Critica Gastronómica

Näperõn. A sul algo de novo

Odeceixe, fica na divisão entre o Alentejo e o Algarve, sendo a primeira localidade costeira desta região. Quando se entra na localidade vindo de sul, no alto da Rua 25 de Abril, vemos uma fileira de pequenas casas e um miradouro ao fundo, onde se destaca um moinho restaurado. Praticamente todo o edificado foi recuperado mantendo a traça local e os tons de branco com debruados a azul-cobalto. Uma boa parte destas casas fazem parte do recatado turismo de aldeia Casas do Moinho e mais ou menos a meio há uma entrada igualmente discreta que nos leva a um pequeno oásis: uma área relativamente desafogada, com patamares, um terraço abrigado e uma bela piscina. É aqui que fica o Näperõn, de Hugo Nascimento, um restaurante que sem grandes alaridos tem dado que falar. 

Hugo trabalhou quase 25 anos com Vítor Sobral, tendo começado como ajudante de cozinha progredindo até se tornar seu braço direito, sócio e amigo. Porém, algures em 2019, deixou Lisboa para se instalar em Odeceixe com os seus dois filhos e a mulher, Joana, que também trabalhava com Sobral. “Foi um pouco por acaso que isto aconteceu”, referiu o chef lisboeta em Outubro, numa entrevista ao Mesa Marcada. “Três ou quatro dias depois de estarmos lá de férias pela primeira vez, perguntei aos donos se eles gostariam que eu cozinhasse para os hóspedes. Correu tão bem que nos anos seguintes fazia sempre um jantar lá. Por isso, quando decidimos sair de Lisboa, eles convidaram-me para vir para Odeceixe e achámos que seria de facto o local ideal”.

Foi interessante acompanhar a evolução do novo projecto e o entusiasmo do casal ao longo destes três/quatro anos. É verdade que no Instagram raramente o tempo está nublado e situações como a pandemia, um certo isolamento (fora da época alta) e as típicas dificuldades para arranjar pessoal devem ter feito as suas mossas. Porém, não devem ter sido motivo de desalento, pois acabaram envolvidos num segundo restaurante mais informal a poucos metros dali, e, no Näperõn, as condições de trabalho bem como o espaço foram melhorados, tornando o restaurante mais aprazível e arejado, com as mesas de frente para a piscina e uma vista agradável ao longe para disfrutar. 

Chegámos pelas 19h, num daqueles dias abrasadores do início de Julho e agradecemos aos deuses pelo espaço aberto e por estarmos numa zona da costa portuguesa onde as temperaturas são menos impiedosas. Uma hora depois o restaurante estava preenchido, com alguns portugueses, mas sobretudo com estrangeiros, facilmente identificáveis pelo tom avermelhado da pele.

Começámos com uma série de snacks “à portuguesa”, cuidadosamente apresentados em caixas de madeira e elementos orgânicos da flora local: um refrescante e suave gaspacho de melancia clarificado; um óptimo lombo de sardinha ligeiramente curado com um gel de pimento; um crocante torresmo de tamboril (ou seja, a pele do peixe insuflada na fritura), com um contraste fresco de maçã e hortelã da ribeira; uma chamuça de cenoura à algarvia; e uma empada de perdiz que se fosse vendida à janela causaria congestionamentos na região. Tudo tecnicamente no ponto e, mais importante, tudo com muito sabor. 

Este é o primeiro dos 4 momentos do menu que escolhemos. Há outro maior de 7 momentos, sendo que em ambos as sobremesas são à parte, o que faz um certo sentido, uma vez que há clientes que não querem.

Já o “pão e crackers, manteiga de alcagoita, patê de ovas, fundo de salada” estão incluídos, não contando como momento. O pão – que leva farinha de alfarroba – tem todas as características artesanais de um elaborado com massa mãe; o crocante com cominhos (a lembrar um papari), também; e o creme para barrar em forma de alcagoita, numa mistura de manteiga com pasta de amendoim, idem. Valorizou ainda a proposta, o pratinho de ovas misturadas com um pouco de maionese (creio) e o azeite temperado com cebola encurtida. 

Curioso, o prato seguinte, “pargo, gamba, “togareixe” e milho assado”. Brinca com a ideia do ceviche sem o ser. O “togareixe” aqui não é um “leche de tigre”, mas sim um líquido à base de leite de amêndoa e, provavelmente, caldo de peixe temperado com togarashi (mistura de especiarias/condimentos japoneses). A relação é interessante e faz “match”, destacando-se no conjunto a magnifica gamba da costa. 

Por esta altura, já tinham chegado à mesa duas das principais culturas da zona, a alcagoita (amendoim) e o milho. E a terceira, a batata-doce, não demorou e veio da forma mais singela: debaixo de uma sopa/creme verde de coentros. Primeiro desconfia-se…“é isto?” Depois prova-se, com algum receio,  devido à potência da erva aromática. Todavia, o sabor é suave. O assombro vem então quando se leva a colher ao fundo e se pesca um pedaço de batata-doce e um dos frutos secos. Boom! 

Já conhecia a fama de Aljezur e do terroir perfeito para este tubérculo, mas ainda sim, não esperava algo tão definido em termos de sabor. Por outro lado, havia ainda um contraste com o crocante do amendoim local, que ganha essa textura após passar por uma ligeira fermentação, seguido de uma leve fritura. Talvez este momento merecesse um empratamento melhor, até porque Hugo Nascimento costuma ser cuidadoso a esse nível. Ainda assim, foi o prato mais surpreendente da noite. 

O menu escolhido não incluiu carne, porém, teve um bacalhau a fazer a sua vez. Foi talvez o único prato com uma certa filiação na escola de Vítor Sobral. Não apenas pelo ingrediente principal, mas também pelo lado rustico elegante da proposta. Na base, vinha o molho pil pil (feito com a gelatina da pele do peixe emulsionado com azeite e, aqui, com um pouco de colorau, creio), depois um puré de couves e no topo um naco de bacalhau de primeira e um pastel de bacalhau. Estava tudo bem em termos de paladar. Porém, naquele dia quente pareceu-me algo deslocado da época. 

Nas sobremesas, gostámos muito das duas disponíveis: do refrescante sorbet de laranja, maracujá e lúcia-lima e, sobretudo, do elegante e equilibrado mil folhas (à francesa) com creme de requeijão, morango e amêndoa torrada em cima. É assim que gosto de acabar uma refeição, com uma sobremesa relativamente leve, mas doce. Ou melhor, equilibrada na doçura. 

Em termos de vinhos, a curta carta do Naperon, com pouco mais de duas dezenas de referências, dá a entender que existe alguma preocupação na escolha, ao ter alguns produtores locais e um ou outro vinho desenhado com Dirk Niepoort, mas não é a preocupação principal. E é pena, porque o conceito do lugar, as propostas do chef e a abertura de espírito de uma clientela em férias, reúnem as condições perfeitas para harmonizar com vários tipos e estilos de vinhos a copo. É verdade que para tal, é preciso serviço – um escanção ou alguém bem treinado para tal -, mas um profissional com essas características não deve ser fácil de encontrar na zona. 

Já em termos de atendimento, o serviço foi positivo. Quem cuidou de nós, fê-lo com eficácia, disponibilidade e apreço. 

Hugo Nascimento veio para a Costa Vicentina em busca de uma vida mais calma. Felizmente, para nós, que gostamos de comer, não virou instrutor de surf ou de yoga. Trouxe antes com ele toda a experiência e talento, deu azo à criatividade, buscou os incríveis produtos locais, confeccionou-os à sua maneira e estendeu tudo sobre este naperon. E não está a dar-se nada mal. 

Preço médio com vinho, 70/80€ por pessoa

Endereço: Rua 25 Abril 113, Odeceixe

Horário: Terça a Domingo, 19:00–22:00. Encerra à segunda-feira. Telefone: 916 177 333 

Cozinha: 17.5; Sala. 16.5; Vinhos:15

Texto publicado originalmente na Revista de Vinhos Nº 393 (Agosto). Fotos:Miguel Pires

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