Por Daniel Rocha e Silva*
No labirinto sensorial que é o mundo do vinho, onde cada garrafa encerra uma história única de terroir, casta e visão do produtor, aplicações como o Vivino surgem como guias digitais aparentemente infalíveis, autênticos faróis digitais, prometendo guiar-nos através da névoa da indecisão. Desvendam os segredos do nosso paladar e antecipam as nossas preferências com a precisão fria dos algoritmos. Armados com estes mecanismos complexos e vastas bases de dados de avaliações, oferecem-se para decifrar os nossos gostos, e, em última instância, simplificar as nossas escolhas. E se, por um lado, esta promessa de conveniência e personalização parece sedutora, esconde-se uma potencial “tirania do paladar algorítmico” que pode limitar a nossa exploração sensorial, homogeneizar a rica tapeçaria do vinho e, inclusive, ditar o que (não) devemos beber.
Estas aplicações não surgiram de um vácuo, e é fundamental para quem trabalha no mundo dos vinhos aperceber-se também desse facto. O misticismo, o mundo fechado e “oculto”, a dificuldade e os entraves tantas vezes colocados, tornam esta área um terreno fértil para a utilização destas aplicações, e a tentativa de simplificação através das mesmas. Para mais, não foram as aplicações que inventaram as pontuações nos vinhos. A tirania das pontuações, seja através de gatekeepers ou “das massas”, não é um fenómeno novo. Não obstante, ao olharmos para os longos textos escritos em algumas das publicações que continuam a emitir pontuações, e do outro lado a simplificação das aplicações de classificação, percebemos que existe uma diferença real entre as duas.
A miragem da objetividade digital: a sedutora matemática do gosto (aparentemente) universal
A apresentação de vinhos com elevadas pontuações, fruto da agregação de milhares de avaliações, projeta uma aura de objetividade inquestionável. Confrontados com este selo digital de aprovação coletiva, podemos sentir-nos compelidos a alinhar a nossa própria percepção com a “sabedoria das massas” digitalmente destilada. Cria-se um ciclo vicioso onde a pontuação influencia a expectativa, que por sua vez pode moldar a própria experiência sensorial. Será que estamos genuinamente a saborear o vinho pelas suas qualidades intrínsecas, ou estamos, de alguma forma, a provar a pontuação? Esta delegação da autonomia gustativa a uma fórmula matemática levanta questões sobre a autenticidade da nossa relação com o vinho. Estaremos a beber o que realmente nos agrada, ou o que o algoritmo nos convence a apreciar?
A beleza da jornada pelo mundo do vinho reside também na exploração, na descoberta fortuita de um rótulo inesperado que desafia as nossas expectativas e expande o nosso paladar. Se os algoritmos nos confinam a uma bolha de preferências pre-existentes, baseadas em padrões de avaliações passadas, corremos o risco de perder estas serendipidades sensoriais. A constante sugestão do que “você já gostou” pode impedir-nos de nos aventurarmos por regiões desconhecidas, por castas minoritárias ou por estilos de vinificação inovadores que poderiam vir a enriquecer a nossa experiência.
Esta ilusão de objetividade leva-nos a ver nestas pontuações um atalho seguro para o prazer, evitando o desconforto da incerteza e da potencial decepção. No entanto, ao fazê-lo, podemos estar a perder uma oportunidade crucial de desenvolver o nosso próprio paladar, de aprender a confiar nas nossas próprias impressões sensoriais e de construir uma relação pessoal e autêntica com o vinho. A analogia com outros domínios culturais é pertinente. Se apenas ouvíssemos músicas semelhantes às que já ouvimos, se apenas assistíssemos a filmes do mesmo género dos nossos favoritos. A nossa apreciação artística tornar-se-ia estagnada, privada da fertilidade do novo e do inesperado. Da mesma forma, ao confiarmos excessivamente nos algoritmos para guiar as nossas escolhas de vinho, podemos estar inadvertidamente a limitar a nossa capacidade de cultivar o gosto, a empobrecer a nossa paleta e a perder a emoção da descoberta.
A erosão da diversidade vínica
O mundo do vinho é um ecossistema vibrante, onde coexistem uma miríade de castas, terroirs e filosofias de produção, resultando numa tapeçaria de estilos e expressões infinitamente rica. Se somos predominantemente guiados por algoritmos que favorecem vinhos de gosto generalizado, poderá haver uma pressão indireta sobre os produtores para criarem vinhos que se encaixem nestes “perfis de sucesso” algorítmicos. Uma vez mais, as semelhanças com o passado, e a tirania das pontuações, não nos devem ser indiferentes. Apenas que, desta feita, a simplicidade superficial da aplicação e a sua mediação acrescentam opacidade à responsabilidade.
A maioria destes algoritmos prospera em padrões e médias. Ao agregar as preferências de milhões de utilizadores, tendem a destacar os vinhos que obtêm uma aprovação generalizada. Embora isto possa ser útil para identificar rótulos de qualidade consensual, pode também levar a uma certa homogeneização do gosto. Vinhos singulares, com características menos convencionais ou que apelam a nichos específicos, podem ser inadvertidamente marginalizados, levando a uma gradual erosão da diversidade, preteridos em favor de opções mais “seguras” e com maior probabilidade de agradar à maioria.
Este fenómeno pode ser comparado ao impacto das grandes plataformas de streaming na indústria musical ou cinematográfica, onde os algoritmos tendem a destacar o conteúdo com maior potencial de agradar a um público vasto, em detrimento de obras de nicho ou experimentais. No mundo do vinho, esta “otimização algorítmica” pode levar a uma certa homogeneização de estilos, onde a busca pela aprovação digital suplanta a ousadia da inovação e a fidelidade à identidade única de cada terroir, resultando numa paisagem vínica menos vibrante e multifacetada.
Reduzindo o vinho a dados e pontuações
A experiência de apreciar um vinho é intrinsecamente ligada ao contexto físico e social em que ocorre. Envolve o contexto em que é apreciado – a companhia, a refeição, o ambiente –, as memórias e as emoções que evoca. Uma garrafa partilhada numa celebração especial adquire um significado que vai muito além das suas características organolépticas. As aplicações, ao focarem-se em métricas e pontuações, tendem a descontextualizar e desmaterializar esta experiência holística, reduzindo o vinho a um conjunto de dados a serem avaliados e comparados.
Perdemos, assim, a oportunidade de desenvolver uma relação mais profunda com o vinho, de apreciar a sua história, a sua origem e o trabalho artesanal que está por detrás de cada garrafa – todas estas dimensões da experiência vínica são atenuadas quando a nossa interação com o vinho é mediada principalmente por um ecrã.
Ao priorizarmos a pontuação em detrimento da narrativa, corremos o risco de transformar o vinho num mero produto de consumo, desprovido da sua profundidade cultural e emocional.
A filosofia do gosto desafiada: o paladar ditado por um código binário?
O que significa, afinal, realmente “gostar” de um vinho? É uma resposta puramente fisiológica, uma reação química das nossas papilas gustativas aos compostos presentes na bebida? Ou está intrinsecamente ligado à nossa história pessoal, às nossas referências culturais, às nossas experiências passadas? A filosofia do gosto sempre reconheceu esta teia de complexidade e nuances. Um algoritmo, por mais sofisticado que seja, pode realmente capturar a miríade de factores que influenciam a nossa apreciação? Em última análise, a questão central reside na nossa autonomia enquanto apreciadores de vinho. Permitiremos que algoritmos, por mais sofisticados que sejam, ditem o que o nosso paladar deve desejar? Abdicaremos da nossa capacidade inata de explorar, de sentir e de formar as nossas próprias opiniões sensoriais? A verdadeira liberdade na apreciação do vinho reside na reivindicação do nosso próprio paladar, na coragem de experimentar sem o medo do julgamento algorítmico – ou humano.
A ética da recomendação: entre a ajuda e a hegemonia algorítmica
As aplicações podem ser ferramentas úteis, fornecendo informação e facilitando a descoberta inicial. No entanto, devem ser encaradas como um ponto de partida, um trampolim para a nossa própria exploração sensorial, e nunca como um substituto para a nossa curiosidade e a nossa capacidade de julgamento individual.
Fundamentalmente, as aplicações podem servir como ferramenta de ajuda, apoio, e, inclusive, de descoberta. Podem servir para empoderar os seus utilizadores, oferecendo ferramentas para expandir horizontes. No entanto, demasiadas vezes são antes utilizadas como juízes únicos da qualidade de um vinho, de um produtor. Desse modo, acabam por aprisionar-nos em bolhas de preferência, reforçando gostos pre-existentes e limitando a nossa abertura a novas experiências.
A linha entre uma ajuda útil e uma hegemonia algorítmica subtil pode ser ténue. Se os seus utilizadores confiam cegamente nas recomendações das aplicações, sem desenvolverem o seu próprio sentido crítico e a sua própria curiosidade, correm o risco de se tornarem reféns de um paladar ditado por um código. A verdadeira apreciação do vinho reside na jornada pessoal de descoberta, na liberdade de experimentar, de errar e de formar as nossas próprias opiniões, independentemente do que um algoritmo nos diga que deveríamos gostar.
Conclusão
Em última análise, enquanto as aplicações de vinho oferecem uma conveniência inegável na navegação pelo vasto mundo vínico, é fundamental manter um olhar crítico sobre a sua influência na nossa experiência sensorial. A riqueza do mundo do vinho espera por aqueles que se atrevem a desviar-se do caminho traçado pelos algoritmos, a confiar nos seus próprios sentidos e a abraçar a maravilhosa aventura do paladar. A verdadeira riqueza do vinho reside na sua diversidade, na sua capacidade de surpreender e de evocar emoções únicas em cada indivíduo. Render-se completamente à tirania do paladar algorítmico seria sacrificar a aventura da exploração, a singularidade do gosto pessoal e a profunda conexão que podemos estabelecer com esta bebida milenar. A chave reside em usar estas ferramentas como um ponto de partida, um auxílio na nossa jornada, mas nunca como um substituto para a nossa própria curiosidade, o nosso paladar individual e a alegria da descoberta. Para aqueles, como eu, que trabalham diariamente nesta área, devem também servir como um alerta de que estamos possivelmente a fazer algo de errado no nosso trabalho, quando existe uma maior confiança numa aplicação do que na pessoa que está à nossa frente.
* Daniel Rocha e Silva – depois de vários anos a viver fora de Portugal entre livros de relações internacionais e análises de risco político, decidiu regressar e dedicar-se à área que sempre o apaixonou: a restauração e o serviço. Passou pelo restaurante Prado (Lisboa) e em 2023 integrou também a equipa que acompanhou o Chef João Rodrigues no seu projecto Residência. Faz parte da equipa do Essencial (Lisboa) desde a sua abertura, enquanto responsável de bebidas e sala. Apaixonado pela natureza e viagens. Idealmente conjugadas com visitas a produtores nacionais e internacionais que produzam vinhos com carácter, vivos e que expressem o seu terroir. No âmbito dos Prémios Mesa Marcada, a votação de um júri de especialistas do meio atribuiu-lhe o Prémio Especial S. Pellegrino/Acqua Panna Escanção do Ano 2023.
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. As palavras do vinho: como falamos (e sentimos) o que bebemos
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No labirinto sensorial que é o mundo do vinho, onde cada garrafa encerra uma história única de terroir, casta e visão do produtor, aplicações como o Vivino surgem como guias digitais aparentemente infalíveis, autênticos faróis digitais, prometendo guiar-nos através da névoa da indecisão. Desvendam os segredos do nosso paladar e antecipam as nossas preferências com a precisão fria dos algoritmos. Armados com estes mecanismos complexos e vastas bases de dados de avaliações, oferecem-se para decifrar os nossos gostos, e, em última instância, simplificar as nossas escolhas. E se, por um lado, esta promessa de conveniência e personalização parece sedutora, esconde-se uma potencial “tirania do paladar algorítmico” que pode limitar a nossa exploração sensorial, homogeneizar a rica tapeçaria do vinho e, inclusive, ditar o que (não) devemos beber.
Estas aplicações não surgiram de um vácuo, e é fundamental para quem trabalha no mundo dos vinhos aperceber-se também desse facto. O misticismo, o mundo fechado e “oculto”, a dificuldade e os entraves tantas vezes colocados, tornam esta área um terreno fértil para a utilização destas aplicações, e a tentativa de simplificação através das mesmas. Para mais, não foram as aplicações que inventaram as pontuações nos vinhos. A tirania das pontuações, seja através de gatekeepers ou “das massas”, não é um fenómeno novo. Não obstante, ao olharmos para os longos textos escritos em algumas das publicações que continuam a emitir pontuações, e do outro lado a simplificação das aplicações de classificação, percebemos que existe uma diferença real entre as duas.
A miragem da objetividade digital: a sedutora matemática do gosto (aparentemente) universal
A apresentação de vinhos com elevadas pontuações, fruto da agregação de milhares de avaliações, projeta uma aura de objetividade inquestionável. Confrontados com este selo digital de aprovação coletiva, podemos sentir-nos compelidos a alinhar a nossa própria percepção com a “sabedoria das massas” digitalmente destilada. Cria-se um ciclo vicioso onde a pontuação influencia a expectativa, que por sua vez pode moldar a própria experiência sensorial. Será que estamos genuinamente a saborear o vinho pelas suas qualidades intrínsecas, ou estamos, de alguma forma, a provar a pontuação? Esta delegação da autonomia gustativa a uma fórmula matemática levanta questões sobre a autenticidade da nossa relação com o vinho. Estaremos a beber o que realmente nos agrada, ou o que o algoritmo nos convence a apreciar?
A beleza da jornada pelo mundo do vinho reside também na exploração, na descoberta fortuita de um rótulo inesperado que desafia as nossas expectativas e expande o nosso paladar. Se os algoritmos nos confinam a uma bolha de preferências pre-existentes, baseadas em padrões de avaliações passadas, corremos o risco de perder estas serendipidades sensoriais. A constante sugestão do que “você já gostou” pode impedir-nos de nos aventurarmos por regiões desconhecidas, por castas minoritárias ou por estilos de vinificação inovadores que poderiam vir a enriquecer a nossa experiência.
Esta ilusão de objetividade leva-nos a ver nestas pontuações um atalho seguro para o prazer, evitando o desconforto da incerteza e da potencial decepção. No entanto, ao fazê-lo, podemos estar a perder uma oportunidade crucial de desenvolver o nosso próprio paladar, de aprender a confiar nas nossas próprias impressões sensoriais e de construir uma relação pessoal e autêntica com o vinho. A analogia com outros domínios culturais é pertinente. Se apenas ouvíssemos músicas semelhantes às que já ouvimos, se apenas assistíssemos a filmes do mesmo género dos nossos favoritos. A nossa apreciação artística tornar-se-ia estagnada, privada da fertilidade do novo e do inesperado. Da mesma forma, ao confiarmos excessivamente nos algoritmos para guiar as nossas escolhas de vinho, podemos estar inadvertidamente a limitar a nossa capacidade de cultivar o gosto, a empobrecer a nossa paleta e a perder a emoção da descoberta.
A erosão da diversidade vínica
O mundo do vinho é um ecossistema vibrante, onde coexistem uma miríade de castas, terroirs e filosofias de produção, resultando numa tapeçaria de estilos e expressões infinitamente rica. Se somos predominantemente guiados por algoritmos que favorecem vinhos de gosto generalizado, poderá haver uma pressão indireta sobre os produtores para criarem vinhos que se encaixem nestes “perfis de sucesso” algorítmicos. Uma vez mais, as semelhanças com o passado, e a tirania das pontuações, não nos devem ser indiferentes. Apenas que, desta feita, a simplicidade superficial da aplicação e a sua mediação acrescentam opacidade à responsabilidade.
A maioria destes algoritmos prospera em padrões e médias. Ao agregar as preferências de milhões de utilizadores, tendem a destacar os vinhos que obtêm uma aprovação generalizada. Embora isto possa ser útil para identificar rótulos de qualidade consensual, pode também levar a uma certa homogeneização do gosto. Vinhos singulares, com características menos convencionais ou que apelam a nichos específicos, podem ser inadvertidamente marginalizados, levando a uma gradual erosão da diversidade, preteridos em favor de opções mais “seguras” e com maior probabilidade de agradar à maioria.
Este fenómeno pode ser comparado ao impacto das grandes plataformas de streaming na indústria musical ou cinematográfica, onde os algoritmos tendem a destacar o conteúdo com maior potencial de agradar a um público vasto, em detrimento de obras de nicho ou experimentais. No mundo do vinho, esta “otimização algorítmica” pode levar a uma certa homogeneização de estilos, onde a busca pela aprovação digital suplanta a ousadia da inovação e a fidelidade à identidade única de cada terroir, resultando numa paisagem vínica menos vibrante e multifacetada.
Reduzindo o vinho a dados e pontuações
A experiência de apreciar um vinho é intrinsecamente ligada ao contexto físico e social em que ocorre. Envolve o contexto em que é apreciado – a companhia, a refeição, o ambiente –, as memórias e as emoções que evoca. Uma garrafa partilhada numa celebração especial adquire um significado que vai muito além das suas características organolépticas. As aplicações, ao focarem-se em métricas e pontuações, tendem a descontextualizar e desmaterializar esta experiência holística, reduzindo o vinho a um conjunto de dados a serem avaliados e comparados.
Perdemos, assim, a oportunidade de desenvolver uma relação mais profunda com o vinho, de apreciar a sua história, a sua origem e o trabalho artesanal que está por detrás de cada garrafa – todas estas dimensões da experiência vínica são atenuadas quando a nossa interação com o vinho é mediada principalmente por um ecrã.
Ao priorizarmos a pontuação em detrimento da narrativa, corremos o risco de transformar o vinho num mero produto de consumo, desprovido da sua profundidade cultural e emocional.
A filosofia do gosto desafiada: o paladar ditado por um código binário?
O que significa, afinal, realmente “gostar” de um vinho? É uma resposta puramente fisiológica, uma reação química das nossas papilas gustativas aos compostos presentes na bebida? Ou está intrinsecamente ligado à nossa história pessoal, às nossas referências culturais, às nossas experiências passadas? A filosofia do gosto sempre reconheceu esta teia de complexidade e nuances. Um algoritmo, por mais sofisticado que seja, pode realmente capturar a miríade de factores que influenciam a nossa apreciação? Em última análise, a questão central reside na nossa autonomia enquanto apreciadores de vinho. Permitiremos que algoritmos, por mais sofisticados que sejam, ditem o que o nosso paladar deve desejar? Abdicaremos da nossa capacidade inata de explorar, de sentir e de formar as nossas próprias opiniões sensoriais? A verdadeira liberdade na apreciação do vinho reside na reivindicação do nosso próprio paladar, na coragem de experimentar sem o medo do julgamento algorítmico – ou humano.
A ética da recomendação: entre a ajuda e a hegemonia algorítmica
As aplicações podem ser ferramentas úteis, fornecendo informação e facilitando a descoberta inicial. No entanto, devem ser encaradas como um ponto de partida, um trampolim para a nossa própria exploração sensorial, e nunca como um substituto para a nossa curiosidade e a nossa capacidade de julgamento individual.
Fundamentalmente, as aplicações podem servir como ferramenta de ajuda, apoio, e, inclusive, de descoberta. Podem servir para empoderar os seus utilizadores, oferecendo ferramentas para expandir horizontes. No entanto, demasiadas vezes são antes utilizadas como juízes únicos da qualidade de um vinho, de um produtor. Desse modo, acabam por aprisionar-nos em bolhas de preferência, reforçando gostos pre-existentes e limitando a nossa abertura a novas experiências.
A linha entre uma ajuda útil e uma hegemonia algorítmica subtil pode ser ténue. Se os seus utilizadores confiam cegamente nas recomendações das aplicações, sem desenvolverem o seu próprio sentido crítico e a sua própria curiosidade, correm o risco de se tornarem reféns de um paladar ditado por um código. A verdadeira apreciação do vinho reside na jornada pessoal de descoberta, na liberdade de experimentar, de errar e de formar as nossas próprias opiniões, independentemente do que um algoritmo nos diga que deveríamos gostar.
Conclusão
Em última análise, enquanto as aplicações de vinho oferecem uma conveniência inegável na navegação pelo vasto mundo vínico, é fundamental manter um olhar crítico sobre a sua influência na nossa experiência sensorial. A riqueza do mundo do vinho espera por aqueles que se atrevem a desviar-se do caminho traçado pelos algoritmos, a confiar nos seus próprios sentidos e a abraçar a maravilhosa aventura do paladar. A verdadeira riqueza do vinho reside na sua diversidade, na sua capacidade de surpreender e de evocar emoções únicas em cada indivíduo. Render-se completamente à tirania do paladar algorítmico seria sacrificar a aventura da exploração, a singularidade do gosto pessoal e a profunda conexão que podemos estabelecer com esta bebida milenar. A chave reside em usar estas ferramentas como um ponto de partida, um auxílio na nossa jornada, mas nunca como um substituto para a nossa própria curiosidade, o nosso paladar individual e a alegria da descoberta. Para aqueles, como eu, que trabalham diariamente nesta área, devem também servir como um alerta de que estamos possivelmente a fazer algo de errado no nosso trabalho, quando existe uma maior confiança numa aplicação do que na pessoa que está à nossa frente.
* Daniel Rocha e Silva – depois de vários anos a viver fora de Portugal entre livros de relações internacionais e análises de risco político, decidiu regressar e dedicar-se à área que sempre o apaixonou: a restauração e o serviço. Passou pelo restaurante Prado (Lisboa) e em 2023 integrou também a equipa que acompanhou o Chef João Rodrigues no seu projecto Residência. Faz parte da equipa do Essencial (Lisboa) desde a sua abertura, enquanto responsável de bebidas e sala. Apaixonado pela natureza e viagens. Idealmente conjugadas com visitas a produtores nacionais e internacionais que produzam vinhos com carácter, vivos e que expressem o seu terroir. No âmbito dos Prémios Mesa Marcada, a votação de um júri de especialistas do meio atribuiu-lhe o Prémio Especial S. Pellegrino/Acqua Panna Escanção do Ano 2023.
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