Restaurantes

Uma visita do Rei dos Leitões

Já se sabe que é muito difícil um leitão à Bairrada ser totalmente mau, tal a felicidade da receita, mas a verdade é que há diferenças de qualidade entre os muitos restaurantes que praticam esta arte ancestral na Mealhada. O Rei dos Leitões, casa com mais de 70 anos de existência, tem vindo a destacar-se entre os apreciadores nos últimos tempos – não só pela cozinha, mas também por uma garrafeira com mais 3500 referências, entre as quais sobressaem os vinhos bairradinos dos anos 50, 60 e 70 – mas eu infelizmente nunca lá fui. Foi preciso esta pandemia para que eles gentilmente fizessem chegar à minha casa lisboeta não apenas o seu prato mais emblemático, mas também outras especialidades, incluindo doces, que me banquetearam um fim de semana. 

A assadura e o tempero do leitão estavam perfeitos, mas fiquei surpreendido com o sabor da carne, sem aqueles excessos de gordura acanalhada que geralmente denunciam origem duvidosa. “Não queremos oscilações na qualidade, por isso trabalhamos só com um fornecedor aqui da Bairrada, que cria leitões cruzados com bísaro, abatidos com cerca de sete semanas”, explicou-me ao telefone António Paulo Rodrigues, proprietário do Rei dos Leitões juntamente com Licínia Ferreira, confirmando que a carne é realmente superlativa. 

Actualmente, estão concentrados no take-away e entregas ao domicilio, que abrangem Lisboa e Porto, mas chegam “até ao Algarve” – disse-me o mesmo responsável -, funcionando durante toda a semana, excepto à quarta-feira. E tem corrido bem, a ponto de garantir os postos de trabalho mesmo com o restaurante fechado. Agora, estão a assar entre 100 e 120 leitões por semana, o que compara com o dobro, quando o restaurante estava aberto.

Além do belíssimo leitão, acompanhado por batatas fritas às rodelas, secas de óleo e estaladiças, fizeram-me também chegar sapateira recheada, ovas de pescada e outro prato típico da região, enguias fritas em escabeche.Da autoria da responsável pela pastelaria Lídia Ribeiro,  vieram ainda um morgado e um delicioso pão-de-ló que deu para a semana toda (foto acima). “É claro que o leitão é o que tem mais saída, inclusive porque mantém a qualidade mesmo quando transportado para longe, mas, principalmente entre as pessoas daqui da nossa zona, há pedidos de vários outros pratos”, sublinha António Paulo Rodrigues. Como é evidente, muitas vezes o leitão chega frio, mas, na minha opinião (e parece que também de muitos clientes), come-se também muito bem assim, nada de o voltar a pôr no forno. “O bom apreciador não reaquece o leitão. Quando o restaurante está aberto, há mesmo vários clientes que o preferem frio”, sublinha o proprietário do restaurante da Mealhada.

O Rei dos Leitões fez parcerias com o Solar dos Presuntos, em Lisboa, e Os Lusíadas, em Matosinhos, que têm disponível o leitão em certos dias da semana, mas quem quiser pedir directamente pode fazê-lo, de preferência com um dia de antecedência, ligando para o tel. 968 123 084. 

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

3 comments on “Uma visita do Rei dos Leitões

  1. Susana Bettencourt

    Comer Leitão a vários quilómetros da Bairrada é o equivalente a comer um arroz malandrinho com uma hora decorrida após a sua confecção.
    🤦‍♀️

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  2. Hugo Matias

    Não sei como é que o Duarte nunca foi ao Rei dos Leitões… Não é só o Leitão que é rei, o serviço, a delicadeza com que se serve, o conhecido exaustivo de muitos funcionários sobre gastronomia e vinho, entre muitos outros detalhes que fazem com que seja bastante diferente de qualquer outro naquela avenida.

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  3. Fernando Lourenço

    Sem dúvida, o melhor entre os melhores! 🥂🥂🥂

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