Vila Joya Sea: O luxo descontraído em formato de praia
O restaurante sazonal do exclusivo hotel Vila Joya, no Algarve, oferece uma experiência gastronómica pan-asiática e japonesa numa elegante "cabana" de praia.
Havia uma dúvida entre nós: o acesso ao Vila Joya Sea seria feito pela praia ou pela entrada do exclusivo hotel, com direito a passar o portão fechado, estacionar o carro – ou seja, com direito a acolhimento como se fôssemos ao restaurante de duas estrelas Michelin – e descer pela propriedade, mesmo que isso pudesse gerar algum incómodo aos clientes do tão exclusivo boutique hotel. A minha mulher apostava na segunda hipótese, já eu tinha as minhas dúvidas. Claro, como sempre, ela tinha razão. Só faltou aquele “bem-vindo ao paraíso”, como em tempos idos os clientes eram saudados pelo Sr. João, sempre que se dirigiam ao restaurante liderado pelo chef Dieter Koschina – que festeja este ano 30 anos consecutivos de estrela(s) Michelin em solo algarvio. O carismático anfitrião há muito que se aposentou, porém, a simpatia e o sentido de cortesia na casa mantêm a sua marca. Milena, quem nos recebeu nesse dia, acolheu-nos à entrada.
Como já conhecia o lugar, o guião foi ligeiramente adaptado, mas a verdade é que o atendimento foi feito com distinção em todos os momentos: no acolhimento, no percurso até à praia, onde fica o restaurante sazonal, feito a pé (embora pudesse ter sido de buggy), e nas explicações sobre o hotel, das mais básicas às novidades, como a área mais recente ou o painel do Vhils numa das paredes. Já no restaurante, Milena passou-nos às mãos de um responsável de sala, que nos conduziu à mesa. Em nenhum momento o cliente é abandonado ou deixado à espera: isto é serviço de boutique hotel, e de Vila Joya no seu melhor. O acesso pela praia também é possível, mas paga-se o mesmo e perde-se o tour e o “banho” de excelência no tratamento.
Aberto de Março a Novembro, o espaço sazonal e informal do Vila Joya, foi construído todo em madeira, pintado de branco, com janelas amplas. Uma “cabana” de praia elegante, mas sem afetações. No dia em que fomos, quase todos os clientes eram estrangeiros, num ambiente descontraído, mas com aquele toque de estilo refinado da casa-mãe tão característico. Há oito lugares ao balcão (quatro de cada lado), e uma equipa multinacional a dar cartas, tanto na cozinha, como na sala.
É um restaurante que funciona apenas por reserva, embora tenham um pequeno menu de snacks para passantes, fora dos horários principais. Definitivamente, não é o seu restaurante de praia habitual. O conceito tem mudado todos os anos e esta temporada é dedicada aos sabores japoneses e pan-asiáticos – entretanto, às segundas e terças, foi acrescentada uma vertente mexicana, com reforço da carta e da equipa. O chef Rafael Oyama, brasileiro de ascendência nipónica, lidera a cozinha oriental, tendo-se juntado recentemente o chef mexicano Hiram González para liderar as propostas nessa vertente.
O menu estava dividido em “sabores pan-asiáticos” (entradas, crudos, sopas, peixe e carne, doces) e “delícias japonesas”, com entradas, sushi, makis, sashimi, prato principal e sobremesa. Para ter substância suficiente para avaliar, pedimos várias propostas de ambos.
Começámos com um usuzukuri “catch of day”, nesse dia, de pregado. As fatias finas de peixe, em vez de dispostas uma a uma num prato, vinham enroladas individualmente cada uma numa colher, num total de seis, com ovas de salmão, sob algas comestíveis — embora estas tivessem ali mais como decoração. Proposta agradável, fresca e saborosa.
Seguiram-se tiras de lulinhas crocantes com togarashi e uma maionese de finger lime a acompanhar. Guloso snack. Não há como não gostar: crocante, saboroso, picante pelo toque das especiarias do condimento japonês (togarashi). Depois, um rolo estilo vietnamita de caranguejo real. Interessante o crocante de arroz “tufado” com massa de crepe também de arroz. Muito rico de vegetais e sabores, bem como o caranguejo real que vinha no meio. Molho chilli a acompanhar para dar um contraste spicy.
A finalizar na parte salgada, sushi omakase — ou seja, à escolha do chef — eram doze peças de nigiri de qualidade: otoro (parte gorda da barriga de atum blue fin) com caviar, robalo, pregado, linguado, carapau, lombo de atum e foie gras com molho taré. Teria trocado o foie gras por enguia, mas um toquezinho “bling” faz parte deste tipo de campeonato de luxo. E esteve tudo bem em termos de sabor e técnica. Entre o sushi clássico e o de fusão, com boa variedade de peixe fresco, arroz bem confecionado, folhinha shiso pelo meio e molho de soja de qualidade.
Por fim, a sobremesa – que pouco tinha de asiática, mas que se revelou notável: bolo de banana com caramelo, banana, amendoim crocante e um toque de rum. Tratava-se de um bolo húmido, guloso, sem ser demasiado doce, feito com caramelo de qualidade. “Isto vai muito bem com um Madeira”, sugeriu-me o sommelier, quando a sobremesa já ia a meio. Curioso, perguntei-lhe no final qual recomendaria. “Blandy’s Boal 10 anos — é o único que temos aqui, mas experimentámos no outro dia e harmoniza muito bem, ligeiramente refrescado”, respondeu-me. Interessante…
Usuzukuri de pregado
Tiras de Lulinha Crocantes Malagueta | Salicornia | Limão Caviar
Rolo de Caranguejo-Real Nuoc Mam Gung | Abacate | Pepino
detalhe do rolo de caranguejo-real
sashimi
No que diz respeito ao menu de bebidas, ele é adequado a um restaurante-bar de praia de luxo. Cocktails de assinatura (entre os 19€ e os 21€) sempre com um twist japonês, de que é bom exemplo o “Tokimeku”, com gin Etsu Yuzu, sake, pepino, hortelã e lima. Também há uma série de bebidas sem álcool e mocktails com alguns dentro do mesmo conceito mix pan-asiático.
Nos vinhos, a proposta pareceu-me curta, mas bem estruturada para o conceito, com rótulos menos óbvios misturados com outros mais conhecidos e quase todos disponíveis a copo. Sete vinhos espumosos – cinco champanhes e dois espumantes portugueses -; onze vinhos brancos, do Algarve à região dos Vinhos Verdes, passando pelos Açores – ainda com uma ou outra referência estrangeira; três rosés e quatro tintos. Ou seja, a carta podia ser mais extensa, mas aceitável num restaurante de praia em que quase toda a proposta é à base de peixes e raramente cozinhados. Além destes, havia ainda quatro sakes de diversos estilos, três vinhos doces – um Madeira, um Porto e um Tokaji -, cerveja nacional e estrangeira (Sagres e Sapporo) e duas ginger beer.
Bebemos um branco a copo, “Entre Pedras”, um belo verdelho do Pico que acompanhou bem a um tipo de cozinha com molhos de soja e sabores intensos, que nem sempre facilitam a harmonização com vinho.
Os anglo-saxónicos têm um termo para “affordable luxury” – luxo acessível. Refere-se a algo que, embora tenha um preço elevado, mantém um valor que permite a um cliente de classe média alta poder consumi-lo esporadicamente. Até há uns anos, boa parte dos restaurantes com estrelas Michelin podiam enquadrar-se neste conceito, mas com refeições a ultrapassar facilmente os 200€, actualmente estes estabelecimentos estrelados estão cada vez mais “luxury” e muito pouco “affordable”. É aqui que entram muitas vezes os segundos restaurantes destas marcas, ocupando esse espaço do luxo acessível.
Portanto, o Vila Joya Sea é um restaurante de praia que não é propriamente barato. Porém, “It’s the Algarve” e para quem quer um vislumbre do universo Vila Joya num registo descontraído, esta é uma opção a considerar neste Verão.
Cozinha:17; Sala:17; Vinhos:16.5
Preço médio (com bebidas): 100/120 euros/pax. Pela refeição descrita (+ águas e café e gratificação) pagou-se 255 euros (2 pessoas) | Horário: segunda a domingo, 13h00/14h30 e 19h00/20h30
Texto Publicado originalmente na Revista de Vinhos de Julho | Fotos: Miguel Pires
Havia uma dúvida entre nós: o acesso ao Vila Joya Sea seria feito pela praia ou pela entrada do exclusivo hotel, com direito a passar o portão fechado, estacionar o carro – ou seja, com direito a acolhimento como se fôssemos ao restaurante de duas estrelas Michelin – e descer pela propriedade, mesmo que isso pudesse gerar algum incómodo aos clientes do tão exclusivo boutique hotel. A minha mulher apostava na segunda hipótese, já eu tinha as minhas dúvidas. Claro, como sempre, ela tinha razão. Só faltou aquele “bem-vindo ao paraíso”, como em tempos idos os clientes eram saudados pelo Sr. João, sempre que se dirigiam ao restaurante liderado pelo chef Dieter Koschina – que festeja este ano 30 anos consecutivos de estrela(s) Michelin em solo algarvio. O carismático anfitrião há muito que se aposentou, porém, a simpatia e o sentido de cortesia na casa mantêm a sua marca. Milena, quem nos recebeu nesse dia, acolheu-nos à entrada.
Como já conhecia o lugar, o guião foi ligeiramente adaptado, mas a verdade é que o atendimento foi feito com distinção em todos os momentos: no acolhimento, no percurso até à praia, onde fica o restaurante sazonal, feito a pé (embora pudesse ter sido de buggy), e nas explicações sobre o hotel, das mais básicas às novidades, como a área mais recente ou o painel do Vhils numa das paredes. Já no restaurante, Milena passou-nos às mãos de um responsável de sala, que nos conduziu à mesa. Em nenhum momento o cliente é abandonado ou deixado à espera: isto é serviço de boutique hotel, e de Vila Joya no seu melhor. O acesso pela praia também é possível, mas paga-se o mesmo e perde-se o tour e o “banho” de excelência no tratamento.
Aberto de Março a Novembro, o espaço sazonal e informal do Vila Joya, foi construído todo em madeira, pintado de branco, com janelas amplas. Uma “cabana” de praia elegante, mas sem afetações. No dia em que fomos, quase todos os clientes eram estrangeiros, num ambiente descontraído, mas com aquele toque de estilo refinado da casa-mãe tão característico. Há oito lugares ao balcão (quatro de cada lado), e uma equipa multinacional a dar cartas, tanto na cozinha, como na sala.
É um restaurante que funciona apenas por reserva, embora tenham um pequeno menu de snacks para passantes, fora dos horários principais. Definitivamente, não é o seu restaurante de praia habitual. O conceito tem mudado todos os anos e esta temporada é dedicada aos sabores japoneses e pan-asiáticos – entretanto, às segundas e terças, foi acrescentada uma vertente mexicana, com reforço da carta e da equipa. O chef Rafael Oyama, brasileiro de ascendência nipónica, lidera a cozinha oriental, tendo-se juntado recentemente o chef mexicano Hiram González para liderar as propostas nessa vertente.
O menu estava dividido em “sabores pan-asiáticos” (entradas, crudos, sopas, peixe e carne, doces) e “delícias japonesas”, com entradas, sushi, makis, sashimi, prato principal e sobremesa. Para ter substância suficiente para avaliar, pedimos várias propostas de ambos.
Começámos com um usuzukuri “catch of day”, nesse dia, de pregado. As fatias finas de peixe, em vez de dispostas uma a uma num prato, vinham enroladas individualmente cada uma numa colher, num total de seis, com ovas de salmão, sob algas comestíveis — embora estas tivessem ali mais como decoração. Proposta agradável, fresca e saborosa.
Seguiram-se tiras de lulinhas crocantes com togarashi e uma maionese de finger lime a acompanhar. Guloso snack. Não há como não gostar: crocante, saboroso, picante pelo toque das especiarias do condimento japonês (togarashi). Depois, um rolo estilo vietnamita de caranguejo real. Interessante o crocante de arroz “tufado” com massa de crepe também de arroz. Muito rico de vegetais e sabores, bem como o caranguejo real que vinha no meio. Molho chilli a acompanhar para dar um contraste spicy.
A finalizar na parte salgada, sushi omakase — ou seja, à escolha do chef — eram doze peças de nigiri de qualidade: otoro (parte gorda da barriga de atum blue fin) com caviar, robalo, pregado, linguado, carapau, lombo de atum e foie gras com molho taré. Teria trocado o foie gras por enguia, mas um toquezinho “bling” faz parte deste tipo de campeonato de luxo. E esteve tudo bem em termos de sabor e técnica. Entre o sushi clássico e o de fusão, com boa variedade de peixe fresco, arroz bem confecionado, folhinha shiso pelo meio e molho de soja de qualidade.
Por fim, a sobremesa – que pouco tinha de asiática, mas que se revelou notável: bolo de banana com caramelo, banana, amendoim crocante e um toque de rum. Tratava-se de um bolo húmido, guloso, sem ser demasiado doce, feito com caramelo de qualidade. “Isto vai muito bem com um Madeira”, sugeriu-me o sommelier, quando a sobremesa já ia a meio. Curioso, perguntei-lhe no final qual recomendaria. “Blandy’s Boal 10 anos — é o único que temos aqui, mas experimentámos no outro dia e harmoniza muito bem, ligeiramente refrescado”, respondeu-me. Interessante…
No que diz respeito ao menu de bebidas, ele é adequado a um restaurante-bar de praia de luxo. Cocktails de assinatura (entre os 19€ e os 21€) sempre com um twist japonês, de que é bom exemplo o “Tokimeku”, com gin Etsu Yuzu, sake, pepino, hortelã e lima. Também há uma série de bebidas sem álcool e mocktails com alguns dentro do mesmo conceito mix pan-asiático.
Nos vinhos, a proposta pareceu-me curta, mas bem estruturada para o conceito, com rótulos menos óbvios misturados com outros mais conhecidos e quase todos disponíveis a copo. Sete vinhos espumosos – cinco champanhes e dois espumantes portugueses -; onze vinhos brancos, do Algarve à região dos Vinhos Verdes, passando pelos Açores – ainda com uma ou outra referência estrangeira; três rosés e quatro tintos. Ou seja, a carta podia ser mais extensa, mas aceitável num restaurante de praia em que quase toda a proposta é à base de peixes e raramente cozinhados. Além destes, havia ainda quatro sakes de diversos estilos, três vinhos doces – um Madeira, um Porto e um Tokaji -, cerveja nacional e estrangeira (Sagres e Sapporo) e duas ginger beer.
Bebemos um branco a copo, “Entre Pedras”, um belo verdelho do Pico que acompanhou bem a um tipo de cozinha com molhos de soja e sabores intensos, que nem sempre facilitam a harmonização com vinho.
Os anglo-saxónicos têm um termo para “affordable luxury” – luxo acessível. Refere-se a algo que, embora tenha um preço elevado, mantém um valor que permite a um cliente de classe média alta poder consumi-lo esporadicamente. Até há uns anos, boa parte dos restaurantes com estrelas Michelin podiam enquadrar-se neste conceito, mas com refeições a ultrapassar facilmente os 200€, actualmente estes estabelecimentos estrelados estão cada vez mais “luxury” e muito pouco “affordable”. É aqui que entram muitas vezes os segundos restaurantes destas marcas, ocupando esse espaço do luxo acessível.
Portanto, o Vila Joya Sea é um restaurante de praia que não é propriamente barato. Porém, “It’s the Algarve” e para quem quer um vislumbre do universo Vila Joya num registo descontraído, esta é uma opção a considerar neste Verão.
Cozinha:17; Sala:17; Vinhos:16.5
Preço médio (com bebidas): 100/120 euros/pax. Pela refeição descrita (+ águas e café e gratificação) pagou-se 255 euros (2 pessoas) | Horário: segunda a domingo, 13h00/14h30 e 19h00/20h30
Texto Publicado originalmente na Revista de Vinhos de Julho | Fotos: Miguel Pires
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