Senhor Uva fecha portas: o fim de um ciclo e o início de outro
O Senhor Uva, referência dos vinhos naturais e cozinha plant-based em Lisboa, fecha a 16 de novembro. Marc Davidson em declarações ao Mesa Marcada, explica porquê.
O Senhor Uva, o wine bar restaurante que se tornou referência dos vinhos naturais e da cozinha plant-based em Lisboa, vai fechar portas a 16 de Novembro. O anúncio, feito através do Instagram na quarta-feira, surpreendeu a comunidade gastronómica da cidade, porém em conversa com Marc Davidson, co-proprietário do espaço, (junto com a sua mulher e chef Stéphanie Audet), percebe-se que a decisão teve o seu ponderamento e surge num momento de mudança pessoal e profissional para o casal (luso) canadiano.
“A Lisboa de hoje não é a mesma que encontrámos em 2018”, explica Davidson ao telefone. “Não é a mesma maneira de trabalhar, as coisas têm um custo muito mais elevado, e se já era uma luta fazer dinheiro aqui, agora está ainda mais difícil.”
Por que agora? A tempestade perfeita
A decisão de encerrar resulta de uma conjugação de factores. O primeiro sinal surgiu quando os proprietários do Senhor Manuel – o espaço em frente ao Senhor Uva que funcionava como extensão do restaurante – decidiram não renovar o contrato de cinco anos, pedindo o triplo da renda. “Para nós não fazia sentido pagar 2.500 euros por 30 metros quadrados, sem cozinha, sem nada”, explica Davidson.
Mas o factor decisivo veio de duas frentes: uma proposta de compra do espaço do Senhor Uva (que o casal tinha adquirido há dois anos) e a notícia de que Stéphanie e Marc vão ser pais nas próximas semanas. “Não esperávamos. A Stéphanie achava que não dava para ter filhos, e isto aconteceu”, revela o escanção, com emoção contida na voz.
Davidson é franco na sua análise do actual momento da restauração lisboeta: “A malta que está a abrir restaurantes está a chegar com muito dinheiro, com muito PR, investimentos no design, nas “vibes”, nos “trends”. Antigamente, quando abrimos, era mais a onda e a identidade das pessoas que estavam a trabalhar, e isso é que dava alma aos lugares.”
Para um projecto de nicho como o Senhor Uva, competir tornou-se cada vez mais complicado. “É ainda mais difícil competir com grupos, uma malta que tem mais recursos. Quando fazemos uma coisa mais de nicho, não é fácil”, admite.
A gestão operacional também pesou na decisão. O Senhor Manuel, sem infra-estrutura própria – não tinha cozinha -, obrigava a uma logística complicada. “Quando chove, ter de levar pratos de um lado para o outro é uma confusão. Temos que pagar duas rendas, dois seguros… Dobrámos os nossos custos de tudo”, explica Davidson.
Pinot Bar e um refúgio no Alentejo
O encerramento do Senhor Uva não significa uma saída do sector. O casal vai concentrar-se no Pinot Bar, localizado 500 metros acima, que será transformado num bistro com serviço de almoços e chefs convidados. “O Pinot encaixa-se entre o bar e o restaurante. É menos sério, mais fácil, menos compromisso da parte do cliente”, analisa Davidson, acrescentando que grande parte da equipa do Senhor Uva transitará para o novo projecto.
Paralelamente, o casal está a comprar “um monte no Alentejo, uma pequena quinta” onde pretendem renovar uma casa antiga, plantar a sua própria horta e ter uma vida mais calma. Quanto à permanência em Portugal (são originários de Montreal, no Canadá), Marc é peremptório: “Por nós, estamos aqui para sempre. O nosso filho é português, já sou português e estamos aqui para ficar”, afirma com convicção.
Sete anos que mudaram Lisboa
Quando Marc Davidson e Stéphanie Audet abriram o Senhor Uva em Fevereiro de 2019, Lisboa era uma cidade diferente. O turismo explodia, os restaurantes multiplicavam-se, mas poucos apostavam genuinamente nos vinhos naturais ou numa cozinha vegetariana mais criativa, com um toque de sofisticação.
Num espaço de apenas 50 metros quadrados, numa semi-cave da Lapa, Davidson montou uma das melhores cartas de vinhos alternativos do país – cerca de 150 referências de produtores biodinâmicos, naturais e de intervenção mínima, com 30 a 35 referências nacionais em rotação constante. Do outro lado da operação, Stéphanie Audet trouxe uma abordagem plant-based que ajudou a revolucionar a forma como olhamos para a cozinha vegetariana. Longe das tristes imitações de pratos de carne, os seus pratos de cariz mediterrânico conquistaram omnívoros convictos.
O anúncio de encerramento provocou uma onda de reacções emotivas na comunidade gastronómica. Na caixa de comentários do Instagram, multiplicaram-se as mensagens de agradecimento e pesar. Paulo Sebastião, fundador da padaria Isco, confessou: “O vosso espaço foi muito importante num período difícil da minha vida. Obrigado pela tamanha hospitalidade e pelo vosso carinho.” David Campo, proprietário do Austa, foi efusivo: “Vocês mudaram o jogo e mal podemos esperar para ver o que o próximo capítulo traz.” E as My Mother’s Daughters agradeceram por terem levado “a cozinha plant-based a outro nível – com paixão, propósito e coração.”
Luis Patrão e Eduarda Dias, produtores da Vadio Wines, na Bairrada, deixaram, também, uma reflexão mais alargada sobre o impacto do projecto, numa publicação da sua página: “Num tempo em que ainda era mais difícil explicar vinhos de Baga e da Bairrada em Portugal do que no estrangeiro, o Senhor Uva ajudou a mudar percepções, abrindo portas para tantos wine bars e garrafeiras independentes por todo o país.”
Em Agosto de 2020, escrevi sobre o Senhor Uva para a Revista de Vinhos, chamando-lhe “uma pequena jóia, para beber, comer e voltar (muitas vezes)”. Cinco anos depois, mantenho cada palavra. Na altura, já notava como Marc Davidson tinha construído não apenas uma carta de vinhos, mas uma curadoria que educou palatos. O canadiano conhecia bem o que se fazia a nível internacional e dominava cada vez melhor o que se produzia em Portugal, mantendo um contacto regular com pessoas do meio e visitando produtores no terreno.
Do lado da cozinha, os pratos de Stéphanie – como o escabeche de funcho com puré de alcachofras, o labneh com ervilhas e favas, ou a salada com molho césar vegano feito de caju e feijão branco – conquistavam pela criatividade e sabor. O serviço, sem luxos mas cuidadoso, primava pelos detalhes: copos certos, temperaturas ideais, aconselhamento personalizado, preços sensatos.
O que sempre fascinou neste lugar foi a capacidade de criar excelência sem artifícios. Numa semi-cave com apenas 14 lugares sentados, Marc e Stéphanie provaram que a alma de um restaurante não se mede em metros quadrados ou investimento em design, mas na paixão e conhecimento de quem o faz acontecer diariamente.
O legado continua
Apesar do encerramento físico, Marc Davidson garante que o projecto não desaparece completamente. “Não estamos a vender o conceito, nem o nome. O Senhor Uva talvez vai voltar a fazer eventos. Estamos a começar, talvez, a fazer residências noutro país, noutro restaurante.”
A decisão, admite, tem uma “grande carga emocional”. “Estamos muito tristes porque investimos muito de nós também, muita emoção nesse projecto. Mas eu acho que é um tempo bom para nós dizer, ok, fazemos uma pausa e começamos de novo em breve.”
Depois de “15 anos em Montreal e agora 7 aqui, sem parar”, o casal sente que chegou o momento de “conseguir descansar e aproveitar um pouco da vida”. Com um filho a caminho e um refúgio no Alentejo em vista, Marc e Stéphanie preparam-se para um novo capítulo, mas sempre em Portugal.
O Senhor Uva continuará a funcionar normalmente até 16 de Novembro, sete dias por semana, das 18h30 às 24h. Para quem quiser despedir-se deste espaço que marcou a gastronomia lisboeta dos últimos sete anos, restam pouco mais de três semanas.
O encerramento sinaliza as dificuldades desta nova era na restauração independente de Lisboa. Todavia, o momento pode ser também o inicio de algo novo. Com o Pinot Bar a transformar-se em bistro, e a possibilidade de residências em outros lugares , o espírito do Senhor Uva continuará, ainda que noutros formatos.
“Fizemos 7 anos, que é muito bom”, resume Davidson com um certo pragmatismo. E de facto, numa cidade onde os restaurantes abrem e fecham a um ritmo (demasiado) elevado, sete anos sempre relevantes, de casa cheia, sem concessões ao mainstream, é um feito notável.
O Senhor Uva provou que é possível fazer restauração com alma, criar comunidade à volta de um projecto eno-gastronómico e educar palatos sem sermões ou pretensiosismos. Esse, talvez, seja o seu maior legado.
Fotos: as 3 primeiras foram retiradas do instagram do restaurante. As restantes são minhas
O Senhor Uva, o wine bar restaurante que se tornou referência dos vinhos naturais e da cozinha plant-based em Lisboa, vai fechar portas a 16 de Novembro. O anúncio, feito através do Instagram na quarta-feira, surpreendeu a comunidade gastronómica da cidade, porém em conversa com Marc Davidson, co-proprietário do espaço, (junto com a sua mulher e chef Stéphanie Audet), percebe-se que a decisão teve o seu ponderamento e surge num momento de mudança pessoal e profissional para o casal (luso) canadiano.
“A Lisboa de hoje não é a mesma que encontrámos em 2018”, explica Davidson ao telefone. “Não é a mesma maneira de trabalhar, as coisas têm um custo muito mais elevado, e se já era uma luta fazer dinheiro aqui, agora está ainda mais difícil.”
Por que agora? A tempestade perfeita
A decisão de encerrar resulta de uma conjugação de factores. O primeiro sinal surgiu quando os proprietários do Senhor Manuel – o espaço em frente ao Senhor Uva que funcionava como extensão do restaurante – decidiram não renovar o contrato de cinco anos, pedindo o triplo da renda. “Para nós não fazia sentido pagar 2.500 euros por 30 metros quadrados, sem cozinha, sem nada”, explica Davidson.
Mas o factor decisivo veio de duas frentes: uma proposta de compra do espaço do Senhor Uva (que o casal tinha adquirido há dois anos) e a notícia de que Stéphanie e Marc vão ser pais nas próximas semanas. “Não esperávamos. A Stéphanie achava que não dava para ter filhos, e isto aconteceu”, revela o escanção, com emoção contida na voz.
Davidson é franco na sua análise do actual momento da restauração lisboeta: “A malta que está a abrir restaurantes está a chegar com muito dinheiro, com muito PR, investimentos no design, nas “vibes”, nos “trends”. Antigamente, quando abrimos, era mais a onda e a identidade das pessoas que estavam a trabalhar, e isso é que dava alma aos lugares.”
Para um projecto de nicho como o Senhor Uva, competir tornou-se cada vez mais complicado. “É ainda mais difícil competir com grupos, uma malta que tem mais recursos. Quando fazemos uma coisa mais de nicho, não é fácil”, admite.
A gestão operacional também pesou na decisão. O Senhor Manuel, sem infra-estrutura própria – não tinha cozinha -, obrigava a uma logística complicada. “Quando chove, ter de levar pratos de um lado para o outro é uma confusão. Temos que pagar duas rendas, dois seguros… Dobrámos os nossos custos de tudo”, explica Davidson.
Pinot Bar e um refúgio no Alentejo
O encerramento do Senhor Uva não significa uma saída do sector. O casal vai concentrar-se no Pinot Bar, localizado 500 metros acima, que será transformado num bistro com serviço de almoços e chefs convidados. “O Pinot encaixa-se entre o bar e o restaurante. É menos sério, mais fácil, menos compromisso da parte do cliente”, analisa Davidson, acrescentando que grande parte da equipa do Senhor Uva transitará para o novo projecto.
Paralelamente, o casal está a comprar “um monte no Alentejo, uma pequena quinta” onde pretendem renovar uma casa antiga, plantar a sua própria horta e ter uma vida mais calma. Quanto à permanência em Portugal (são originários de Montreal, no Canadá), Marc é peremptório: “Por nós, estamos aqui para sempre. O nosso filho é português, já sou português e estamos aqui para ficar”, afirma com convicção.
Sete anos que mudaram Lisboa
Quando Marc Davidson e Stéphanie Audet abriram o Senhor Uva em Fevereiro de 2019, Lisboa era uma cidade diferente. O turismo explodia, os restaurantes multiplicavam-se, mas poucos apostavam genuinamente nos vinhos naturais ou numa cozinha vegetariana mais criativa, com um toque de sofisticação.
Num espaço de apenas 50 metros quadrados, numa semi-cave da Lapa, Davidson montou uma das melhores cartas de vinhos alternativos do país – cerca de 150 referências de produtores biodinâmicos, naturais e de intervenção mínima, com 30 a 35 referências nacionais em rotação constante. Do outro lado da operação, Stéphanie Audet trouxe uma abordagem plant-based que ajudou a revolucionar a forma como olhamos para a cozinha vegetariana. Longe das tristes imitações de pratos de carne, os seus pratos de cariz mediterrânico conquistaram omnívoros convictos.
O anúncio de encerramento provocou uma onda de reacções emotivas na comunidade gastronómica. Na caixa de comentários do Instagram, multiplicaram-se as mensagens de agradecimento e pesar. Paulo Sebastião, fundador da padaria Isco, confessou: “O vosso espaço foi muito importante num período difícil da minha vida. Obrigado pela tamanha hospitalidade e pelo vosso carinho.” David Campo, proprietário do Austa, foi efusivo: “Vocês mudaram o jogo e mal podemos esperar para ver o que o próximo capítulo traz.” E as My Mother’s Daughters agradeceram por terem levado “a cozinha plant-based a outro nível – com paixão, propósito e coração.”
Luis Patrão e Eduarda Dias, produtores da Vadio Wines, na Bairrada, deixaram, também, uma reflexão mais alargada sobre o impacto do projecto, numa publicação da sua página: “Num tempo em que ainda era mais difícil explicar vinhos de Baga e da Bairrada em Portugal do que no estrangeiro, o Senhor Uva ajudou a mudar percepções, abrindo portas para tantos wine bars e garrafeiras independentes por todo o país.”
Em Agosto de 2020, escrevi sobre o Senhor Uva para a Revista de Vinhos, chamando-lhe “uma pequena jóia, para beber, comer e voltar (muitas vezes)”. Cinco anos depois, mantenho cada palavra. Na altura, já notava como Marc Davidson tinha construído não apenas uma carta de vinhos, mas uma curadoria que educou palatos. O canadiano conhecia bem o que se fazia a nível internacional e dominava cada vez melhor o que se produzia em Portugal, mantendo um contacto regular com pessoas do meio e visitando produtores no terreno.
Do lado da cozinha, os pratos de Stéphanie – como o escabeche de funcho com puré de alcachofras, o labneh com ervilhas e favas, ou a salada com molho césar vegano feito de caju e feijão branco – conquistavam pela criatividade e sabor. O serviço, sem luxos mas cuidadoso, primava pelos detalhes: copos certos, temperaturas ideais, aconselhamento personalizado, preços sensatos.
O que sempre fascinou neste lugar foi a capacidade de criar excelência sem artifícios. Numa semi-cave com apenas 14 lugares sentados, Marc e Stéphanie provaram que a alma de um restaurante não se mede em metros quadrados ou investimento em design, mas na paixão e conhecimento de quem o faz acontecer diariamente.
O legado continua
Apesar do encerramento físico, Marc Davidson garante que o projecto não desaparece completamente. “Não estamos a vender o conceito, nem o nome. O Senhor Uva talvez vai voltar a fazer eventos. Estamos a começar, talvez, a fazer residências noutro país, noutro restaurante.”
A decisão, admite, tem uma “grande carga emocional”. “Estamos muito tristes porque investimos muito de nós também, muita emoção nesse projecto. Mas eu acho que é um tempo bom para nós dizer, ok, fazemos uma pausa e começamos de novo em breve.”
Depois de “15 anos em Montreal e agora 7 aqui, sem parar”, o casal sente que chegou o momento de “conseguir descansar e aproveitar um pouco da vida”. Com um filho a caminho e um refúgio no Alentejo em vista, Marc e Stéphanie preparam-se para um novo capítulo, mas sempre em Portugal.
O Senhor Uva continuará a funcionar normalmente até 16 de Novembro, sete dias por semana, das 18h30 às 24h. Para quem quiser despedir-se deste espaço que marcou a gastronomia lisboeta dos últimos sete anos, restam pouco mais de três semanas.
O encerramento sinaliza as dificuldades desta nova era na restauração independente de Lisboa. Todavia, o momento pode ser também o inicio de algo novo. Com o Pinot Bar a transformar-se em bistro, e a possibilidade de residências em outros lugares , o espírito do Senhor Uva continuará, ainda que noutros formatos.
“Fizemos 7 anos, que é muito bom”, resume Davidson com um certo pragmatismo. E de facto, numa cidade onde os restaurantes abrem e fecham a um ritmo (demasiado) elevado, sete anos sempre relevantes, de casa cheia, sem concessões ao mainstream, é um feito notável.
O Senhor Uva provou que é possível fazer restauração com alma, criar comunidade à volta de um projecto eno-gastronómico e educar palatos sem sermões ou pretensiosismos. Esse, talvez, seja o seu maior legado.
Fotos: as 3 primeiras foram retiradas do instagram do restaurante. As restantes são minhas
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