altura, uma mãe compreensiva e com mão para a cozinha contornava a punição com escolhas e formas hábeis de preparar o peixe, nomeadamente o bacalhau. Se os adultos comiam-no cozido, para mim — e, eventualmente, para a minha irmã, cinco anos mais velha — era possível que houvesse uma versão do bacalhau, “à Brás” ou “à Gomes de Sá”. Eu ficava contente e caladinho, porque, embora não desse o prazer de uma bifalhada com batatas fritas, era um prato prazenteiro e, logo, pouco condizente com um acto de penitência. Graças a Deus… ou, melhor, graças à Mãe Luz!
Já adulto, agnóstico, a viver em Lisboa e senhor do meu nariz, numa cidade em que as comunidades religiosas estão mais dissipadas e, por isso, têm pouca influência, deixei de estar sob a alçada dos costumes da Quaresma. Por outro lado, comecei a gostar muito de peixe, pelo que, mesmo quando visitava os meus pais numa Sexta-feira Santa, não ter de comer carne era algo que passei a acolher com muito agrado.
Contudo, como era um bocadinho torcido e provocador, embora procurasse respeitar as suas crenças, lembro-me de pôr em causa esta questão da abstinência de carne:
— Mãe… (“ui, lá lá vem ele”, dizia ela para os seus botões) mas se hoje em dia temos muito mais prazer em comer peixe do que carne, este tipo de penitência ainda faz sentido?
Não me recordo da sua resposta, mas como ela nunca gostou muito que se questionasse nem Deus nem as suas crenças, creio que me atirava um olhar de soslaio, pois não era uma questão que acolhesse de bom grado.
Todavia, volto hoje ao tema e à questão. É certo que há essa faceta dos costumes e da tradição, mas para quem é mesmo católico convicto, não há algo de contraditório nesta abstinência que impõe a substituição da carne pelo peixe neste dia?
Sigam comigo: o que há de sacrifício em comer peixe quando o preferimos ou, por questões de saúde ou outras, já evitamos regularmente as carnes vermelhas? Quanto ao “luxo”, será que um naco de carne vermelha é mais caro do que um peixe? Pela minha experiência pessoal, a conta da peixaria é sempre mais elevada, por quilo, do que a do talho. E quanto ao significado simbólico ligado aos milagres de Jesus, porque não homenagear a multiplicação dos pães em vez da dos peixes? E, já agora: um vegano católico, do que é que se deve privar nesse dia? E fazer jejum intermitente, é válido nesta época? Se é, não será lá grande abstinência…
Pronto, agora deixem-me ir, que é Sexta-feira Santa e tenho um belo polvo à lagareiro para preparar para o jantar. E, por favor, não digam à minha mãe que escrevi isto. Vai que ela, em jeito de retaliação, no próximo Domingo de Páscoa, em vez do cabrito, me põe uma xaputa cozida na mesa.
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Como é sabido, durante a Quaresma — este período que antecede a Páscoa — é tradição, em muitas famílias católicas, fazer jejum ou, pelo menos, abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e às sextas-feiras, sobretudo nesta Sexta-feira Santa.
Diz a tradição católica que, por um lado, a abstinência de carne é uma forma de penitência, entendida como um gesto de renúncia e humildade, que convida os fiéis a reflectirem sobre o sacrifício de Jesus Cristo, especialmente na Sexta-feira Santa, que marca a sua crucificação. Isto tem muito a ver com o facto da carne, especialmente a vermelha, ser associada ao luxo, ao prazer e à celebração. Evitar o seu consumo nestes dias é visto, portanto, como uma forma de respeito pelo sofrimento de Cristo.
Por fim, parece haver ainda a justificação de que a Igreja recomenda a prática do jejum e da abstinência como forma de preparação espiritual para a Páscoa. Isto porque, alegadamente, o peixe é considerado um alimento mais simples e humilde, mas também com um significado simbólico ligado aos milagres de Jesus, como a multiplicação dos pães e dos peixes.
Esta é uma tradição mantida por muitas famílias, sejam elas praticantes ou não, como forma de preservar a cultura e os valores religiosos associados à Páscoa. Até à minha fase adulta, estive naturalmente envolvido nesse ritual, por fazer parte de uma família católica praticante. Como a esmagadora maioria dos jovens, nessa altura era completamente carnívoro e, sendo o meu pai responsável numa empresa de carnes, esta fazia parte da nossa alimentação quotidiana.
Portanto, ainda que o peixe fizesse parte da nossa dieta — e os meus pais faziam por isso, por uma questão de gosto e por terem noção do seu valor nutritivo numa alimentação equilibrada — havia sempre uma escapatória. Bom, excepto nesses dias de abstinência, que para um jovem como eu eram bastante deprimentes. Como se não bastasse o tom carregado da Quaresma e, por vezes, associado a um tempo chuvoso (“Abril, águas mil”), ainda tinha de levar com peixe ao almoço e ao jantar.
Claro que, a partir de determinada altura, uma mãe compreensiva e com mão para a cozinha contornava a punição com escolhas e formas hábeis de preparar o peixe, nomeadamente o bacalhau. Se os adultos comiam-no cozido, para mim — e, eventualmente, para a minha irmã, cinco anos mais velha — era possível que houvesse uma versão do bacalhau, “à Brás” ou “à Gomes de Sá”. Eu ficava contente e caladinho, porque, embora não desse o prazer de uma bifalhada com batatas fritas, era um prato prazenteiro e, logo, pouco condizente com um acto de penitência. Graças a Deus… ou, melhor, graças à Mãe Luz!
Já adulto, agnóstico, a viver em Lisboa e senhor do meu nariz, numa cidade em que as comunidades religiosas estão mais dissipadas e, por isso, têm pouca influência, deixei de estar sob a alçada dos costumes da Quaresma. Por outro lado, comecei a gostar muito de peixe, pelo que, mesmo quando visitava os meus pais numa Sexta-feira Santa, não ter de comer carne era algo que passei a acolher com muito agrado.
Contudo, como era um bocadinho torcido e provocador, embora procurasse respeitar as suas crenças, lembro-me de pôr em causa esta questão da abstinência de carne:
— Mãe… (“ui, lá lá vem ele”, dizia ela para os seus botões) mas se hoje em dia temos muito mais prazer em comer peixe do que carne, este tipo de penitência ainda faz sentido?
Não me recordo da sua resposta, mas como ela nunca gostou muito que se questionasse nem Deus nem as suas crenças, creio que me atirava um olhar de soslaio, pois não era uma questão que acolhesse de bom grado.
Todavia, volto hoje ao tema e à questão. É certo que há essa faceta dos costumes e da tradição, mas para quem é mesmo católico convicto, não há algo de contraditório nesta abstinência que impõe a substituição da carne pelo peixe neste dia?
Sigam comigo: o que há de sacrifício em comer peixe quando o preferimos ou, por questões de saúde ou outras, já evitamos regularmente as carnes vermelhas? Quanto ao “luxo”, será que um naco de carne vermelha é mais caro do que um peixe? Pela minha experiência pessoal, a conta da peixaria é sempre mais elevada, por quilo, do que a do talho. E quanto ao significado simbólico ligado aos milagres de Jesus, porque não homenagear a multiplicação dos pães em vez da dos peixes? E, já agora: um vegano católico, do que é que se deve privar nesse dia? E fazer jejum intermitente, é válido nesta época? Se é, não será lá grande abstinência…
Pronto, agora deixem-me ir, que é Sexta-feira Santa e tenho um belo polvo à lagareiro para preparar para o jantar. E, por favor, não digam à minha mãe que escrevi isto. Vai que ela, em jeito de retaliação, no próximo Domingo de Páscoa, em vez do cabrito, me põe uma xaputa cozida na mesa.
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