Ingredientes Restaurantes

Ir à Praça sem sair de casa

Portugal é um país pequeno com boas estradas, mas há pequenos produtores campestres que acham que não compensa levar os seus produtos até aos consumidores dos grandes centros urbanos. Ou até desconhecem a apetência que possa existir nestas cidades pelos seus produtos artesanais. E há também muitos consumidores dos grandes centros que desconhecem que – às vezes a poucas dezenas de quilómetros de onde vivem – existem produtos diferentes, com qualidade superior aos que habitualmente encontram nos supermercados e nas lojas citadinas onde se abastecem. Solucionar este desencontro pode parecer fácil à primeira vista, mas a verdade é que coloca uma série de questões, nomeadamente comerciais e logísticas, que tardam em ser resolvidas, com prejuízo quer de produtores artesanais quer de consumidores que buscam qualidade e genuinidade.

Algumas iniciativas surgidas nos últimos tempos têm procurado fazer essa aproximação campo-cidade, casos, por exemplo, do Projecto Matéria, impulsionado pelo chefe João Rodrigues, muito útil aos profissionais da restauração mas também aos consumidores em geral, ou lojas como a Comida Independente, que tem feito um esforço meritório de trazer para Lisboa alguns produtos portugueses excepcionais, criando inclusive um Mercado de Produtores, que decorre nas manhãs de sábado na Praça de São Paulo, ao Cais Sodré. 

No entanto, há um novo projecto que pela sua dimensão e capacidade de investimento (cerca de três milhões de euros) poderá ter um impacto significativo nessa desejada aproximação. Trata-se de a Praça, que em Setembro deverá abrir no Hub Criativo do Beato, em Lisboa, no local das antigas instalações da Manutenção Militar, ocupando uma área de 1700 m2, dividida por dois edifícios que manterão a traça original, com 10 espaços dedicados ao comércio e restauração, onde predominarão os produtos portugueses artesanais, sustentáveis e biológicos.

Devo declarar que tenho grande simpatia por este projecto, ao qual prestei uma pequena consultoria na fase primordial de definição, e fiquei muito bem impressionado com o profissionalismo e entusiasmo das pessoas que o conduzem. A Praça acabaria por ganhar o concurso lançado em 2018 pela Startup Lisboa para a ocupação, na vertente de comércio e serviços, do espaço do Hub, onde já estão outras empresas a funcionar, e, segundo Cláudia Almeida e Silva, a directora-geral do projecto, “as obras estão a arrancar e no próximo mês de Setembro deverão abrir pelo menos algumas das unidades previstas, sendo que o objectivo é que no Natal esteja tudo a funcionar a 100%”.

Como em tudo, também aqui a pandemia veio baralhar os planos, mas acabou por ser aproveitada. “Na verdade, esta paragem possibilitou amadurecer o projecto e proceder a alguns ajustes, principalmente nas obras a realizar”, explica Cláudia Almeida e Silva. E também impulsionou o arranque da Praça Digital, que permite desde o ano passado encomendar produtos online, distribuídos a partir de um armazém no Beato. “Foi uma maneira de dar a conhecer o nosso projecto aos que julgamos ser os futuros clientes do espaço e testar os produtos que iremos oferecer”, diz a mesma responsável. As entregas são feitas a partir de um espaço provisório no Beato, mas já foi adquirido um armazém com 500 m2, também no Beato, onde serão definitivamente concentrados os produtos para entrega domiciliar, algo que será para continuar, mesmo depois da Praça abrir.

Neste momento, a Praça Digital já contabiliza cerca de 700 produtos oriundos de mais de 140 produtores nacionais e vale a pena ver o que têm para oferecer. Já tive a experiência repetida de cliente normal e fiquei contentíssimo com o que encomendei, com a pontualidade da entrega e deslumbrei-me com a beleza de ver estes produtos frescos e resplandecentes, com as suas cores e formas variadas, tão bem acondicionados (ver foto de abertura de uma das encomendas que recebi). “A boa apresentação é para nós um ponto de honra” – confirmou-me a directora-geral da Praça -, “não faria sentido andar à procura de bons produtos e depois não os valorizar no momento em que chegam aos clientes. Quando abrirmos no Beato esse cuidado vai ser ainda mais evidente”.

Também recebi da Praça Digital, desta vez de presente, para experimentar, um cozido à portuguesa, que eles entregam aos domingos ao almoço (encomendas até às 12h da sexta-feira anterior), com uma boa variedade de ingredientes oriundos dos produtores com quem trabalham. Não sou a melhor pessoa para julgar este prato, de que não sou especial adepto, até porque não gosto de orelheira, chispes, pés ou outras peças no género que fazem as delícias dos apreciadores. Pedi para que não as incluíssem, mas mesmo assim foi um festival de carnes e enchidos, oriundos de vários pontos do país, legumes, arroz e grão de bico, tudo muito bom, ajudado por um caldo com que se rega os ingredientes (fora o arroz) antes de ser reaquecido no forno durante 12 minutos. Mais prático não há e, sendo um prato que vale sobretudo pela qualidade e variedade dos ingredientes, é uma óptima opção para os tempos que correm, sobretudo nesta estação fria. Custa 29 euros.

O responsável pela confecção é o chefe Bernardo Agrela (ex-Cave 23), que dirige a parte culinária da Praça, mas falei com Francisco Sousa Magalhães (ex-Apicius, ex-Taberna 2780), em Oeiras), ligado ao projecto desde o início e actualmente encarregue da gestão comercial e selecção dos produtos, que tem percorrido o país em busca de fornecedores. “Começámos há cerca de um mês com estas entregas, aproveitando a Feira do Fumeiro que estamos a realizar na Praça Digital, e a adesão tem sido muito boa. A ideia que está na base deste projecto é possibilitar aos clientes provarem os pratos confecionados e, se gostarem, poderem comprar os produtos que comeram. O cozido é já uma concretização desse objectivo”, Ele não põe de parte fazerem o mesmo com outros pratos, mas, até à Primavera, será o cozido, que, no entanto, irá variando de enchidos. 

Cláudia Almeida e Silva, que, antes de criar este projecto, foi durante nove anos directora-geral da FNAC em Portugal, salienta a mesma ideia quando fala do que será a Praça, no Beato, quando abrir: “Se um cliente vai ao nosso Talho, pode provar um prego com carne mirandesa, percebe a qualidade do produto e quer levar para casa, vai ter um local ao lado onde o pode comprar”. Além deste espaço dedicado a carnes, haverá outro para Peixes, outros três para Frescos (Saladas/Vegetariano/Cru), uma Mercearia, Tábuas (charcutaria e queijos), Doçaria (responsabilidade de Joana Xardoné, ex-Apicius e ex- Taberna 2780), Adega e um Refeitório, com cozinha mais variada, que reconstitui precisamente o antigo refeitório da Manutenção Militar. E ainda um Fórum, onde poderão decorrer debates, provas e apresentações de produtores, entre outras iniciativas.

Ao todo, a Praça deverá dar emprego a aproximadamente 100 pessoas e a directora-geral sublinha o compromisso não só com a sustentabilidade dos produtos, muitos oriundos da agricultura biológica, mas também com o combate ao desperdício. “Vamos também criar hortas próprias no local e um jardim num terraço no telhado com 9000 m2, o maior da Europa, para ervas aromáticas”, promete. Também estão previstas acções de carácter social, incindindo sobretudo sobre os moradores da zona. A Praça irá abrir todos os dias da semana, com alguns dos espaços a funcionar desde as 7.30h da manhã até à meia-noite, conforme o tipo de oferta que apresentem.

E público para tudo isto, quando a pandemia ainda nos poderá assombrar por mais uns tempos? Cláudia Almeida e Silva frisa que “nunca acreditámos num projecto direccionado para turistas, o nosso foco sempre foi o público português, mas apesar de tudo contávamos mais com eles. Agora, ficaram no último lugar nos quatro tipos de públicos-alvo que identificámos, mas se vierem tanto melhor. Mas, primeiro, contamos com as mais de 3000 pessoas que trabalham nas empresas instaladas no Hub. Depois, com os moradores do eixo Parque das Nações-Beato. De seguida com os lisboetas em geral e só no fim com os turistas”.

Quanto à questão subjacente a todo o projecto – a interacção com os produtores nacionais artesanais e biológicos – a directora-geral da Praça está optimista. “De uma maneira geral, os produtores têm reagido bem às nossas propostas e há inclusive um certo passa-palavra, com alguns deles a indicarem-nos outros ou a recomendarem que entrem em contacto connosco”. E o êxito da Praça Digital também a anima, com muitas sugestões dos clientes sobre novos produtos a incluir na oferta, a ponto de estarem a preparar-se para fazer entregas em todo o país e não apenas na região da Grande Lisboa, como até agora. Mas os problemas logísticos continuam a ser um problema por resolver. “É o ponto mais complicado, há mesmo produtores que estão até a 30 km de Lisboa e não têm capacidade de fazer entregas regularmente. Estamos a analisar a hipótese de sermos nós mesmos a tratar da recolha dos produtos”, diz. Pois, é capaz de ser mesmo a única solução.

Fotografias: Cristina Gomes

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

1 comment on “Ir à Praça sem sair de casa

  1. Artur Hermenegildo

    J+a fiz duas encomendas n’A Praça, tudo muito bom, excelente entrega, altamente recomendado

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