Opinião Restaurantes

JNcQUOI ou o desejo de que volte o “antigo normal”

O JNcQUOI é assumidamente um restaurante de luxo, caro, onde vai quem tem possibilidades e interesse em encontrar certos pratos pouco acessíveis à maioria dos bolsos. Nos seus poucos anos de existência, conseguiu atrair o seu público-alvo, constituído não só por portugueses, mas também por muitos estrangeiros, com destaque para o que fixaram residência na região de Lisboa, e é difícil arranjar mesa sem reserva bastante antecipada. Se a coerência do projecto é um dado a favor deste restaurante situado em plena Avenida da Liberdade, um dos seus principais acertos foi sem dúvida ter entregue a cozinha a um chefe experiente e competente como António Bóia, que consegue apresentar simultaneamente pratos internacionais clássicos e outros mais tipicamente portugueses com enorme nível. 

Das duas vezes que lá consegui ir, antes da pandemia – ao almoço, porque ao jantar estava sempre cheio – lembro-me dos excelentes pastéis de bacalhau, mas também do linguado à Meunière, e, sobretudo, de um arroz de lavagante e garoupa absolutamente fantástico, do qual calculo que comeria uns cinco quilos se não morresse antes (feliz) de indigestão. Nos doces, os originais pastéis Mey Hofmann são imperdíveis. Ainda não fui ao JNcQUOI Ásia, aberto posteriormente, situado um pouco mais abaixo, também na Avenida da Liberdade, mas acredito que a busca pela qualidade seja a mesma.

O JNcQUOI Avenida já abriu o seu espaço interior

Fiquei curioso em saber como a pandemia afectou este projecto, tão frequentado pelos clientes estrangeiros que agora nos faltam em Lisboa, e liguei a António Bóia. Também estava intrigado com o consumo que poderia ter nesta época de dificuldades um prato da célebre carne de vaca japonesa wagyu (ou Kobe, nome pela qual muitas vezes é identificada) que custa 184 euros, levando cerca de 180/200 gr. Pois bem, pelo que me disse o chefe executivo do JNcQUOI, está tudo a correr bem. “Instalámos uma esplanada, que tem estado sempre cheia, e agora reabrimos os espaços interiores, que também estão com boa procura”, diz. Parece que muitos dos residentes estrangeiros habitués continuaram em Lisboa durante este período e quiseram voltar rapidamente, representando nesta altura cerca de 30% a 40% da clientela. 

Quanto à caríssima wagyu – que vem de Kagoshima, no Japão, e tem um grau de “marmoreamento” elevado, isto é, de gordura entremeada – também tudo bem. “Estou a vender cerca de 15 kg por semana”, declara António Bóia, o que é um bom número e um bom sinal. Mas atenção que no JNcQUOI Ásia esta carne é igualmente utilizada, nomeadamente em nigiri (30 euros, 2 unidades), gunkan (24 euros, duas unidades) e num tataki com gema de ovo (35 euros), numa adaptação do habitual sushi com peixes e mariscos que pode ser vista na fotografia inicial do post. Neste restaurante, a reabertura veio com uma mudança, com a instalação do Bar Ganda – assinado pelo arquitecto Lázaro Rosa-Violán, autor dos projectos dos restaurantes do grupo – onde, além de muitos cocktails, se podem apreciar os pratos asiáticos da carta. Ou seja, ao que parece, nos JNcQUOI, com as devidas adaptações, está a voltar-se ao “antigo normal”. Que é muito mais interessante do que o “novo”.

O Bar Ganda é a novidade da reabertura JNcQUOI Ásia

Nasceu em Lisboa em 1963. Licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em diversos jornais (Semanário, Diário Popular e Diário de Lisboa) e, depois, na área de comunicação empresarial. Em 1997, começou a colaborar com a revista “Fortuna” na área de gastronomia e vinhos. Em 1999, criou a página “Boa Vida” para o “Diário de Notícias”, que coordenou até Janeiro de 2009, com algumas interrupções. Entre 2007 e 2019, foi coordenador do Projecto Gastronomia da Associação de Turismo de Lisboa e, nesse âmbito, director do festival gastronómico Peixe em Lisboa, continuando a escrever artigos sobre gastronomia e restaurantes em várias publicações.

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