Esta manhã, Nuno Barros, chef e proprietário da 1300 Taberna, anunciou no Instagram o fecho do restaurante, na LX Factory, em Lisboa, onde estava há 14 anos. O anúncio marca o fim de uma era e reflecte, simultaneamente, as transformações que se têm operado naquele que tem sido na última década um dos espaços mais emblemáticos da capital.
Quando abriu em 2011, depois de um período bem-sucedido em Oeiras com um pequeno espaço de 26 lugares (a 2780 Taberna), o restaurante de Nuno Barros viveu os seus melhores anos nos primeiros tempos da LX Factory. Com o crescimento exponencial da oferta gastronómica em Lisboa, o restaurante foi-se adaptando, e Nuno Barros – chef de perfil discreto – foi orientando o negócio também para clientes empresariais, uma estratégia fundamental para a sustentabilidade do projecto.
Agora, passados 14 anos, os proprietários da LX Factory comunicaram-lhe que não pretendiam renovar o contrato que termina em Outubro, obrigando-o a deixar um espaço onde construiu o seu projecto empresarial familiar, que apesar de há muito não ter o foco do meio gastronómico lisboeta sobre si, era um projecto sólido e duradouro.

As palavras de despedida
No Instagram, Nuno Barros partilhou uma mensagem de despedida onde lamenta profundamente a decisão da administração e dos actuais accionistas da LX Factory de não renovar o contrato, atribuindo o espaço a outra empresa do sector. Destaca que “ao longo destes anos, sempre mantivemos uma relação exemplar, cumprindo todas as nossas obrigações” e expressa pesar pelo “rumo que o LX Factory está a tomar: um espaço que outrora foi um símbolo de uma cidade diferente, de convivência de artistas, espaço de criatividade e inovação, mas que hoje cada vez mais se afasta dessa essência que o tornou único.”
O chef agradece aos colaboradores, clientes, fornecedores e parceiros que fizeram parte desta jornada e esclarece que “neste momento, não prevemos abrir noutro espaço, já que esta decisão inesperada nos apanhou de surpresa e exige um período de reflexão sobre os próximos passos a dar.” Até 4 de Outubro, as portas mantêm-se abertas para quem queira despedir-se e reviver memórias.
A conversa com Nuno Barros: as razões de uma saída
Em conversa telefónica com o Mesa Marcada, Nuno Barros esclareceu os contornos desta decisão que o apanhou de surpresa. A dimensão e o potencial de rentabilização ainda maior do espaço que ocupam é muito apetecível e estará na base da não renovação do contrato. “O espaço é grande e, embora não tenha a certeza, pela conversa deles será dividido”, explica. “Depois, sabes o rumo que a LX Factory está a levar. Estão a abrir coisas de comida mais rápida… aquilo está a ficar descaracterizado. E no fundo, disseram-nos que nós estávamos ali a mais.”
O processo foi particularmente frustrante pelos sinais contraditórios. Os contratos tinham terminado em Março, mas foi-lhe concedida uma extensão de seis meses. “Nessa altura pedimos para fazer a renovação. Até parecia haver alguma abertura mas depois, a partir de determinado momento, foram fechando as portas e não nos receberam.”
Uma lógica diferente na nova gestão da LX Factory
A transformação não se fica pelas decisões sobre renovações contratuais. É também financeira, como os números que Nuno Barros partilha demonstram: “As rendas há dois anos subiram, só para teres uma noção, de 7 mil para 12 mil euros. O condomínio passou de 300 ou 400 euros para 2 300 euros.”
Este aumento significativo dos custos – a renda quase duplicou e os condomínios multiplicaram-se por seis – reflecte uma gestão mais comercial. “Tem uma entidade gestora que é uma empresa que também gere centros comerciais e está um bocado nessa onda”, explica. “Aquilo está com horário de funcionamento. Os contratos já obrigam a dar uma percentagem das vendas.”
A adaptação ao mercado: entre a carta e os eventos
Durante os últimos anos, a 1300 Taberna desenvolveu uma estratégia que equilibrava o serviço de carta para o cliente final com eventos corporativos – uma adaptação fundamental, dadas as mudanças do mercado lisboeta. “Lisboa começou a ter também um turismo corporativo importante. Como nós temos um espaço grande, que fazia à vontade até 160 pessoas, acabámos por ser contactados para esse tipo de serviços”, conta.
Esta evolução não foi planeada: “Não foi tanto por opção, foi mais por garantir o nosso dia-a-dia. Não deixámos de fazer carta e serviços normais, mas a parte de eventos e grupos garantiu-nos uma facturação muito importante.”
O equilíbrio funcionava: “Diria que era metade, metade. Conseguíamos equilibrar, depois claro, há meses em que isso não funciona tanto. Foi sempre equilibrado.” Esta diversificação, comum a muitos restaurantes de Lisboa, permitiu-lhe manter a actividade de forma sustentável durante mais de uma década.
Paradoxalmente, este sucesso pode ter contribuído para despertar interesse no espaço. “Hoje somos provavelmente dos que trabalhamos melhor”, observa, reconhecendo que o seu espaço se destacava num contexto em que “aquilo agora à noite, por exemplo, morreu muito”.
As transformações de um espaço
Tal como Lisboa, a LX Factory de hoje não é a mesma de 2011. O crescimento do turismo – que também beneficiou a 1300 Taberna – trouxe novas oportunidades mas também novos desafios. A questão não é tanto a mudança em si, mas o tipo de mudança e o ritmo a que acontece.
Nuno Barros faz uma analogia interessante com a livraria Ler Devagar, desde sempre o lugar mais emblemático da LX: “É realmente um espaço âncora lá dentro. Se eles algum dia tiram dali a Ler Devagar, não sei o que é que vai continuar ali a chamar tanta gente.” A questão dos espaços âncora é complexa numa gestão comercial: por um lado, são importantes para atrair público; por outro, podem não ser os mais rentáveis por metro quadrado.
Um futuro em suspenso
Para Nuno Barros, este encerramento representa um momento de reflexão forçada. “Sinceramente, não tenho” planos definidos para o futuro imediato. “Este processo está a ser um bocado pesado para mim”, admite.
As preocupações começam pela equipa: “A história dos empregados era uma coisa que me pesava, mas já está minimamente resolvida. Temos os processos legais todos a correr e foi muito bem aceite por eles.”
A realidade do mercado imobiliário lisboeta actual também pesa: “As coisas hoje estão com preços exorbitantes. Um espaço assim, não consigo encontrar com uma renda comportável, com as obras, com tudo.”
A dimensão familiar do projecto torna a decisão mais complexa: “No fundo, isto é meu e da minha mulher, uma empresa familiar. Os meus fundos foram os dos meus avós e dos meus pais.” Recomeçar implicaria “voltar esses passos todos atrás”, uma perspectiva que considera “pesada” nesta altura da vida.
Lisboa Actual: O Contexto Empresarial
A reflexão sobre abrir um projecto semelhante na Lisboa actual é realista: “É mais difícil, muito mais difícil. Isto foi possível porque durante muito tempo as condições ali foram favoráveis, em termos de rendas e consumos. Hoje já estamos com valores de mercado normais.”
O contexto mudou para todos: “Acredito que os grupos de hoje, uma coisa ou outra alavanca os outros que correm menos bem, mas para empresas familiares as coisas não estão fáceis. Mesmo quem trabalha muito bem, os lucros hoje são muito mais pequenos.”
Esta realidade afecta muitos restaurantes familiares em Lisboa. O crescimento dos custos operacionais – rendas, salários, consumos – exige uma gestão cada vez mais apertada e, muitas vezes, economias de escala que os projectos familiares têm dificuldade em conseguir.
O último mês
Até 4 de Outubro, a 1300 Taberna mantém-se aberta, e Setembro “até está a ser um bom mês”. A reacção ao anúncio do encerramento surpreendeu-o: “Não estava à espera de tanta reacção, sinceramente. Percebi que as coisas ainda mexem e fico contente.”
Há planos para “fazer algo” de despedida “mais de convite, para fornecedores, amigos, pessoas que sempre nos apoiaram”, mas ainda estão por definir. O certo é que havia trabalho garantido: “Tínhamos muita coisa marcada” e “agenda de 2026 com coisas”.
Durante a conversa, recordou momentos marcantes que se passaram ali, porque sempre houve abertura para apoiar momentos especiais que aconteceram na cidade, como os jantares do “Sangue na Guelra” ou “os cozidos do Nuno Diniz” – eventos que ficaram na memória e mostram como o restaurante soube criar laços com a comunidade gastronómica lisboeta.

Como era em 2011
Em 2011, quando lancei o meu guia “Lisboa À Mesa – Onde Comer, Onde Comprar” – e mais tarde na nova versão, em 2014 -, destaquei a 1300 Taberna como um dos 50 restaurantes favoritos de Lisboa. O texto dessa primeira edição rezava assim:
“Depois de quatro anos na 2780 Taberna, um pequeno restaurante de 26 lugares, em Oeiras, o chef Nuno Barros alterou o código postal e mudou-se para a Fábrica, em Lisboa. O espaço é amplo e de dimensões generosas, mas não deixa de ser acolhedor. Apesar de tender para o escuro, na cozinha trabalha-se às claras, com o palco totalmente aberto para a plateia.
Não há barreiras na sala, mas sim zonas definidas: uma, mais ao fundo, de mesas individuais (40 lugares), apenas disponível para menu de degustação. Outra zona, à entrada, de mesas corridas (onde cabem 40 a 50 pessoas), com uma carta de petiscos e pratos que convidam à partilha. Cá fora há ainda a esplanada a funcionar também neste sistema. Não perca o pão feito na casa, sobretudo o de cerveja Guinness, nem a pintada recheada com cabidela de galinha. Aconselha-se também o caldo verde taberneiro (uma recriação do popular prato) e as bochechas de porco preto com migas de batata. Há ainda saladas, um prego de vitela barrosã com ovo a cavalo, uma sandes de entrecosto desfiado e um pouco convencional trio de rissóis (cavala, camarão e choco). Selecção de vinhos maneirinha e a preço saudável.
Factor X: o bolo Eusébio é uma sobremesa de chocolate escuro que vem do tempo da 2780 Taberna e que pretende homenagear o grande jogador do Benfica. Transferência do ano ou joga em ambas as mesas?”
Reflexões finais
O encerramento da 1300 Taberna é, antes de mais, a história de um projecto empresarial familiar que chegou ao fim depois de 14 anos de actividade. De forma discreta, Nuno Barros construiu ali um negócio com uma certa solidez, que soube adaptar-se às mudanças do mercado lisboeta – beneficiando, como tantos outros, do crescimento do turismo (no seu caso, mais corporativo) – sem nunca abandonar a sua proposta gastronómica construída ao longo de quase uma década e meia. Sim, talvez pudesse ter feito mais, ter aparecido mais, mostrado maior dinamismo, mas esse não é o seu feitio. Porém, a questão vai mais além. E se tivesse feito isso tudo e continuasse a ser uma referência gastronómica da cidade, mesmo que não fosse das mais badaladas, teria sobrevivido àquele que parece ser a nova realidade da LX Factory?
A sua saída do espaço de Alcântara, parece reflectir as transformações de um lugar que evoluiu desde os seus primórdios alternativos e vibrantes para uma lógica mais comercial. Sim, podemos sempre encolher os ombros e dizer que é o ciclo natural dos espaços urbanos: nascem com uma identidade, crescem, transformam-se e, eventualmente, reinventam-se. Só que, infelizmente, cada vez ficam mais parecidos com outros, mesmo que o embrulho possa parecer diferente.
Fotos: Paulo Barata e Miguel Pires
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Fiquei triste com a leitura deste artigo.Acompanhei o Nuno desde o 2780 e depois no 1300, que recomendei a muita gente e que também frequentei nos tempos de eventos como o Sangue na Guelra.O Nuno mereceu o êxito alcançado e nunca quis “aparecer mais”, talvez um erro, sim, mas as pessoas têm perfis de comportamento diferente e isso e respeitável.Tentarei lá ir antes de 4 de Outubro e também tentarei que mais gente faça o mesmo.O Nuno Barros merece uma despedida que lhe demonstre o apreço que muitos temos pelo seu trabalho.E espero que consiga encontrar/criar um novo lugar onde possa apresentar a sua cozinha num ambiente acolhedor.João Teixeira Gomes