Opinião

Emily, precisamos de falar sobre Paris…

Emily in Paris, da Netflix

“Mas que menina insuportável, que euforia irritante, que pessoa irreal, metida a feliz e boazinha com todos!”. As palavras carinhosas vieram da boca de minha filha, “mea maxima filha”, pessoinha crítica como a mãe. 

É compreensível a irritação dos franceses com o sucesso de Emily in Paris (série da Netflix, líder de audiências um pouco por todo o lado, incluindo em Portugal). Como pode o mundo gostar tanto de um roteiro adolescente, raso, com clichês socados e empilhados como num club sandwich

A verdade é que ninguém resiste a um “grande nada” bem embrulhado. Quem não quer escapar dos problemas vendo lindas tomadas à beira do Sena? Somos felizes como vacas, ruminando um grande chiclete mental. As frustrações do isolamento desaparecem na trama que é leve como uma passada de dedos pelo Instagram ou uma folheada de revista no cabeleireiro: uma sequência de fotos bonitas sem grande uso de massa encefálica. 

Pena que o roteirista deteste comer. 

Num dos capítulos iniciais, a diretora da agência de publicidade (chefe de Emily) diz que trocará o almoço por um cigarro. Calúnia! Na Declaração dos Direitos do Homem e da Cidadã Francesa, estão lá a liberdade, propriedade, segurança e a resistência à opressão dos vestidos. Mulheres francesas jamais trocariam uma coisa pela outra. Somariam o cigarro a todos aqueles pratos com manteiga, uns queijinhos, a obrigatória salada, uma baguette e um bom copo de vinho. O segredo está em comer bem, mas pouco, e caminhar louca e quotidianamente.

Tenho certeza de que blogueiros, influencers e críticos de moda passarão o dia comentando os “do’s and dont’s” em vestidos, bolsas, cabelos e sapatos. Aos gulosos, adianto: a cotação das cenas gastronómicas poderia ser de um, dois ou três bocejos. 

Tive esperanças quando Emily se apaixonou por um chef, mas o bonitão rendeu apenas uma piada besta sobre o coq au vin (coq? cock?) além de uma discussão sobre o ponto da carne que deixei de ter com meus filhos assim que completaram seis anos de idade. 

Já que os potes de manteiga de amendoim que trouxe dos EUA (um bocejo) apareceram quebrados na mala, Emily decide experimentar a omelete do chef Gabriel, supostamente maravilhosa porque a frigideira jamais fora lavada (dois bocejos). 

Achei até simpática a cena no Café de Flore, ponto turístico incontornável para uma iniciante em Paris, mas em vez de falar de um óbvio croque monsieur (já que o assunto é clichê) decidiram comentar justamente da salada mais “internacional” do menu: a caesar, concebida e parida em Tijuana, no México.

E a banalização da gastronomia continua… Num bistrô, a amiga americana de Emily, que já morava na cidade há algum tempo, comenta sobre o ris de veau (molejas de vitela): “I think it’s brains or balls, but it tastes like ass” (três bocejos). O diálogo acontece enquanto as duas seguram os copos pelo bojo, aquecendo insistentemente meu líquido preferido em inúmeras cenas.  

Impressionar um cliente com uma reserva no Grand Véfour? Pfff! Nada contra aquele espaço deslumbrante, mas tente uma reserva no Septime (nenhum bocejo) ou David Toutain (idem) para entender a necessidade de ter bons contatos na vida. 

Pensando bem, que bom que o pain au chocolat veio de uma boulangerie simpática, mas inexpressiva, escolhida como locação! Deixaram em paz os escargots de pistache da Du Pain et des Idées, que já rendem fila suficiente. Que nunca descubram a mesinha de canto do Clamato e seus frutos do mar regados a vinhos do Jura; que jamais façam espichar a fila para o bao de queijo Stilton com cereja amarena da boutique Yam’Tcha e, ainda, que não sejam informados de seu novo bistrô chinês, o Lai’Tcha. Que nos liberem as banquetas do L’Avant Comptoir de La Mer e esqueçam as garrafas de vinhos naturais do Mary Celeste! – juntei as mãos em breve oração.  

Siga, Emily! Seja o cão de pastoreio daqueles que acham que uma foto “pop” vale mais que comer bem! 

A padaria e todas as outras localizações do filme provavelmente terão o mesmo destino do Grand Colbert que, se tinha algum charme, acabou por perdê-lo depois do cartaz imenso com o rosto de Jack Nicholson e Diane Keaton que agora adorna a fachada e serve de isca para turistas. 

Brincadeiras à parte, a verdade é que o sucesso da série fará com que Paris provavelmente se torne o destino mais procurado pelos turistas, quando caírem as barreiras sanitárias. Cada canto do filme será perseguido, instagramado e hashtagueado, com ou sem filtro. 

Que seja! Afinal, todos sabemos que até a Paris “errada” é sempre uma escolha certa. 

4 comments on “Emily, precisamos de falar sobre Paris…

  1. Brilhante! Delícia de texto – mais ainda porque concordo e já deixei salvas tantas dicas deliciosas que ainda não conheço.

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  2. Rogerio Daudt

    Cris sempre sensacional, mesmo quando ácida. Porque tem sempre razão!!! Parabéns!!! Textos sempre deliciosos!!!

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  3. Não. Esta prosa Fácil só pode estragar A Mesa Marcada!

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  4. jorge fortunato

    Muito bom! Aliás, fico torcendo que tenha uma segunda temporada e que Emily continue na Paris pra inglês ver. De fato, certos lugares depois que aprecem assim, perdem a graça e o charme. Um bom exemplo é o Polydor que apreceu em Meia-noite em Paris. Conhecia o bistrô havia anos, mas depois do filme…

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