Depois de termos partido do Porto, em direcção a terras de Monção e Melgaço, numa rota de dois dias pela Região dos Vinhos Verdes, no segundo dia deixámos o Hotel Monte Prado e, seguindo a EN202, em paralelo ao Rio Minho, continuámos até sul de Melgaço. Aqui, encontrámos a EN101 que liga Valença a Mesão Frio, uma via concluída em 1983, em tempos considerada uma das mais bonitas estradas nacionais. Na altura, foi vista como uma via estruturante pela ligação estratégica de 4 distritos do Norte, bem como de 6 dos maiores rios nortenhos: Douro, Tâmega, Ave, Cávado, Lima e Minho – todos eles com a sua importância para Região dos Vinhos Verdes.
Uma prova vertical no Palácio da Brejoeira
Na mesma via, na sequência de uma longa reta, uma placa dourada marca o início da povoação de Pinheiros, cuja principal referência é uma das icónicas propriedades ligadas ao vinho em solo nacional, o Palácio da Brejoeira.
Já o vimos representado centena de vezes, nomeadamente na imagem reproduzida no rótulo do emblemático vinho que leva o seu nome e de que é o seu maior embaixador. Porém, não é por isso que deixou de nos impactar, ao aproximarmo-nos do local. Cruzados os portões, percorrendo os jardins, as suas alamedas e visitando a grandiosa construção em estilo neoclássico, do início do séc. XIX, ficámos com a sensação de termos recuado no tempo.
Da riquíssima história do lugar e dos seus vários proprietários, destaca-se Hermínia Silva d’Oliveira Paes, que recebeu o Palácio da Brejoeira de seu pai, como prenda do seu 18º aniversário. D. Hermínia, que ali viveu até aos 97 anos (faleceu em 2015), foi uma grande impulsionadora da plantação de vinha na região, nomeadamente de Alvarinho, casta a que dedicou toda a área de vinhedo, mais precisamente 18, dos 28 hectares da propriedade.
Entrada da propriedade do Palácio da Brejoeira
Fachada principal do Palácio da Brejoeira
Pormenor dos jardins do Palácio da Brejoeira
Prova vertical de brancos da casa
Prova vertical de brancos da casa
Deixámos o imponente palácio numa caminhada até às vinhas, passando pelo bosque e pelo romântico lago artificial, cuja ponte, ao estilo romano, faz a ligação a uma pequena ilha. São várias espécies de árvores que o circundam – carvalhos, pinheiros, plátanos, tílias, freixos, magnólias, sequóias – mas nos vinhedos, como referimos, apenas uma variedade, o Alvarinho. Da plantação original, de 1964, a primeira na região em parcela extensa, restavam 3 hectares, já com muitas falhas. O tempo trouxe maleitas e doenças, como a do lenho, que acabaram por ser implacáveis, também com o que restava das primeiras vinhas, pelo que em seu lugar, tal como já tinha acontecido antes, prepara-se agora a terra para receber novas videiras, que se esperam de igual qualidade, mas mais produtivas.
Não é propriamente segredo que a sociedade criada por Hermínia Paes, em 1999, e que tinha como homem de confiança Emílio Magalhães, actual sócio maioritário e administrador, debate-se nos dias de hoje com um grande desafio: o de manter todo um vasto património cumprindo os requisitos da anterior proprietária, entre eles, a obrigatoriedade de produzir a marca da casa apenas com as uvas próprias de Alvarinho. Actualmente, dos 18 hectares de vinha produzem-se 80 mil garrafas de vinho branco, elaborado a partir do primeiro e segundo esmagamento das uvas. O restante mosto que resulta de uma nova prensagem é destilado para dar origem, após longo estágio em barricas de carvalho francês, a 1000 garrafas numeradas da não menos famosa aguardente vínica envelhecida. Por fim, há ainda uma bagaceira produzida a partir do engaço, que conta, igualmente, com os seus adeptos.
Numa das salas do Palácio, o enólogo casa João Garrido preparou-nos uma prova vertical, com as colheitas de 2007, 2014, 2016, 2019, 2021 e 2022, numa rara oportunidade de ver a expressão de cada ano e a sua evolução ao longo dos tempos. E se o 2022 – ainda a pedir algum tempo de garrafa – mostrou toda a exuberância de um bom Alvarinho jovem, com as suas notas florais e aromas cítricos misturados com frutos tropicais, já os 2019 e 2021 revelaram a mesma fruta, numa expressão mais delicada e complexa.
Todavia, a grande expectativa estava nas colheitas mais antigas, sabendo que a acidez natural do Alvarinho neste terroir minhoto e nesta quinta é propicia a vinhos de guarda. E a revelação não podia ter ido mais nesse sentido. Com a idade, os vinhos ganharam uma cor dourada, e, à sua maneira, em cada uma destas colheitas sentimos os aromas frutados a ganharem nuances mais compotadas, a mel, marmelo, bem como a frutos secos e mesmo um toque apetrolado.
Talvez porque se aproximava a hora de almoço, e ainda havia uns quilómetros a percorrer, ficámos a pensar como as colheitas mais jovens do Palácio da Brejoeira acompanhariam bem, naquele momento, umas gambas da costa cozidas ou um peixe ao sal, enquanto reservávamos, para as mais antigas, uma galinha do campo no forno ou um pargo igualmente assado no forno.
Rumo a Ponte de Lima
Porém, não foi preciso entrar em delírio, porque um belo repasto nos esperava em Ponte de Lima, no restaurante Açude, numas das margens do rio que dá nome à cidade e a uma sub-regiões mais emblemáticas dos Vinhos Verdes. O convite para almoçar partiu da Adega Cooperativa de Ponte de Lima, congregação que reúne mais de 2 mil associados, ainda que só mil estejam activos, e que funciona, como referiu a presidente Celeste Patrocínio, como “a maior empresa do concelho”. O pretexto: conhecermos alguns dos seus vinhos acompanhados por especialidades do restaurante e da gastronomia local.
Em terras de Loureiro, teríamos de começar pelo seu top seller, elaborado 100% com uvas desta casta, um branco fresco, leve (com apenas 11.5%), com um ligeiro pico, que desceu redondo pelas gargantas sequiosas dos presentes. Naquele momento, naquela envolvente, com temperaturas altas a marcarem o termómetro, dificilmente teríamos um começo tão certeiro. É em redor desta casta que se congrega grande parte da produção, quer na sub-região do Lima, quer da cooperativa, que elabora vinhos a partir dos 6 a 7 milhões de toneladas das uvas que os tais 1000 viticultores entregam anualmente e em que mais de 85% dão origem a brancos, sendo que destes 95% são de Loureiro.
A fome apertava e quando a travessa do polvo à lagareiro chegou à mesa foi difícil resistir-lhe. Até porque esta especialidade do Açude impressionou logo pelo seu aspecto, com os tentáculos do bicho, de diâmetro generoso, a revelar um espécime de bom porte – isto sem desprezo para a escolta das batatas a murro ou dos grelos salteados, tudo bem regado com azeite de qualidade. A acompanhar, além do vinho âncora, dois outros Loureiros de perfil mais complexo, pensados para mesa e, particularmente, dizemos nós, para pratos mais contundentes como este polvo no forno, que se mostrou tenro e saboroso, ou como o arroz de serrabulho que se seguiu. Eram eles, o Reserva, um branco mais estruturado, de aroma floral, com ligeiras notas de frutos secos sem perder o seu toque cítrico; e o Solos de Xisto, de uma certa complexidade, aromático e envolvente.
Porém, a versatilidade destes vinhos da casta Loureiro, não se fica apenas pelos pratos mais rústicos da cozinha regional ou do receituário português e as suas características dão-lhe uma versatilidade que harmoniza, igualmente, com pratos mais leves e de outras latitudes, como se comprava a sua aceitação de norte a sul do país, bem como a nível internacional, para onde é expedida parte da produção.
Vale ainda a pena falar do tinto da casta Vinhão da Adega de Ponte de Lima, um vinho de sucesso que esgota quase todo na zona. Pode ser bebido ligeiramente refrescado num copo de vinho, ou numa malga branca, onde se vê bem a lágrima e a sua cor intensa, como manda a tradição. É, de facto, um vinho muito agradável e amigo da mesa. Não só se manteve firme com o sangue do sarrabulho bem como com os produtos de fumeiro que acompanhavam (aliás, que prato magnifico!), tal como – para surpresa nossa – com o pudim abade de priscos que se lhe seguiu. A sugestão para que acompanhássemos a sobremesa com o Vinhão partiu da própria presidente da Adega e embora a ligação parecesse estranha fez sentido, pelo lado acídulo e frutado que contrastava com a doçura do pudim. Enfim, nos tempos de hoje, em que há uma apetência para tintos mais frescos e leves, é altura dos tintos de Vinhão da Região dos Vinhos Verdes pularem a cerca e serem valorizados em todo o país.
Depois deste almoço ainda planeámos uma caminhada junto ao rio até ao centro da vila, com passagem pela notável ponte medieval da terra (que ainda mantém parte da estrutura romana primitiva), mas o horário já não permitia, dado que uma nova prova de Loureiros nos esperava, a umas dezenas de quilómetros dali.
Restaurante Açude, em Ponte de Lima
O “best seller” da Adega de Ponte de Lima
polvo à lagareiro
Arroz de sarrabulho
dois dos vinhos de gamas superiores da Adega de Ponte de Lima
ainda o arroz de sarrabulho do Açude
a lágrima rendilhada do Vinhão deixada na malga
toucinho do céu e leite creme – esta mistura “bomba” não existe, fomos nós que a criámos
a célebre ponte sobre o Rio Lima, vista junto ao restaurante Açude
Centro de Ponte de Lima
Quinta do Tamariz
A Quinta do Tamariz fica em Fonte Coberta, na sub-região do Cávado, numa localização privilegiada, uma vez que proporciona os benefícios de quem quer estar no campo sem ficar distante dos principais centros urbanos em redor: Barcelos, Famalicão, Braga e Guimarães estão entre 15 a 30 minutos e mesmo ao Porto, chega-se em menos de uma hora.
Esta quinta, com origem no Século XV, passou por vários processos, nomes e configurações e está na família de António Vinagre desde 1942. Hoje, com a actual denominação e gerida pelo próprio e pela sua mulher Francisca, abarca 30 hectares, dos quais 16 são dedicados à vinha, sendo os restantes de floresta, com mais de 320 árvores diferentes.
As vinhas da Quinta do Tamariz, actualmente em produção integrada (não são utilizados herbicidas, por exemplo), têm vindo a ser restruturadas gradualmente, ao longo das últimas décadas, e além de parcelas com castas tintas, como Vinhão e Touriga Nacional, ou brancas, como Alvarinho e Arinto, domina a Loureiro. Aliás, foi desta quinta que saiu, em 1986, o primeiro vinho na Região dos Vinhos Verdes certificado como tal, como monocasta Loureiro.
Não provámos essa colheita, mas a vertical de Loureiros que nos prepararam recuou até 1990 e incluiu algumas referências das gamas superiores lançadas a pensar no seu potencial de envelhecimento, como foi o caso do Escolha 2015 “Last Release” (ou seja, com de segundo lançamento, após alguns anos em garrafa) que mostrou uma frescura ímpar, revelando então a longevidade dos vinhos desta casta e da Quinta do Tamariz. Na prova, essa reputação ainda seria mais assertiva quando chegámos ao 2004. Isso mesmo, um Vinho Verde Loureiro com quase 20 anos! Neste caso, evidenciaram-se, naturalmente, alguns aromas de oxidação nobre, a mel e frutos secos como o damasco ou noz. Impressionante, mesmo.
Quer nas colheitas mais antigas quer nas mais recentes houve uma componente sempre presente em todos os vinhos (ainda que com intensidades diferentes): a acidez natural. E isso tem muito a ver com a casta e o terroir, claro, mas também com o trabalho delineado por António Vinagre na vinha, dado que trabalha apenas com uvas próprias, escolhendo-as de acordo com a sua maturação e com os vinhos que quer fazer, uma vez que dispõe de parcelas com diferentes exposições solares. Também o trabalho na adega é fundamental, desde a selecção das uvas de melhor qualidade, à opção por prensagens mais suaves, bem como fermentações a temperaturas controladas. Tudo isto ajuda a preservar as qualidades intrínsecas do vinho – a acidez, a fruta, as características aromáticas da casta – e evitar a oxidação precoce, condições importantes para a durabilidade destes vinhos.
Com um dia intenso, mas bem passado, o mais difícil da jornada foi conseguir cumprir o plano de visitas dentro dos horários, sobretudo porque estas duas últimas etapas mereciam mais tempo. Só que tínhamos de regressar ao Porto para apanhar o Alfa de regresso a Lisboa. Ainda assim, falhámos o comboio das 18.30h, mas felizmente fomos a tempo do das 20h. Afinal, e pedindo emprestada a assinatura da campanha dos Vinhos Verdes, parece que também há um Alfa para cada momento.
António Vinagre, proprietário da Quinta do Tamariz
parcela de vinha da Quinta do Tamariz
Parte da gama dos vinhos da Quinta do Tamariz. No caso, todos de loureiro
os vinhos à prova
A haver um vencedor… 2004!
—
Nota: Aceda ao site da Rota dos Vinhos Verdes e fique a conhecer ofertas de alojamento, provas de vinhos, passeios na vinha, picnics, SPA, passeios de jipe, percursos pedestres, entre outras propostas em que o Vinho Verde é o denominador comum para momentos únicos.
Depois de termos partido do Porto, em direcção a terras de Monção e Melgaço, numa rota de dois dias pela Região dos Vinhos Verdes, no segundo dia deixámos o Hotel Monte Prado e, seguindo a EN202, em paralelo ao Rio Minho, continuámos até sul de Melgaço. Aqui, encontrámos a EN101 que liga Valença a Mesão Frio, uma via concluída em 1983, em tempos considerada uma das mais bonitas estradas nacionais. Na altura, foi vista como uma via estruturante pela ligação estratégica de 4 distritos do Norte, bem como de 6 dos maiores rios nortenhos: Douro, Tâmega, Ave, Cávado, Lima e Minho – todos eles com a sua importância para Região dos Vinhos Verdes.
Uma prova vertical no Palácio da Brejoeira
Na mesma via, na sequência de uma longa reta, uma placa dourada marca o início da povoação de Pinheiros, cuja principal referência é uma das icónicas propriedades ligadas ao vinho em solo nacional, o Palácio da Brejoeira.
Já o vimos representado centena de vezes, nomeadamente na imagem reproduzida no rótulo do emblemático vinho que leva o seu nome e de que é o seu maior embaixador. Porém, não é por isso que deixou de nos impactar, ao aproximarmo-nos do local. Cruzados os portões, percorrendo os jardins, as suas alamedas e visitando a grandiosa construção em estilo neoclássico, do início do séc. XIX, ficámos com a sensação de termos recuado no tempo.
Da riquíssima história do lugar e dos seus vários proprietários, destaca-se Hermínia Silva d’Oliveira Paes, que recebeu o Palácio da Brejoeira de seu pai, como prenda do seu 18º aniversário. D. Hermínia, que ali viveu até aos 97 anos (faleceu em 2015), foi uma grande impulsionadora da plantação de vinha na região, nomeadamente de Alvarinho, casta a que dedicou toda a área de vinhedo, mais precisamente 18, dos 28 hectares da propriedade.
Deixámos o imponente palácio numa caminhada até às vinhas, passando pelo bosque e pelo romântico lago artificial, cuja ponte, ao estilo romano, faz a ligação a uma pequena ilha. São várias espécies de árvores que o circundam – carvalhos, pinheiros, plátanos, tílias, freixos, magnólias, sequóias – mas nos vinhedos, como referimos, apenas uma variedade, o Alvarinho. Da plantação original, de 1964, a primeira na região em parcela extensa, restavam 3 hectares, já com muitas falhas. O tempo trouxe maleitas e doenças, como a do lenho, que acabaram por ser implacáveis, também com o que restava das primeiras vinhas, pelo que em seu lugar, tal como já tinha acontecido antes, prepara-se agora a terra para receber novas videiras, que se esperam de igual qualidade, mas mais produtivas.
Não é propriamente segredo que a sociedade criada por Hermínia Paes, em 1999, e que tinha como homem de confiança Emílio Magalhães, actual sócio maioritário e administrador, debate-se nos dias de hoje com um grande desafio: o de manter todo um vasto património cumprindo os requisitos da anterior proprietária, entre eles, a obrigatoriedade de produzir a marca da casa apenas com as uvas próprias de Alvarinho. Actualmente, dos 18 hectares de vinha produzem-se 80 mil garrafas de vinho branco, elaborado a partir do primeiro e segundo esmagamento das uvas. O restante mosto que resulta de uma nova prensagem é destilado para dar origem, após longo estágio em barricas de carvalho francês, a 1000 garrafas numeradas da não menos famosa aguardente vínica envelhecida. Por fim, há ainda uma bagaceira produzida a partir do engaço, que conta, igualmente, com os seus adeptos.
Numa das salas do Palácio, o enólogo casa João Garrido preparou-nos uma prova vertical, com as colheitas de 2007, 2014, 2016, 2019, 2021 e 2022, numa rara oportunidade de ver a expressão de cada ano e a sua evolução ao longo dos tempos. E se o 2022 – ainda a pedir algum tempo de garrafa – mostrou toda a exuberância de um bom Alvarinho jovem, com as suas notas florais e aromas cítricos misturados com frutos tropicais, já os 2019 e 2021 revelaram a mesma fruta, numa expressão mais delicada e complexa.
Todavia, a grande expectativa estava nas colheitas mais antigas, sabendo que a acidez natural do Alvarinho neste terroir minhoto e nesta quinta é propicia a vinhos de guarda. E a revelação não podia ter ido mais nesse sentido. Com a idade, os vinhos ganharam uma cor dourada, e, à sua maneira, em cada uma destas colheitas sentimos os aromas frutados a ganharem nuances mais compotadas, a mel, marmelo, bem como a frutos secos e mesmo um toque apetrolado.
Talvez porque se aproximava a hora de almoço, e ainda havia uns quilómetros a percorrer, ficámos a pensar como as colheitas mais jovens do Palácio da Brejoeira acompanhariam bem, naquele momento, umas gambas da costa cozidas ou um peixe ao sal, enquanto reservávamos, para as mais antigas, uma galinha do campo no forno ou um pargo igualmente assado no forno.
Rumo a Ponte de Lima
Porém, não foi preciso entrar em delírio, porque um belo repasto nos esperava em Ponte de Lima, no restaurante Açude, numas das margens do rio que dá nome à cidade e a uma sub-regiões mais emblemáticas dos Vinhos Verdes. O convite para almoçar partiu da Adega Cooperativa de Ponte de Lima, congregação que reúne mais de 2 mil associados, ainda que só mil estejam activos, e que funciona, como referiu a presidente Celeste Patrocínio, como “a maior empresa do concelho”. O pretexto: conhecermos alguns dos seus vinhos acompanhados por especialidades do restaurante e da gastronomia local.
Em terras de Loureiro, teríamos de começar pelo seu top seller, elaborado 100% com uvas desta casta, um branco fresco, leve (com apenas 11.5%), com um ligeiro pico, que desceu redondo pelas gargantas sequiosas dos presentes. Naquele momento, naquela envolvente, com temperaturas altas a marcarem o termómetro, dificilmente teríamos um começo tão certeiro. É em redor desta casta que se congrega grande parte da produção, quer na sub-região do Lima, quer da cooperativa, que elabora vinhos a partir dos 6 a 7 milhões de toneladas das uvas que os tais 1000 viticultores entregam anualmente e em que mais de 85% dão origem a brancos, sendo que destes 95% são de Loureiro.
A fome apertava e quando a travessa do polvo à lagareiro chegou à mesa foi difícil resistir-lhe. Até porque esta especialidade do Açude impressionou logo pelo seu aspecto, com os tentáculos do bicho, de diâmetro generoso, a revelar um espécime de bom porte – isto sem desprezo para a escolta das batatas a murro ou dos grelos salteados, tudo bem regado com azeite de qualidade. A acompanhar, além do vinho âncora, dois outros Loureiros de perfil mais complexo, pensados para mesa e, particularmente, dizemos nós, para pratos mais contundentes como este polvo no forno, que se mostrou tenro e saboroso, ou como o arroz de serrabulho que se seguiu. Eram eles, o Reserva, um branco mais estruturado, de aroma floral, com ligeiras notas de frutos secos sem perder o seu toque cítrico; e o Solos de Xisto, de uma certa complexidade, aromático e envolvente.
Porém, a versatilidade destes vinhos da casta Loureiro, não se fica apenas pelos pratos mais rústicos da cozinha regional ou do receituário português e as suas características dão-lhe uma versatilidade que harmoniza, igualmente, com pratos mais leves e de outras latitudes, como se comprava a sua aceitação de norte a sul do país, bem como a nível internacional, para onde é expedida parte da produção.
Vale ainda a pena falar do tinto da casta Vinhão da Adega de Ponte de Lima, um vinho de sucesso que esgota quase todo na zona. Pode ser bebido ligeiramente refrescado num copo de vinho, ou numa malga branca, onde se vê bem a lágrima e a sua cor intensa, como manda a tradição. É, de facto, um vinho muito agradável e amigo da mesa. Não só se manteve firme com o sangue do sarrabulho bem como com os produtos de fumeiro que acompanhavam (aliás, que prato magnifico!), tal como – para surpresa nossa – com o pudim abade de priscos que se lhe seguiu. A sugestão para que acompanhássemos a sobremesa com o Vinhão partiu da própria presidente da Adega e embora a ligação parecesse estranha fez sentido, pelo lado acídulo e frutado que contrastava com a doçura do pudim. Enfim, nos tempos de hoje, em que há uma apetência para tintos mais frescos e leves, é altura dos tintos de Vinhão da Região dos Vinhos Verdes pularem a cerca e serem valorizados em todo o país.
Depois deste almoço ainda planeámos uma caminhada junto ao rio até ao centro da vila, com passagem pela notável ponte medieval da terra (que ainda mantém parte da estrutura romana primitiva), mas o horário já não permitia, dado que uma nova prova de Loureiros nos esperava, a umas dezenas de quilómetros dali.
Quinta do Tamariz
A Quinta do Tamariz fica em Fonte Coberta, na sub-região do Cávado, numa localização privilegiada, uma vez que proporciona os benefícios de quem quer estar no campo sem ficar distante dos principais centros urbanos em redor: Barcelos, Famalicão, Braga e Guimarães estão entre 15 a 30 minutos e mesmo ao Porto, chega-se em menos de uma hora.
Esta quinta, com origem no Século XV, passou por vários processos, nomes e configurações e está na família de António Vinagre desde 1942. Hoje, com a actual denominação e gerida pelo próprio e pela sua mulher Francisca, abarca 30 hectares, dos quais 16 são dedicados à vinha, sendo os restantes de floresta, com mais de 320 árvores diferentes.
As vinhas da Quinta do Tamariz, actualmente em produção integrada (não são utilizados herbicidas, por exemplo), têm vindo a ser restruturadas gradualmente, ao longo das últimas décadas, e além de parcelas com castas tintas, como Vinhão e Touriga Nacional, ou brancas, como Alvarinho e Arinto, domina a Loureiro. Aliás, foi desta quinta que saiu, em 1986, o primeiro vinho na Região dos Vinhos Verdes certificado como tal, como monocasta Loureiro.
Não provámos essa colheita, mas a vertical de Loureiros que nos prepararam recuou até 1990 e incluiu algumas referências das gamas superiores lançadas a pensar no seu potencial de envelhecimento, como foi o caso do Escolha 2015 “Last Release” (ou seja, com de segundo lançamento, após alguns anos em garrafa) que mostrou uma frescura ímpar, revelando então a longevidade dos vinhos desta casta e da Quinta do Tamariz. Na prova, essa reputação ainda seria mais assertiva quando chegámos ao 2004. Isso mesmo, um Vinho Verde Loureiro com quase 20 anos! Neste caso, evidenciaram-se, naturalmente, alguns aromas de oxidação nobre, a mel e frutos secos como o damasco ou noz. Impressionante, mesmo.
Quer nas colheitas mais antigas quer nas mais recentes houve uma componente sempre presente em todos os vinhos (ainda que com intensidades diferentes): a acidez natural. E isso tem muito a ver com a casta e o terroir, claro, mas também com o trabalho delineado por António Vinagre na vinha, dado que trabalha apenas com uvas próprias, escolhendo-as de acordo com a sua maturação e com os vinhos que quer fazer, uma vez que dispõe de parcelas com diferentes exposições solares. Também o trabalho na adega é fundamental, desde a selecção das uvas de melhor qualidade, à opção por prensagens mais suaves, bem como fermentações a temperaturas controladas. Tudo isto ajuda a preservar as qualidades intrínsecas do vinho – a acidez, a fruta, as características aromáticas da casta – e evitar a oxidação precoce, condições importantes para a durabilidade destes vinhos.
Com um dia intenso, mas bem passado, o mais difícil da jornada foi conseguir cumprir o plano de visitas dentro dos horários, sobretudo porque estas duas últimas etapas mereciam mais tempo. Só que tínhamos de regressar ao Porto para apanhar o Alfa de regresso a Lisboa. Ainda assim, falhámos o comboio das 18.30h, mas felizmente fomos a tempo do das 20h. Afinal, e pedindo emprestada a assinatura da campanha dos Vinhos Verdes, parece que também há um Alfa para cada momento.
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Nota: Aceda ao site da Rota dos Vinhos Verdes e fique a conhecer ofertas de alojamento, provas de vinhos, passeios na vinha, picnics, SPA, passeios de jipe, percursos pedestres, entre outras propostas em que o Vinho Verde é o denominador comum para momentos únicos.
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